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sábado, 5 de março de 2016

Gatilho

Você se vê parado frente a um monte de gente. Todo mundo à tua volta espera de você alguma coisa. Coisas deles, expectativas deles, nunca as tuas. Apreciam tua educação, teus modos, teu jeito dócil. Adoram que você aja como esperado, isso os tranquiliza, pois assim eles podem ter certeza de que você não é louco. Ande na linha, e eles te darão, quem sabe, uma pequena recompensa por ser um bom garoto. Mas quando a recompensa dada não mata tua fome, quando teus modos sufocam o grito travado na garganta há décadas, quando ser dócil é uma tortura, te acusam de ingrato, te dizem para fazer terapia, te dizem para ver a vida pelo lado bom.
Você se vê parado diante de toda essa gente, os olhos deles passeando entre você e a arma na tua mão, que você conseguiu tirar do vigia na antessala do banco, e que pende ao lado da tua perna direita. Há tanto medo nesses olhares. Há medo no ar, você sente o cheiro. É sutil, mas te deixa alerta, do mesmo jeito que a cocaína. Na tua frente, um senhor tenta conversar com você, pedindo calma. Sempre aparece um desses. É engraçado como o pavor anula tua capacidade de enxergar certas coisas, como, por exemplo: você nunca deve tentar argumentar com o cara da arma. Ele está apavorado. Você não. Você sabe exatamente o que está fazendo. Você ergue a arma e aponta para a cabeça do homem à tua frente. Você sabe o que está fazendo. Por isso você puxa o gatilho.
Quando cai o primeiro corpo ao chão, as pessoas sabem que perderam o controle da situação. Você vê a súplica impressa nos olhos de todos eles. Eles têm filhos, esposa, marido, irmãos, pai, mãe, cachorro e gato. Eles têm trabalho e uma vida feliz. Eles têm medo que o fluxo constante e entorpecido de suas vidas seja interrompido. Você não. Você só tem a arma agora. Por isso puxa o gatilho de novo. E de novo. E de novo...

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Coveiro

Da vez primeira que me assassinaramPerdi um jeito de sorrir que tinha...
Depois de cada vez que me mataram
Foram levando qualquer coisa minha...

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela amarelada...
Como único bem que me ficou!

Vinde corvos, chacais, ladrões de estrada!
Ah! Desta mão avaramente adunca
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!

Mário Quintana - Soneto XVII

Enterrei mais um hoje. Esse teve que ser na chuva mesmo, pois já estava morto havia um tempo, por isso não podia deixar para depois. Era pesado. Estava cheio de mágoas, expectativas, rancores... Difícil de carregar o caixão quando é assim. Pior ainda na lama. Ele atola. As mãos molhadas pela chuva escorregam da alça como se estivessem untadas com manteiga. Não é nenhum alívio quando o caixão cai na cova. Ainda tem um bocado de terra lodacenta para jogar em cima dele. A roupa molhada pesa. Junte isso ao esforço físico, e tudo no trabalho se torna uma penitência. Nesse tipo de trabalho, ajuda é coisa que não existe. Você enterra uns três por dia sozinho, quando não são mais. É assim quando você vai enterrar os seus mortos. Cada cadáver de você é diferente. Você morre cada dia em momentos diferentes, sendo pessoas diferentes. Mesmo quando se é o coveiro de tantos mortos, sua hora chega "impressentida, jamais inesperada". A pergunta que fica é quem vai enterrar o seu cadáver nesse infinito cemitério interior, onde se sepulta tudo o que se foi e o que se queria ser.

Editada pelo autor.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Em cativeiro

De vez em quando vejo a Morte passar pela janela...

Daqui da gaiola, minhas visões são um quarto finamente mobiliado, minuciosamente arrumado, e uma janela que dá para um jacarandá mimoso. A porta se abre às vezes, e por ela passa o homem que me capturou. A ele bastou um punhado de alpiste e uma caixa de papelão. Só isso. E cá estou eu, engaiolado. Antes da gaiola eu voava. E cantava, naturalmente, como os rouxinóis costumam fazer. No dia em que perdi minha liberdade, eu voava longe do ninho, inadvertido dos homens que amam pássaros. E o amor dos homens geralmente aprisiona.
Por isso estou aqui. Esse homem me ama. Por isso me prende, e não parece haver chance de me deixar ir. Ele gosta da minha canção. Ele me acha belo. Ele me quer. Ele diz que me protege, que cuida de mim e que quer meu bem. Diz que vai me deixar longe de qualquer perigo. Ele não pergunta o que quero, porque não entende o que digo, tampouco é capaz de perceber que meu canto desde a gaiola é triste.
E daqui vejo a janela, e depois da janela o jacarandá. Faz alguns dias que floriu. Suas flores de cor transmutadora são o mais próximo de prazer que posso conseguir. Seu perfume sutil acende em mim um desejo que jamais se realizará enquanto houver estas finas barras de aço entre eu e ele. Seria verdadeiramente livre se estivesse pousado a um galho desta árvore.
Mas existem grades. De vez quando vejo a Morte passar pela janela, entre eu, em minha gaiola, e o jacarandá. Ela sorri, acena e dá bom dia. Quando olho para ela, logo penso que sua carícia mortal poderia me dar asas que metal algum aprisionaria. Assim, libertado da gaiola e do corpo, poderia abraçar o jacarandá mimoso com todo amor que guardei durante tanto tempo. Por isso, pergunto a ela, à Morte, quase exasperado, quando ela me vem levar.
Mas, como sua visita é sempre rápida e indefinitiva, ela apenas sorri, vira as costas e some.

