terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Crônicas do Lobo da Estepe - Ano três

Atravessamos mais um ano com o Crônicas do Lobo da Estepe. Agradeço de coração a todos os que acompanharam até aqui esta trajetória de narrativas surreais, realistas, livres. Este último ano foi de vacas magras para mim como escritor (estou me dedicando fortemente ao meu projeto musical, Tudo por fazer, meu primeiro disco solo), porém o Crônicas vive, ainda que com pouco movimento. O layout foi mais uma vez renovado, como é de praxe.
Juro que assim que tudo estiver pronto com minha porção músico, este blog virá com textos absolutamente novos. Ficam aqui meus agradecimentos sinceros a todos amigos que vêm acompanhando a caminhada deste lobo da estepe, fazendo parte desta alcatéia.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Preto, branco e vermelho

Ele, que já andava havia algumas horas pela cidade, percebera finalmente que estava sonhando. Passava por multidões que se deslocavam como gado, num ritmo comum às metrópoles. Escurecia rapidamente, a noite anunciando sua chegada a cada minuto. Caminhava ao encontro de alguma coisa que não sabia bem o que era, mas tinha certeza de que iria encontrar.
Passou por uma galeria mal iluminada, por uma janela interna uma luz vermelha piscava, refletindo nos ladrilhos brancos do corredor. O ar denunciava a idade do prédio, o eco das passos criava uma atmosfera densa. Notou estar só, porém outro som de passos veio se somar ao seu, vindo da frente, de não muito longe. Escutava com atenção. Eram sapatos de salto. Era uma mulher, caminhava devagar. Apareceria na curva a qualquer instante. Os passos ficavam mais próximos. Sabia sem saber de sua presença sólida e invisível como o ar.
Quando seus cabelos bicolores surgiram, as imagens pareciam ganhar outra forma, a galeria estava viva. O negro e louro de seus cabelos confundiam os olhos e a alma, os olhos eram grandes imãs escuros embaixo das sobrancelhas nem grossas nem finas, no rosto redondo o meio-sorriso moldando aterradoramente os lábios desenhados a traço fino. A pele ficava fantasmagoricamente branca e depois vermelha, branca e depois vermelha, piscava a luz lá fora. As formas do corpo parcamente escondidas debaixo dos panos negros que o cobriam (e tudo) eram presentes e indubitáveis.
As palavras saiam da boca da musa sem forma, mas coloridas como o céu do fim de tarde. Ele não entendia, mas compreendia. A luz vermelha piscava, piscava, piscava lá fora. Ele só ouvia musica, sem saber o que esperar dela, do sonho, da vida. Dela queria tudo. Dela queria nada. A paz inquieta do momento preenchia seu coração. Ambos estavam cientes de que se possuíam sem pertencer um ao outro. Ele olhava para baixo, admirando a grandeza dela. Ela olhava para cima percebendo a fragilidade dele. Estariam juntos e separados para sempre. Era a dor e o gozo do momento. Atormentava e apaziguava numa deliciosa confusão. Tocavam-se com os olhos. Tocavam-se com todo seu sentimento.
Não precisavam se abraçar. Não precisavam tocar os lábios. Não precisavam de nada. Era só ali que as coisas faziam algum sentido. Acordar seria o fim de toda a vida. Agarravam-se desesperadamente ao momento. Vermelho, branco, preto. Vermelho, branco, preto. Vemelho, branco...
Acordar seria o fim de toda a vida. E foi.