Fonte: http://static.panoramio.com/photos/

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Caso de hospital

Cheguei ao leito do paciente na UTI por volta das 23:14. Os monitores apontavam fracos sinais vitais que pareciam persistir por mero capricho. As ataduras, recém trocadas, já se encharcavam novamente de sangue. Estava, como se diz na minha terra, "na capa da gaita". Deve ter sido um milagre operado por algum santo ou pelo próprio Senhor que o manteve vivo. Ferimentos daquela gravidade teriam matado o mais forte dos homens. No entanto, aquele jovem magro e nitidamente frágil conservava o fio de fumaça de incenso que era sua vida com evidente desejo. Por trás dos olhos fechados notava-se um fogo furioso, que forçava os batentes das pálpebras querendo sair.
Ouvi passos atrás de mim, olhei para trás e cumprimentei o Dr. Cubas, o médico de plantão naquela noite. Observou os monitores, checou as pupilas do paciente e fez algumas anotações em sua prancheta. Suspirou e murmurou "pobre infeliz". Eu, que não acompanhara o caso do início, perguntei:
- O que aconteceu com esse aí, Doutor?
Dr. Cubas, como que saindo de um devaneio, olhou para mim e disse:
- Ah, como pode notar, este jovem foi brutalmente violentado. Teve o braço esquerdo arrancado e uma estaca de madeira rústica cravada em seu peito, pegando de cheio o coração, fora as feridas menores. Vítima infeliz, de fato, mas bem comum.
- E é muito comum ataques de animais selvagens pela região, Doutor? - perguntei, ingênuo.
- Animais? - Dr. Cubas riu - Animal nenhum teria feito o que foi feito com esse jovem. Os animais são menos cruéis, meu caro enfermeiro. Não, não foi um animal. Ferimentos dessa gravidade só são provocados pela criatura mais cruel que um jovem como este pode encontrar.
Silêncio. Perguntei:
- E qual é?
-Ora, - respondeu o Dr. Cubas - a mulher, naturalmente.
Engasguei com meu próprio espanto.
- Uma mulher?! Como uma simples mulher teria conseguido arrancar um braço dessa forma? Cravar uma estaca cega no peito de alguém com tamanha brutalidade?
Dr. Cubas guardou silêncio por mais alguns instantes, olhando fixamente para o rosto do paciente, como que sabendo o que ele sentia. Depois de alguns minutos, falou:
- Meu desavisado enfermeiro, o que vês não são as feridas do corpo, mas as feridas infligidas na alma desse pobre rapaz. Vês, quando se está nessa idade, ainda mais quando se trata de um jovem poeta, tudo é novo, e tudo é intenso. Há no coração desses sonhadores mais amor do que se devia dar, e, como bem sabes, amor é coisa que não pode ficar com a gente - precisa ser passado adiante. Porém, sabemos como dói essa história de dar amor, e o único analgésico eficaz contra isso é receber amor de volta. O aconteceu com este rapaz foi que ele esperou amor como quem espera o troco de dinheiro exato. O que recebeu foi a brutalidade do adeus de quem mexe em nosso peito sem jamais estender uma mão amiga para consolar. Acredito que este jovem tenha se unido a uma moça de corpo e alma (pois é assim que se troca amor), e bem sabemos o quanto os seres se fundem quando há amor. Imagine o processo de separar duas folhas de papel coladas com cola branca. Quando se separaram, a moça sem querer lhe arrancou o braço e um bom pedaço do coração, saindo quase intacta dessa união, porque geralmente só uma folha sai intacta quando tentamos separá-las.
- E a estaca? - perguntei.
- No desespero, - respondeu o Doutor - sem saber o que fazer com a lacuna que deixara no peito do desafortunado rapaz, ela preencheu o vazio com a primeira coisa que viu pela frente. Só não percebeu que era uma estaca de madeira cheia de farpas que ela estava introduzindo no peito do infeliz.
- Mas, Doutor... - indaguei - Disseste que as mulheres são cruéis, no entanto estás pintando o caso como se a moça que fez isso com nosso paciente fosse inocente!
- E é, meu caro amigo. - disse o Doutor pacientemente - As mulheres são cruéis porque isso é de sua natureza, mas não é que elas queiram; as mulheres são cruéis sem querer. Quando este rapaz acordar, há de concordar comigo.
Dr. Cubas pôs a mão em meu ombro e em seguida se afastou. Fitei o jovem paciente. Em meio a leves esgares de dor, sorria. Pude notar, então, que ele concordava com o médico.

Fonte: Google Images

domingo, 1 de dezembro de 2013

Futuro

Saí cedo do Bairro da Imaculada, levando o violão e o caderno de poemas, para ir ao encontro de um passado fantasmal que persiste e não quer morrer, mas que, em verdade, não mais me incomoda. A cidade ainda dormia, e poucos pássaros madrugadores saíam de seus ninhos para a luta cotidiana. Os carros e ônibus se arrastavam sonolentos pelo asfalto, por entre prédios e árvores esparsas, e num desses dragões de chão e metal eu subi.
Devagar como a condução, eu divagava. Meus pensamentos passavam como passava a paisagem na janela, tão cinzas quanto. A neblina turvava os olhos e o coração, e tudo era estática melancolia fora e dentro de mim. Sim, querida, estava pensando em ti. E tenho pensado desde então. Tenho pensado na tua ausência e na falta que me faz teu riso frouxo. Tenho pensado no vazio que minha casa e meu coração apresentam desde que te fostes.
Desde aquele dia penso nisso. Dentro daquele ônibus, notei com tristeza que esquecia as formas do teu rosto. Esquecia a cor dos teus olhos. Esquecia a linha do teu sorriso. Esquecia, Deus meu!, da textura dos teus lábios que me salvaram da sede eterna inúmeras vezes. Estive triste, pois tu me fugias de todo, por inteira, nem na minha lembrança ficavas. Em vários instantes meus olhos ensaiaram lágrimas durante meu trajeto, mas não pude deixar uma gota de tristeza cair para não me expor ao ridículo de chorar ante as gentes que nada sabem do amor e da vida, não como tu ou eu sempre soubemos, e juntos pudemos comprovar o quanto.
E foi assim que, sentado no lado esquerdo do ônibus, como quem está sentado a esquerda de Deus, alheio a mim mesmo e mergulhado no vazio das lamúrias, assim pude ter um vislumbre do futuro.
Entravas pela porta daquele monstro de ferro com a graça dos anjos que sempre tivestes. Estavas linda e - Dio santo - velha! No mínimo, tinhas lá tua meia-idade. No entanto pude constatar, com um sorriso imenso nos lábios e no peito, que tua graça nada diminuíra; que teus olhos conservavam o mesmo brilho solar da mocidade; que aquele teu jeito de olhar para os lados como quem procura algo, como quem suspeita de algo nunca mudara; que a cor da tua pele era a mesma transição do alvo para o escuro; que teus cabelos ainda dançavam balé em volta dos teus ombros.
Mas estavas velha. E apesar do brilho intenso nos olhos, o olhar era mais triste. O rosto se encontrava sofrido do tempo e das dores de viver, mostrando uma expressão tipicamente preocupada, a expressão dos nossos pais. O corpo denunciava as formas da juventude, mas não mais as possuía com a mesma firmeza e o mesmo frescor. Já ganhavas teus ares de fruta madura, um jeito mais duro de se portar, uma maneira melancólica e nostálgica de ver a vida.
No entanto, estavas magnífica.
O ônibus chegava ao meu destino. Levantei-me e pude contemplar de perto a face do futuro. Dei-lhe bom dia e disse:
- Estou feliz de saber que ainda existes, e que existes tão bela quanto sempre fostes.
O futuro, que era tu, fitou-me nos olhos e não me reconheceu. Sorri. Não podia ser diferente, e ao mesmo tempo era inverossímil aquele olhar de interrogação, de quem não reconhece a própria alma. Sorri, pois pude, naquele momento, confundir presente e futuro, transfigurar a realidade, notar um mar de possibilidades que se abre bravio e inexplorado, e desde aquele dia foi neste mar que me pus a navegar.


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O voo de Ícaro.

Fitou do alto a cidade. Sentiu no peito a vazão do sangue percorrendo cada veia e cada artéria. O olhar firme no horizonte, a boca seca e as mãos suadas. Sabia que o que pretendia fazer era arriscado, mas sua alma há muito já gritava por aquilo, clamando por libertação. Respirava profundamente, recitando para si todos os mantras e orações de que se lembrava.
Juntou dentro de si a coragem que tinha e também a que não tinha. Todo o fogo do Universo deveria estar com ele neste momento, pois só assim teria sucesso no seu intento. Sentia firmes os pés sobre o concreto do terraço, o vento fustigava-lhe os olhos, fazendo-os lacrimejar. O sol poente ardia dentro das pupilas, mas o olhar era firme. "Que Deus me ajude!". Pulou.
Uma profusão de vultos velozes subia ante seus olhos. Conseguia divisar de cada janela pelo menos um rosto de auxiliar de escritório ou secretaria. Seus cabelos e roupas esvoaçavam irregularmente, desajeitando-se no corpo. A cada metro que descia, o desespero aumentava. "Falhei!", pensava, "falhei e agora vou morrer!". Desconsolado, esperou o impacto contra o frio e duro asfalto da avenida. Fechou os olhos.
Porém, sentindo de repente o vento mudar de curso, para baixo e não mais para cima, abriu os olhos.
Decolava vertiginosamente, para cima, para alto, para além. Estava voando. Pode divisar novamente cada rosto de auxiliar de escritório ou secretária, agora cada um com uma expressão incrédula. Galgara o terraço do prédio e ganhava o céu. Lá de cima, lá, bem do alto, pôde contemplar o sol mais fulgurante, tocar a estrela mais distante, respirar o ar mais puro, e, finalmente, deitar-se e dormir sobre a nuvem mais macia.


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Imolação

Ferido, com o nariz e vários dentes quebrados, um dos olhos fechado por um enorme e inchado hematoma, amarrado a uma cadeira e amordaçado, ele tentava gritar. Estava cego pela ardência nos olhos, causada pela gasolina, despejada sobre ele por seu algoz, do qual ainda não conseguira ver o rosto. Seu corpo todo doía, causando espasmos que só pioravam sua situação.
Risadas. Eram sinistras, vindas do fundo das entranhas, despertadas pelos instintos menos nobres. Entre uma e outra, um tapa numa das faces. O pavor se solidificava cada vez mais durante os momentos de silêncio, que eram gélidos e escuros. Aos poucos, ele pôde abrir os olhos.
A visão turva parecia enganá-lo. Por alguns instantes pensou reconhecer o rosto do homem que se encontrava em pé, logo a sua frente. Pôde divisar um sorriso malicioso em seus lábios, identificar a cor dos seus olhos, o formato do nariz, o corte do cabelo... Uma mão arrancara sua mordaça, e o rosto se aproximou.
Não acreditava no que via. Aquilo era um espelho. Só podia ser um espelho. TINHA QUE SER UM ESPELHO.
O rosto que via era o seu. Sorria com um sadismo que conhecia muito bem, pois era seu próprio sadismo. Não sabia se era pela chama do isqueiro que aquele seu reflexo segurava, mas seus olhos ardiam em fogo. Muito antes do isqueiro cair sobre o combustível, ele, a presa, lançava um grito desumano. Não existia ar nem cordas vocais o suficiente para expressar o pavor. Ele, o algoz, assistia entre gargalhadas enregelantes seu reflexo se consumindo entre as chamas, a destruição de toda a razão, o triunfo do instinto. As chispas, misturadas com as cinzas do corpo ardente, dançavam seu balé sinistro no ar frio. Não brilhavam mais que as brasas nos olhos do assassino que matara a si próprio com tamanha crueldade.


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Pata-de-vaca

As flores são os ouvidos das árvores. No outono, ficam surdas. Na primavera, ouvem segredos. Se bem que, pelo menos nesta imensa cidade, as patas-de-vaca dão suas flores no final do inverno. Os parques ganham um belo tom de rosa graças aos belos ouvidos que estas árvores têm.
Nos meus caminhos, sempre encontro pelo menos uma delas. Uma em especial é uma amiga muito próxima, para a qual sussurro segredos. Muito ela já sentiu meus abraços, a chorar meu coração ferido, e para ela balbuciei entre soluços o nome de minha amada. Ela, impassível, fria e rígida, sempre esticou suas orelhas cor-de-rosa para bem me escutar. E sempre que peço para que ela leve em segredo o meu amor para a mulher distante, chama uma brisa leve, que é o sopro de sua voz, que é o farfalhar de suas folhas. E todas, todas as árvores do mundo dizem aos ouvidos de minha amada:
- Ele mandou dizer: "meu coração é teu".


Vênus em Conjunção com a Lua dos amantes.

Nunca verei Lua como esta de novo... O teu sorriso, e um ponto luminoso que é teu olhar escondido entre teus cabelos. É Vênus em conjunção com a Lua, maré alta em meus olhos, palpitar em meu peito. É a Terra a girar pelo simples acaso das horas, como se não esperasse nada além dessa visão. Tu, que és mulher, verás em mim muito mais do que vejo eu mesmo, e tu que és Lua enxerga bem mais através da minha carne do que meramente sangue. Tu, com teu olhar, me restringes e me incandesces, e eu, tal como vela, incendeio porque teu sorriso existe no meio do céu das minhas noites. A ponta do meu dedo em brasa tenta tocar o teu rosto que se forma entre as estrelas, sem sucesso.
E quem dirá que nunca te toquei, se em meu sono é tua luz que me acaricia o rosto, me afaga os cabelos e beija meus olhos? Quem me acalenta nos horas infelizes dos meus dias, quem viola o curso do tempo e me faz voltar aos dias mais tenros da minha idade? Quem me retorna ao berço da terra, me faz pó e sombra do mundo? Quem, senão tu, minha Lua?
E nunca, nunca mulher, nunca minha Lua, verei Lua como tu outra vez. Que as conjunções astrais são tão efêmeras quanto as mãos que te escrevem.




segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Muito mais vermelho que o céu