terça-feira, 4 de outubro de 2011

2012 - Uma carta do futuro

2012, pensou-se, seria um ano de grandes mudanças. Alguns, místicos, acreditavam na irrupção de uma nova dimensão. Outros, apocalípticos, aguardavam amedrontados o fim do mundo. Outros, otimistas, teriam certeza de que tudo haveria de ser melhor. Porém, 2012 se mostra um ano bastante diferente do que acreditávamos que seria.
O governo ainda é o mesmo. O salário dos políticos continua crescendo muito e o nosso diminuindo demais. Mesmo assim, curiosamente, conseguimos viver, ou, em alguns casos, sobreviver. Ainda existe muita pobreza, muitos tendo só o suficiente para continuar vivos ou nem isso. Continua impressionando como algumas destas pobres pessoas ainda encontram forças para um sorriso. Os ônibus são novos e as passagens as mesmas: sempre caras. Folgo em perceber que, apesar disso, ainda existem pessoas que cedem o lugar para um idoso ou uma mulher grávida. Mais impostos foram criados, e o preço do essencial ainda sobe. Morar nunca foi tão caro, comer nunca pesou tanto no bolso, mas, graças a Deus, ainda há onde morar e o que comer. Existem mais celulares que pessoas. Novas redes sociais foram criadas, melhores que as antigas, e os jovens nunca passaram tanto tempo na frente do computador como agora. Felizmente, existem aqueles que preferem conversar cara a cara, que têm gosto por viver com os pés no chão ao invés de surfar na grande rede. Os carros ainda são movidos a gasolina, e são muitos carros. As ruas estão desordenadas, os engarrafamentos são constantes e muitas pessoas preferem andar de bicicleta ou a pé. Homens amam homens, mulheres amam mulheres, no entanto existem homens que amam as mulheres, e isso foi sempre raro.
Os bancos lucram muito. Existe um shopping a cada três quadras nas principais avenidas. A cada dia aparece um novo carrinho de cachorro quente. Os centros estão abarrotados de gente correndo de seus escritórios. As redes de fast food se deleitam na hora do rush. Os religiosos prevêem o fim. Não se escreve mais “idéia”, e sim “ideia”. Cada vez menos crianças estão indo à escola. Mais e mais protestos são feitos. Muitos ainda choram suas perdas. A criminalidade continua sendo a criminalidade. Os filhos batem nos pais. As mães rezam pelos filhos. As prostitutas ainda têm emprego. Existem cães de rua. Existem meninos de rua. Existem artistas de rua. Os artistas continuam fazendo muito com muito pouco. Há vendedores de revistas estúpidos. Há vendedores de flores simpáticos. Os motéis ainda têm clientes. Instrumentos musicais importados custam o triplo do preço real. As praças ainda têm seus freqüentadores. A noite ainda existe. Os boêmios também, ainda que poucos. A cerveja está cara, entretanto ainda há quem beba. Há casas com jardins enfeitados. Ainda há quem dê a devida atenção ao espírito. Sim, ainda existe amor. E o dia 21 de Dezembro só nos lembrou que faltavam quatro dias para o Natal.
Com meus cumprimentos do futuro, desejo a todos um excelente resto de 2011.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A Pedra Nova

O firmamento é mais escuro aqui perto do céu. Pensou-se que as estrelas eram fulgurantes, até se ver seu brilho apagado de zinco. As luzes são mortiças em seu brilho gelado aqui na Pedra Nova. Existe uma névoa de dúvida e horror a espreitar a noite. Um agouro, um espasmo, um ai... Um estranhamento das coisas do espírito. Existe alguém a chorar na praça colonial como um fantasma de um tempo distante. Existem pessoas a fugir dos cafés e dos bares. Há um violamento ocorrendo por entre ruas e árvores, em surdina. 
Uma mortalha repousa sobre uma cama vermelha, como luto por algo que nem sequer nasceu. O cheiro do infinito se torna mera lembrança para aquela que ali se deita. A Pedra Nova jamais foi base firme para os alicerces do amor e da verdade. A Pedra Nova repousa impassível no alto da montanha mais fria, bebe da água mais pura, beija as nuvens mais doces, só por estar no alto. Vela silenciosamente pelos corações destroçados em suas pousadas, só por ser fria.
Abraços, gritos desconsolados, lágrimas, emoções... A Pedra Nova é palco. A Pedra Nova é o grito em uníssono dos loucos contidos. A Pedra Nova é o desespero pelo toque e pela voz do espírito. A Pedra Nova é a solidão das casas de jardins arrumados, é a tristeza das belas fachadas, é a estranheza da verdade e do real perdão.