Seus olhos se abriram para a madrugada, a poucos minutos da alvorada. Encontrou-se de barriga para cima, olhando para o teto. Suspirou bem umas três vezes antes de se mover um pouco e se espreguiçar. Não sentia o corpo sobre a cama. Era ele apenas um fantasma a flutuar na horizontal, estático. Não lembrava de ter deitado na cama na noite passada, tampouco o instante no qual dormira. Quando o primeiro raio de luz tocou a parede do quarto, reencarnou-se e se levantou, pondo os dois pés firmemente sobre o chão. Um acorde de ar irrompeu do firmamento, chamando-o para as primeiras horas do dia pelas quais não ansiava, uma vez que seu objetivo era estar acordado na companhia da noite. Levemente contrariado, pôs as roupas e se dirigiu para a cozinha.
A manhã era particularmente quente dentro daquele vulcão que ele habitava. Na cozinha, de pé diante da pia, a solidão lhe dava bom dia, e ele respondia como respondia todos os dias, "bom dia, meu amor", e sentava-se à mesa do café, onde uma xícara fumegante de lágrimas o esperava. Sempre na mesma parede, naquele mesmo horário, a sombra de um pé de rotina se alongava, tornando seus galhos secos mais longos do que na árvore de verdade. Terminara de beber de sua xícara, e se levantara para sair sem comer seu sanduíche recheado de mágoas. Nunca sentia fome de manhã. Disse adeus a sua solidão e saiu porta afora.
Andou pela rua, se enfileirando atrás de outras solidões e outros eles que caminhavam devagar em direção ao grande dragão de fumaça que os levaria ao abismo de mediocridades no qual todos ganhavam pão, geleia de desgosto, mágoas fatiadas e lágrimas em pó. Enfiou-se desconfortavelmente dentro da barriga do dragão com os outros, e o dragão levantou voo em direção ao abismo. As entranhas do bicho se moviam de maneira incômoda para todos lá dentro, que sem querer se empurravam e se acotovelavam. Lá dentro, ninguém tinha rosto. Não poderia ser diferente, uma vez que revelar-se - diziam os "grandes" - era muito, muito perigoso.
Chegaram todos ao destino, o dragão, as solidões e os eles. Saiam todos em profusão da barriga do bicho para se atirarem no abismo em busca do pão, da geleia, das mágoas e das lágrimas. Ele, o nosso "ele", ia devagar, circundando o abismo sem muita emoção. Acordara diferente, sentira logo cedo. Aquela corrida maluca atrás de tudo aquilo de repente não fazia sentido. Em vez de olhar para baixo, olhava para cima. O céu era do mesmo vermelho que sempre fora, com as mesmas nuvens negras que sempre flutuavam no céu.
Foi quando os dois se esbarraram...
Batera de frente com uma mulher, que aparentemente também olhava para cima, e não para baixo. Passado o choque inicial do impacto entre os corpos, sentado ao chão, ele a vislumbrava pela primeira vez.
Não, definitivamente não era uma solidão, pois tinha rosto. Tinha os olhos negros como carvão, mais negros até do que as nuvens, com um brilho quente, quente como o sol. A pele era algo entre o alvo e o tostado, e ao toque de seus olhos era macia. A boca pequena era rosa como as flores de brinquedo vendidas nas lojas de esquina. Tudo isso lhe era muito, muito diferente e deslumbrante, porém, seus olhos se detinham insistentemente nos cabelos.
Vermelhos... Muito, muito mais vermelhos que o céu, com ondas e curvas e caracóis que dançavam balé em volta da cabeça e do pescoço. Seus olhos se transbordaram de vermelho e curvas e ondas e caracóis. Era tanto vermelho que sentia seu sangue ficar azul.
De repente, resolveu desviar o olhar. Espantado, notara que o céu na tinha mais a mesma cor de antes. Ficara azul! Completamente azul! E as nuvens pareciam ter sido passadas no cloro, pois estavam brancas como a neve dos países distantes. Ao se deparar com tão bizarra cena, ele riu. Riu com força e gosto. E diante dele, ela também ria. Notara ele que, sem mais nem menos, também ganhara rosto. Os dois fixaram seus olhares, firmemente... Viam a mesma coisa, eles não precisavam contar um ao outro, ele sabiam que viam a mesma coisa.
Lá ficaram, sentados um de frente para o outro, no chão, rindo, trocando olhares, e rindo, e trocando olhares. Deram-se conta que ninguém prestava atenção neles dois. Concluíram, então, que só eles, ao se encontrarem, conseguiriam ver o céu azul, seus rostos e coisas que só quem se esbarra ao olhar o céu consegue ver.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O compositor

A angustiosa premonição de sua partida o fazia perder o eixo. 
Cedo ele veria as claves de sol vermelhas ficando menores, cada vez menores, ainda menores... até sumirem. Seus olhos se apertariam até virarem dois riscos em seu rosto, mas ele não conseguiria mais vislumbrar sua canção. Ela o deixaria cedo demais, tarde demais, cruel demais.
Sentia as palavras frias que saiam de sua boca. Nenhuma rima, nenhum amor, nada. Nenhuma linha nova ao piano, nenhum sentimento bom. Queria fingir não notar que sua canção estava cada vez mais calada, sem emoção, mas não conseguia. Os dedos erravam a nota, a voz não saía por conta de um nó na garganta, e tudo mais era estático em seu corpo. O único órgão que se movia era seu coração. Batia num ritmo de marcha-rancho, que por um momento pôde acompanhar ao piano. Uma nota, duas notas, três, dez... A letra saia devagar:

Sossega capitão
A vida corre sem parar
Recua o batalhão
Sem ver o sangue derramar
Com os olhos na amplidão
Espera o Alferes retornar
Mas sabe que se foi
E que jamais vai regressar

Veste luto
Por tua paixão
Verte a lágrima certeira
Que dispara do teu pobre coração

E vinha o nó, a garganta fechava, o coração perdera o compasso. Sua cabeça caia por sobre as teclas emitindo um acorde dissonante e angustiado. Chorava. A canção deixava sua carta de adeus sobre o tampo do instrumento, e saía sem fazer barulho.
A angustiosa premonição de sua partida o tirava do eixo. E sua partida, de fato, deu-o a mais impiedosa das mortes. Agora não cantava. O piano era fantasma. A sala era silêncio. A casa era areia. O mundo, deserto.


sexta-feira, 13 de julho de 2012

A verdade de Camilo Morgado

Era a décima terceira cerveja que ele bebia. Foda-se, ele pensava. Foda-se o dinheiro desperdiçado com toda essa cerveja, esse whisky, foda-se o que os outros vão pensar de mim quando eu cair e vomitar no chão. Estava no bar desde as seis horas, bebendo desde então, havia quebrado três copos que lhe escaparam da mão, e o bartender já lhe mirava com censura. Já era quase uma da madrugada. Quanto aos outros fregueses, fodam-se todos, ele resmungava. Ele era o maior compositor da história desse país (de acordo com sua própria concepção), e dizia isso para quem quisesse e não quisesse ouvir. Camilo Morgado era de fato um compositor empertigado. Harmonias complexas, poesia complexa, melodias complexas e um complexo de gênio incompreendido.
Gabava-se de ter aprendido tudo de música sozinho. Era fã incondicional de Noel Rosa (muitas vezes brigava verbal e fisicamente para defender o ídolo) e reclamava constantemente da burrice alheia, bastando para isso que se falasse não gostar de música popular. Crivava as pessoas com olhares de repulsa e de merecida superioridade quando o assunto era poesia, metafísica, violão ou qualquer outro. Tendia a diminuir as pessoas a sua volta numa desesperada empreitada de se mostrar mais sublime e virtuoso. Alteava a voz sobre as mesas de bar exaltando a cultura, sem se dar conta de que ninguém ouvia seu discurso inflamado.
Seus olhos verdes porém, muitas vezes duros e críticos, acendiam em brasa quando estava ao violão. Fechavam-se sensualmente (de acordo com ele próprio, claro) quando entoava as palavras daqueles compositores já esquecidos pelas maiorias. Acreditava na sofisticação da música nacional, porém renegava tudo o que era novo na cena cultural de sua cidade. A ele tudo era musicalmente pobre e sem sentido se não colocasse no pedestal os compositores "das antigas".
Estava lá o bruto, sentado havia horas diante daquele balcão, afogando a mágoa e a revolta. Filhos da puta, ele dizia emburrado, não sabem nada de música, não sabem se portar diante de um artista e sua canção. Acabara de tocar no sarau que ocorrera nesse mesmo bar, momento em que ocorrera o fato que o levou a mergulhar no copo.
Chegara às seis em ponto ao bar, quando devia ter chegado às cinco. Achava bonito chegar atrasado, coisa de artista, atitude de quem não devia nada a ninguém. Os organizadores do sarau estavam com cara de mal-comidos, lançando olhares um para o outro e depois para ele. Camilo não dera nem boa noite, fora direto ao balcão pedir a primeira rodada. O bartender deixara a cerveja estupidamente gelada sobre o balcão junto ao copo também gelado. Camilo se servira e tomara um longo gole. Atrás dele, um dos organizadores, Lauro, o olhava com censura.
- Boa noite, Camilo! - cumprimentou, impaciente - Tudo bem?
- Opa. - respondeu Camilo, displicente - Qual é teu mundo, Lalau?
- Não vai passar o som? - perguntou Lauro, mais impaciente.
- Vou tomar essa e já vou.
Ficara conversando com o bartender sobre assuntos triviais, bebera devagar e, vinte minutos depois, estava tirando o violão do estojo. Calmamente desenrolava cabos, conectava-os e em seguida afinava o instrumento. Fizera hora de propósito. Estava fulo com os organizadores por conta de uma intriga que haviam feito com seu nome. Alguém do núcleo cultural dissera por aí que ele, Camilo, estava dizendo que ia comer a mãe da organizadora. O nome da mulher era Leda, e Camilo dava aulas para a filha dela, Cláudia, que junto com Lauro presidia o tal núcleo cultural. Um quiprocó imenso. Esse fato juntava-se a sua revolta já habitual acerca dessa gente que ele chamava de "pseudo-intelectuais", desprezava-os por todos seus vômitos de conhecimento, detestava-os com força por seus "diz-que-me-diz", e agora estava furioso por fazer parte de uma destas fofocas.
Cláudia, filha de Leda e organizadora do sarau, olhava para Camilo com certo receio, como se esperasse algo. Estava apavorada, pois sua mãe estaria ali para acompanhar o evento, e se ela soubesse o que estava acontecendo por baixo dos panos, o sarau entraria em um clima tenso. Se era verdade ou não que Camilo dissera que comeria sua mãe, ela não sabia, mas era bom que ninguém mais falasse nisso. Camilo terminara de passar o som do violão e do microfone, levantara-se e voltara ao balcão, onde agora bebia uma dose de whisky sem gelo, que, acreditava ele, era para aveludar a voz. Cláudia tentou falar-lhe, mas emudeceu. Ele não pode fazer merda, ela pensava, não hoje, não hoje, por favor.
Os convidados chegavam, pouco a pouco, e um burburinho animado começara a encher o ar. Cláudia recebia-os toda sorrisos, porém aflita por dentro, querendo e não querendo que a mãe chegasse logo. Os convidados não suspeitavam da tensão que havia entre os dois organizadores e Camilo, e tampouco suspeitariam da raiva que o consumia. Lauro, com seu jeito sério e enrustido, conversava com os que se sentavam. A garçonete gostosa, Tati, servia as mesas, sempre sorridente, simpática e voluptuosa, para deleite dos rapazes virgens e desgosto das mulheres intelectualóides que, convenhamos, não eram lá essas coisas. Entre os convidados estavam um professor bam-bam-bam da Universidade Federal e o secretário de cultura da cidade. Eles falariam um pouco sobre literatura erótica, que era o tema do sarau, para dar uma introdução antes do início das declamações e da música. Leda chegara junto com os dois, e estava sentada a mesa com eles. Era muito inteligente (e bonita, uma coroa que dava um caldo), portanto era de se esperar que andasse com gente do mesmo nível.
E lá estava o bruto, Camilo Morgado, sentado em frente ao balcão com seu copo de whisy quando o professor e o secretário se posicionaram diante do público. Sentaram-se, pegaram os microfones, deram boa noite e iniciaram o sarau. Primeiro o professor começara a falar, e não parava mais.Um longo discurso com conhecimento e conhecimento e mais conhecimento caindo no vazio de um bocado de mentes letárgicas. Nesse meio-tempo, Camilo já pedira mais uma cerveja, esperando pela hora de ir a frente e tocar. Logo em seguida o secretário começara a falar. Mais conhecimento, blá blá blá blá blá blá blá...
Camilo estava ficando bêbado. Quando o secretário terminara de falar, já havia bebido três cervejas e duas doses de whisky. Achara que podia se levantar, porém Cláudia intervira, arrotando lisonjeios aos "professorzinhos" queridos do coração. Camilo se pusera de pé quando Lauro resolvera fazer o mesmo, como se despejasse mais um balde de merda em cima de uma fossa entupida. Bando de cuzões, começara a resmungar, estão tirando meu tempo, bando de filhos-da-puta! Pedira a terceira dose de whisky, tomara de um gole quando Cláudia, ao microfone, dissera:
- Agora teremos uma canja musical com nosso amigo - enfatizara a palavra, nervosa - Camilo Morgado!
Camilo batera o copo na mesa ao som de alguns aplausos pouco emocionados. Começara a caminhar em direção ao violão, até que conseguindo manter o equilíbrio, sem tropeçar em nenhum pé de mesa. Sentou-se e verificou a afinação do violão, constatando estar tudo em ordem. O burburinho voltara a se instaurar.
- Boa noite. - cumprimentara Camilo. Não houve resposta.
Ficara em silêncio por alguns segundos, olhando com ódio a todos aqueles bundas-moles.
- BOA NOITE! - quase gritando, sobressaltando a todos, até o bartender. Depois, num tom calmo, disse - Eu me chamo Camilo Morgado.
Começara a tocar. O repertório ia de Chico Buarque a Djavan (que ele incluíra a pedidos insistentes de Lauro e Cláudia), todas com manifestaçõezinhas dúbias em sua letra, insinuando vagamente o sexo. O público aplaudia com a emoção de um bocejo, sempre disperso, sempre isolado em suas conversas, Camilo sendo um mero crooner  para animar sua bebedeira.
Tamanho era seu ódio e imensa sua repulsa. Em silêncio, proferira os primeiros acordes de As rosas não falam, numa introdução instrumental que ele mesmo criara. Cláudia e Lauro, reconhecendo a melodia, entreolharam-se, perguntando por que diabos Camilo estava tocando uma canção fora da temática do sarau.
"Bate outra vez..."
A voz de Camilo começara a entoar a letra de Cartola, seus olhos fechados sensualmente, como ele mesmo acreditava. Inflamava-se, misturando raiva e prazer. Uma afronta musical.
"Com esperanças o meu coração..."
O público o mirava em silêncio.
"Pois já vai terminando o verão..."
Camilo desafinava e errava o acorde.
"Enfim..."
As pessoas a sua frente se dispersavam, repentinamente. O burburinho se reestabelecera, numa coversa comum de botequim.
"Queixo-me às rosas, mas que bobagem...
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai..."