C. D. Friedrich. Casal contemplando a lua. Óleo s/ tela;34x44cm. Berlim, Nationalgalerie. Tratada pelo autor do blog.

domingo, 24 de abril de 2011

Mar de gente, a certeza da solidão

Ele se divertia. Por fora. Por dentro, era mais uma massa de tédio e melancolia. Festas, confraternizações e afins. Tudo isso deixava o rapaz em depressão profunda, como se a vida se resumisse às gotas de uma bebida etílica e um punhado de gente superficial. Podia ter a nítida certeza de que, se morresse naquele exato instante, ninguém notaria. Ninguém ouviria o grito silencioso de sua alma, ninguém teria compaixão para com seu espírito ferido e jamais teria o amor de ninguém ali.
Tudo estava estático, mesmo em movimento. Nenhuma viva alma sentia ou pensava, eram todos como animais cegos e acéfalos, sem noção do que era ou não era. Deles, apenas ele parecia ciente. Apenas ele se via em pé ante as condições que a vida impunha tão implacavelmente aos seres mortais. "Se tens alegrias, tens muitos amigos. Se tens dores, só estás". Por que, justo agora, aquilo se fazia tão claro?
Mas era inevitável. Onde quer que estivesse, apenas ele sabia daquilo. E se lutasse contra, entendia do jeito mais difícil que era fraco. Não por não conseguir lutar, mas por não saber lidar com a perda, por não saber lidar com o passado e solidão. Em meio a tantas pessoas, tantos amores e desamores, estava só. E seria eterno este sentimento, enquanto estivesse longe dela.

domingo, 3 de abril de 2011

Chama, ou Big Bang

Um homem do povoado de Neguá, no litoral da Colômbia, pôde subir no alto do céu e na volto contou: disse que havia contemplado, desde lá de cima a vida humana. E disse que somos um mar de foguinhos. O mundo é isso, revelou: um monte de gente, um mar de foguinhos. Não existem dois fogos iguais. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Existem fogos grandes e fogos pequenos,  e fogos de todas as cores. Há gente de fogo sereno, que nem fica sabendo do vento. E há gente de fogo louco, que enche o ar de faíscas. Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam. Mas outros... Outros ardem a vida com tanta vontade que não se pode olhá-los sem pestanejar, e quem se aproxima se incendeia.
(Eduardo Galeano)

Eles eram o Big Bang entre a gente que brilha sem vontade. Entregavam-se um ao outro com tamanha devoção e com tamanho desejo que todas as gentes, mesmo as de olhos opacos ou vazios, sentiam o calor daquele momento, ouviam seus corpos a conversar sem palavras, viam o brilho de beleza e fervor que os dois, juntos, produziam. Seus suores eram o mar. Seus olhos, diamantes. Suas peles, brasas. Seus cabelos se entrelaçavam como galhos de árvores numa mata virgem. Seus beijos lançavam no ar aromas, cores e música. Se abraçavam com tanta força que quase sentiam seus corpos a se fundirem numa única grande chama, a arder ofuscantemente num ponto esquecido do mundo, longe, mas tão perto. Ali, perto. Seu orgasmo era o eco dos ecos, o brilho de todas as estrelas, o calor de todas as chamas. E seu sono era o total silêncio, a noite mais clara, o brisa mais branda. Para depois começar tudo outra vez, naquele sofá de casa de campo...
Eles eram o Big Bang.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Pablo