Os acordes pouco a pouco se tornavam mais fracos, assim como a voz, e Camilo silenciara. O público nem sequer notara de imediato. Depois de vinte segundos, perceberam o músico em silêncio diante deles e começaram a aplaudir. O sangue lhe subiu às temporas.
- Vocês são uns hipócritas!
Os aplausos cessaram quase que instantaneamente diante daquela frase proferida de boca cheia, causando enorme tensão e entreolhares entre os convidados, como se perguntassem se era com eles.  Leda cometera o grave erro de querer amenizar a situação, levantando-se e dizendo:
- Bravo, Camilo! Sua voz é linda!
- SENTA AÍ, SUA PUTA! - retrucara Camilo de imediato, apontando a cadeira, uma microfonia marcando a frase.
Obediente como um cão, ela se sentara, perplexa.
Camilo enrubescera, os olhos ardendo em fúria. Sentia o próprio fogo do inferno lhe queimando a face.
- Bando de filhos da puta! É isso que vocês são! Não sabem respeitar o artista quando ele está apresentando seu trabalho! Ficando batendo palmas mas não estão nem cagando pro que eu tô fazendo aqui na frente! Eu acabo de ERRAR A PORRA DA MÚSICA MAIS BELA DO NOSSO CANCIONEIRO E VOCÊS APLAUDIRAM! H-I-P-Ó-C-R-I-T-A-S!
Todos ouviam em silêncio, atônitos, estuporados a voz que crescia em urros.
- Ele tá bêbado... - alguém comentou.
- CLARO QUE EU TÔ BÊBADO! - retrucou Camilo, berrando - AQUELES DOIS DEMORARAM TANTO - apontou para o professor e o secretário de cultura - QUE EU NÃO VI OUTRA COISA A FAZER SENÃO ENXUGAR! O QUE EU TÔ VENDO AQUI É UM MONTE DE INTELECTUALÓIDES DE MERDA QUERENDO SE EXIBIR! UMA GORDA METIDA PUXANDO O SACO DOS PROFESSORES, UM MAGRELO INEXISTENTE QUERENDO PAGAR DE IMPORTANTE E UMA PUTA QUERENDO DIZER QUE EU QUERO COMER ELA QUANDO É ELA QUE FICA SE ESFREGANDO EM MIM!
Um breve burburinho. Leda estremeceu e ruborizou, como se confirmasse o que fora dito. Cláudia olhara incrédula para a mãe. Lauro suava frio.
- ELA SABE QUE É VERDADE! AINDA CONTOU PRO VIADINHO DO AMIGUINHO DE VOCÊS - apontando para Cláudia e Lauro - QUE EU TAVA ASSEDIANDO ELA! VÃO À MERDA! ISSO NÃO É COISA QUE SE FAÇA COM O ARTISTA MAIS PROMISSOR DESSE PAÍS!
Levantara-se, atirando o violão ao chão. Uma microfonia breve, depois silêncio. Silêncio sólido como concreto. Leda levantara-se, correndo para a porta, rubra, Cláudia no seu encalço, enquanto Lauro ficava parado movendo o lábio inferior sem emitir som. Camilo passara por ele em direção ao balcão, dando-lhe um certo arrepio. O público se dispersava, todos em direção à porta de saída, uma indignação velada em seus cochichos. Lauro mirava as costas de Camilo. Uma mescla de fúria, perplexidade e medo o tomava. Ensaiava dizer algo, mas não dizia nada. Por fim, dera as costas e também se fora.
Alguns clientes chegavam enquanto Camilo, resmungando baixinho, entornava mais uma dose de whisky. O bartender ignorava-o, sabendo do estado alcoólico do rapaz. Sabia também que não pagaria a conta, pois nunca recebia um tostão para tocar onde quer que fosse. Camilo silenciara, a cabeça recostada no balcão. Entoava mentalmente um trecho de uma canção de um compositor local, repetidamente: "E o louco cansado, o gênio humilhado, voou de volta pra casa". Dormira o sono digno dos vitoriosos, ou, pelo menos, daqueles que se acreditam vitoriosos.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O velho bandido

Eu sou aquele velho. Parado ante o hotel, olhos fechados, a mala cheia de arrependimentos numa das mãos. O grisalho dos curtos cabelos se confundindo com o cinza do céu, a tempestuosa estação fazendo trovoada dentro dele. Sou ele. Sou o passado que desfila diante de seus olhos, torturando-o com nostalgias e lembranças que não ressuscitam nem exorcizam fantasmas. Com a bengala cravada ao chão, apoiado por seu orgulho desfeito, eu sou aquele homem, que sente apertar no peito o amor partido das eras, o florescer de muitas primaveras, o frio de muitos invernos. Ele, tal como eu, viveu a vida como se comete um erro: repentinamente, impensadamente, dolorosa e ardentemente. E tal foram seus olhos ante a vida, como disparates ao vento, raios de sol para as nuvens, céu azul para o firmamento de estanho.
Parado diante do hotel, a angustiosa estação fazendo chuva dentro dele, sente apertar no peito uma dor não mais de saudade, não mais de amor, não mais de vida. A pontada lancinante da morte agora vara seu coração dilacerado pelo tempo. Lentamente, como na luta de facas das Bodas de Sangue, ele cai. Estende a mão para o alto, pedindo perdão, sentindo o frio de todos os invernos. A calçada fria é seu leito. O céu cinzento lhe dá a extrema unção. Sem olhar para trás, já dobrei a esquina, não vendo o velho bandido morrer esquecido naquela rua já deserta, não vendo a minha própria morte, a morte dos meus olhos nos olhos dele.

Fonte: sevicosocial.blogspot.com

A carta esquecida, seguido de Conhaque

Assim que eu galgar a esquina, ela vai terminar de cuidar de suas coisas dentro da bolsa. Quando eu tiver dado mais dez passos, ela vai ver a bola de papel sobre a mesa. Outros dez e ela abrirá o papel, desamassando-o. Na próxima esquina ela terá terminado de ler a carta de amor que escrevi. E em mais um passo, um único passo, o papel tornará a ser amassado. E em dois passos mais, mais uma carta de amor jazerá esquecida dentro de uma lata de lixo, como se nunca tivesse sido lida.

Fonte: Google Images

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Preto, branco e vermelho

Ele, que já andava havia algumas horas pela cidade, percebera finalmente que estava sonhando. Passava por multidões que se deslocavam como gado, num ritmo comum às metrópoles. Escurecia rapidamente, a noite anunciando sua chegada a cada minuto. Caminhava ao encontro de alguma coisa que não sabia bem o que era, mas tinha certeza de que iria encontrar.
Passou por uma galeria mal iluminada, por uma janela interna uma luz vermelha piscava, refletindo nos ladrilhos brancos do corredor. O ar denunciava a idade do prédio, o eco das passos criava uma atmosfera densa. Notou estar só, porém outro som de passos veio se somar ao seu, vindo da frente, de não muito longe. Escutava com atenção. Eram sapatos de salto. Era uma mulher, caminhava devagar. Apareceria na curva a qualquer instante. Os passos ficavam mais próximos. Sabia sem saber de sua presença sólida e invisível como o ar.
Quando seus cabelos bicolores surgiram, as imagens pareciam ganhar outra forma, a galeria estava viva. O negro e louro de seus cabelos confundiam os olhos e a alma, os olhos eram grandes imãs escuros embaixo das sobrancelhas nem grossas nem finas, no rosto redondo o meio-sorriso moldando aterradoramente os lábios desenhados a traço fino. A pele ficava fantasmagoricamente branca e depois vermelha, branca e depois vermelha, piscava a luz lá fora. As formas do corpo parcamente escondidas debaixo dos panos negros que o cobriam (e tudo) eram presentes e indubitáveis.
As palavras saiam da boca da musa sem forma, mas coloridas como o céu do fim de tarde. Ele não entendia, mas compreendia. A luz vermelha piscava, piscava, piscava lá fora. Ele só ouvia musica, sem saber o que esperar dela, do sonho, da vida. Dela queria tudo. Dela queria nada. A paz inquieta do momento preenchia seu coração. Ambos estavam cientes de que se possuíam sem pertencer um ao outro. Ele olhava para baixo, admirando a grandeza dela. Ela olhava para cima percebendo a fragilidade dele. Estariam juntos e separados para sempre. Era a dor e o gozo do momento. Atormentava e apaziguava numa deliciosa confusão. Tocavam-se com os olhos. Tocavam-se com todo seu sentimento.
Não precisavam se abraçar. Não precisavam tocar os lábios. Não precisavam de nada. Era só ali que as coisas faziam algum sentido. Acordar seria o fim de toda a vida. Agarravam-se desesperadamente ao momento. Vermelho, branco, preto. Vermelho, branco, preto. Vemelho, branco...
Acordar seria o fim de toda a vida. E foi.



terça-feira, 4 de outubro de 2011

2012 - Uma carta do futuro

2012, pensou-se, seria um ano de grandes mudanças. Alguns, místicos, acreditavam na irrupção de uma nova dimensão. Outros, apocalípticos, aguardavam amedrontados o fim do mundo. Outros, otimistas, teriam certeza de que tudo haveria de ser melhor. Porém, 2012 se mostra um ano bastante diferente do que acreditávamos que seria.
O governo ainda é o mesmo. O salário dos políticos continua crescendo muito e o nosso diminuindo demais. Mesmo assim, curiosamente, conseguimos viver, ou, em alguns casos, sobreviver. Ainda existe muita pobreza, muitos tendo só o suficiente para continuar vivos ou nem isso. Continua impressionando como algumas destas pobres pessoas ainda encontram forças para um sorriso. Os ônibus são novos e as passagens as mesmas: sempre caras. Folgo em perceber que, apesar disso, ainda existem pessoas que cedem o lugar para um idoso ou uma mulher grávida. Mais impostos foram criados, e o preço do essencial ainda sobe. Morar nunca foi tão caro, comer nunca pesou tanto no bolso, mas, graças a Deus, ainda há onde morar e o que comer. Existem mais celulares que pessoas. Novas redes sociais foram criadas, melhores que as antigas, e os jovens nunca passaram tanto tempo na frente do computador como agora. Felizmente, existem aqueles que preferem conversar cara a cara, que têm gosto por viver com os pés no chão ao invés de surfar na grande rede. Os carros ainda são movidos a gasolina, e são muitos carros. As ruas estão desordenadas, os engarrafamentos são constantes e muitas pessoas preferem andar de bicicleta ou a pé. Homens amam homens, mulheres amam mulheres, no entanto existem homens que amam as mulheres, e isso foi sempre raro.
Os bancos lucram muito. Existe um shopping a cada três quadras nas principais avenidas. A cada dia aparece um novo carrinho de cachorro quente. Os centros estão abarrotados de gente correndo de seus escritórios. As redes de fast food se deleitam na hora do rush. Os religiosos prevêem o fim. Não se escreve mais “idéia”, e sim “ideia”. Cada vez menos crianças estão indo à escola. Mais e mais protestos são feitos. Muitos ainda choram suas perdas. A criminalidade continua sendo a criminalidade. Os filhos batem nos pais. As mães rezam pelos filhos. As prostitutas ainda têm emprego. Existem cães de rua. Existem meninos de rua. Existem artistas de rua. Os artistas continuam fazendo muito com muito pouco. Há vendedores de revistas estúpidos. Há vendedores de flores simpáticos. Os motéis ainda têm clientes. Instrumentos musicais importados custam o triplo do preço real. As praças ainda têm seus freqüentadores. A noite ainda existe. Os boêmios também, ainda que poucos. A cerveja está cara, entretanto ainda há quem beba. Há casas com jardins enfeitados. Ainda há quem dê a devida atenção ao espírito. Sim, ainda existe amor. E o dia 21 de Dezembro só nos lembrou que faltavam quatro dias para o Natal.
Com meus cumprimentos do futuro, desejo a todos um excelente resto de 2011.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A Pedra Nova

O firmamento é mais escuro aqui perto do céu. Pensou-se que as estrelas eram fulgurantes, até se ver seu brilho apagado de zinco. As luzes são mortiças em seu brilho gelado aqui na Pedra Nova. Existe uma névoa de dúvida e horror a espreitar a noite. Um agouro, um espasmo, um ai... Um estranhamento das coisas do espírito. Existe alguém a chorar na praça colonial como um fantasma de um tempo distante. Existem pessoas a fugir dos cafés e dos bares. Há um violamento ocorrendo por entre ruas e árvores, em surdina. 
Uma mortalha repousa sobre uma cama vermelha, como luto por algo que nem sequer nasceu. O cheiro do infinito se torna mera lembrança para aquela que ali se deita. A Pedra Nova jamais foi base firme para os alicerces do amor e da verdade. A Pedra Nova repousa impassível no alto da montanha mais fria, bebe da água mais pura, beija as nuvens mais doces, só por estar no alto. Vela silenciosamente pelos corações destroçados em suas pousadas, só por ser fria.
Abraços, gritos desconsolados, lágrimas, emoções... A Pedra Nova é palco. A Pedra Nova é o grito em uníssono dos loucos contidos. A Pedra Nova é o desespero pelo toque e pela voz do espírito. A Pedra Nova é a solidão das casas de jardins arrumados, é a tristeza das belas fachadas, é a estranheza da verdade e do real perdão.

C. D. Friedrich. Casal contemplando a lua. Óleo s/ tela;34x44cm. Berlim, Nationalgalerie. Tratada pelo autor do blog.

domingo, 24 de abril de 2011

Mar de gente, a certeza da solidão

Ele se divertia. Por fora. Por dentro, era mais uma massa de tédio e melancolia. Festas, confraternizações e afins. Tudo isso deixava o rapaz em depressão profunda, como se a vida se resumisse às gotas de uma bebida etílica e um punhado de gente superficial. Podia ter a nítida certeza de que, se morresse naquele exato instante, ninguém notaria. Ninguém ouviria o grito silencioso de sua alma, ninguém teria compaixão para com seu espírito ferido e jamais teria o amor de ninguém ali.
Tudo estava estático, mesmo em movimento. Nenhuma viva alma sentia ou pensava, eram todos como animais cegos e acéfalos, sem noção do que era ou não era. Deles, apenas ele parecia ciente. Apenas ele se via em pé ante as condições que a vida impunha tão implacavelmente aos seres mortais. "Se tens alegrias, tens muitos amigos. Se tens dores, só estás". Por que, justo agora, aquilo se fazia tão claro?
Mas era inevitável. Onde quer que estivesse, apenas ele sabia daquilo. E se lutasse contra, entendia do jeito mais difícil que era fraco. Não por não conseguir lutar, mas por não saber lidar com a perda, por não saber lidar com o passado e solidão. Em meio a tantas pessoas, tantos amores e desamores, estava só. E seria eterno este sentimento, enquanto estivesse longe dela.

domingo, 3 de abril de 2011

Chama, ou Big Bang

Um homem do povoado de Neguá, no litoral da Colômbia, pôde subir no alto do céu e na volto contou: disse que havia contemplado, desde lá de cima a vida humana. E disse que somos um mar de foguinhos. O mundo é isso, revelou: um monte de gente, um mar de foguinhos. Não existem dois fogos iguais. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Existem fogos grandes e fogos pequenos,  e fogos de todas as cores. Há gente de fogo sereno, que nem fica sabendo do vento. E há gente de fogo louco, que enche o ar de faíscas. Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam. Mas outros... Outros ardem a vida com tanta vontade que não se pode olhá-los sem pestanejar, e quem se aproxima se incendeia.
(Eduardo Galeano)

Eles eram o Big Bang entre a gente que brilha sem vontade. Entregavam-se um ao outro com tamanha devoção e com tamanho desejo que todas as gentes, mesmo as de olhos opacos ou vazios, sentiam o calor daquele momento, ouviam seus corpos a conversar sem palavras, viam o brilho de beleza e fervor que os dois, juntos, produziam. Seus suores eram o mar. Seus olhos, diamantes. Suas peles, brasas. Seus cabelos se entrelaçavam como galhos de árvores numa mata virgem. Seus beijos lançavam no ar aromas, cores e música. Se abraçavam com tanta força que quase sentiam seus corpos a se fundirem numa única grande chama, a arder ofuscantemente num ponto esquecido do mundo, longe, mas tão perto. Ali, perto. Seu orgasmo era o eco dos ecos, o brilho de todas as estrelas, o calor de todas as chamas. E seu sono era o total silêncio, a noite mais clara, o brisa mais branda. Para depois começar tudo outra vez, naquele sofá de casa de campo...
Eles eram o Big Bang.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Grande Laranjeira

Era sertão. Era deserto. O que era?
Vira-se, repentinamente num lugar árido, cheio de árvores mortas e enegrecidas como se tivessem sido incendiadas há muito. O céu era quase vermelho, o sol parecia se pôr no horizonte. Caminhava desnorteado, como se procurasse algo, sem saber ao certo o que procurava. Como sempre, não sentia o chão embaixo de seus pés. No entanto, ele caminhava com seus pés incertos pela terra devastada, erodida e infértil daquele que parecia ser o âmago do seu espírito. Tinha ciência de sua solidão, e que, uma vez ali, não teria auxílio. Estava à própria sorte dentro dos confins de si próprio.
Lembrou-se. Procurava uma árvore. Uma certa árvore. Até pouco tempo antes, era grande, bela e frondosa. Os passos, ainda incertos, já eram mais ligeiros. Olhava em volta, confusamente, quase desesperado. Foi quando sua solidão fora interrompida por homens estranhos. Vestiam negro, tinha cabelos curtos e negros, e seus olhos eram profunda e opacamente negros. Diziam: "Para trás, te perderás nestas terras áridas". Desencorajavam-no em sua busca pela Grande Laranjeira, que era a sua essência maior, a fonte de todos os seus sonhos e inspirações.
Seguiu impávido. Tinha de encontrá-la. Que seus medos e angústias o devorassem vivo, como leões devoram a caça. Que se perdesse naquela terra infértil. Que seus pés sangrassem pela interminável caminhada.  Que fosse consumido pelo esforço. Não importava, tinha de encontrá-la!
Quando ele finalmente a viu...
A Grande Laranjeira, antes bela e frondosa, era agora uma grande árvore petrificada, sem folhas, sem vida. Andando em volta dela, notou que tinha o seu rosto. A expressão era triste, desolada. Uma gota de seiva escura corria de um de seus olhos, como se fosse uma lágrima silenciosa e cheia de pesar. Os homens estranhos diziam: "Eis tua essência, eis teu ser. Esta árvore está morta.".
Ele caiu de joelhos.
Não... Não...! Era bela... Era frondosa... Era fértil e muito forte... O que aconteceu? Pôs-se em pé fracamente, e abraçou a árvore com sentimentos que se misturavam: medo, pesar, carinho, amor, remorso... Sentiu sua casca petrificada e chorou, pedindo sincero perdão pelo abandono, pela desilusão e pela falta de carinho que proporcionara à planta, que era sua essência, sua inspiração, sua vida.
Sentiu a Grande Laranjeira pulsar. Então, percebeu que, pouco a pouco, muito lentamente, a velha árvore ganhava nova vida. A casca começara a rachar, o rosto que era igual ao seu se desmanchava como uma máscara. Vêem? disse ele aos homens estranhos Está viva!
Das rachaduras irrompiam fachos de luz branca e ofuscante. De repente, a casca de pedra da árvore voou aos pedaços para todos os lados, e no lugar onde antes se encontrava a Grande Laranjeira morta, resplandescia uma gloriosa planta feita de pura luz, que desfez à sua volta toda a paisagem seca e infértil.
E tudo, então, se tornou luz...