No palco, ele declamava um poema de um desses autores malditos. Estava só no teatro. Porém, a ênfase que dava a cada verso, a veracidade de sua performance ele tratava como se fosse para um público imenso. Era o seu momento. Era a sua vez de brilhar. Mesmo que seu brilho fosse uma estrela solitária em meio a um ponto vazio do espaço. Os versos chegavam ao clímax. A voz embargava e alteava, até eclodirem as palavras finais...
- Ô, menino! O teatro tá fechando, faz o favor de sair, tá bom?
O senhor da limpeza, velho, rabugento e enrugado, aparecia detrás dos bancos ao fundo do teatro.  Usava um macacão azul escuro gasto e imundo. Diante daquele categórico pedido, o trovador só tinha como alternativa sair.
Pablo era moreno, mediano, magro e não tão belo. Do teatro era iluminador, e constantemente ficava depois de uma apresentação ou ensaio para desligar os equipamentos, mas, claro, devido ao seu sonho irresistível de ser ator, sempre acabava subindo ao palco para dar asas a sua imaginação. Era talentoso, pelo menos, a seu ver, mas para qualquer outra pessoa, a possibilidade daquele rapaz atuar parecia inverossímil. Por isso, ocupava ele a posição de artista frustrado, que trabalhava na área que queria, mas não no cargo que cobiçava.
Era pobre, morava só, e para pagar suas contas se valia de seu trabalho como estátua viva na Rua dos Andradas, além do cachê de seu trabalho como iluminador. Seu apartamento, na mesma rua, era uma coleção de problemas dos mais variados: elétrica centenária, infiltrações por todos os lados e vizinhos tarados e barulhentos que não o deixavam dormir à noite com suas orgias desvairadas. Aliás, estava cercado de vizinhos estúpidos e intrometidos. Constantemente enojava-se com suas mazelas e maldizeres. Gente que não rompia com as correntes de miséria mental e espiritual. Estar naquele lugar era para ele uma experiência bastante entediante.
Saíra do teatro e se dirigia para casa, a pé. O Theatro São Pedro ficava bem próximo ao prédio onde morava, e no caminho sempre havia um bar onde podia lubrificar o pensar com os eflúvios etílicos, oferecidos pelo sempre infalível garçom. Vez ou outra encontrava algum amigo ou conhecido, e parava para conversar. Para ele, era sempre bom molhar as palavras e montar as mais mirabolantes teorias sobre a condição humana, a falível e frágil sociedade, o sentido errado que se dava à vida. Podiam “salvar a humanidade ao redor da mesa”, como dizia um músico do momento...
Naquela noite, não encontrara nenhum amigo ou conhecido, então simplesmente fora para casa, andando a passos curtos e ligeiros, encarangado pelo frio incomum daquele outono. As ruas molhadas eram quase espelhos, as luzes davam à noite um tom de sépia quase artístico, e era quase agradável a atmosfera. Os vagabundos vagavam dolorosos pelas calçadas, e olhavam para Pablo com algo que beirava uma interrogação indignada. Todos olhavam para ele desta maneira. Ele até então não entendia por que chamava tanta atenção, nem por que era mirado com certo desprezo. Era, de fato, um ser bastante atípico, tanto no jeito de se vestir quanto nos seus trejeitos. Com o tempo, ele aprendera a ignorar os olhares, porém, mesmo que fosse superior a tudo aquilo, ainda sentia certo desconforto perto das gentes.
Passara pelo pub em frente ao seu prédio. Não havia ninguém com quem pudesse falar por lá, além do dono do estabelecimento e sua esposa, e uma garçonete muito simpática com quem sempre fazia graça. Cumprimentou os conhecidos e se dirigiu ao prédio. Enquanto subia as escadas, respirando profundamente, tentava aliviar as tensões do dia de trabalho. Posara na Rua dos Andradas por quase toda a tarde como estátua viva, depois fizera as luzes para um espetáculo musical. Estava dolorido e com as articulações um tanto endurecidas.
Entrou no apartamento. Estava uma bagunça, como sempre. Nunca encontrava tempo ou disposição para arrumar seu pedaço de lar, que mais parecia um campo de batalha abandonado. Sentara no sofá, pegando na mesa de centro uma garrafa de cachaça mineira. Serviu com cuidado num copo pequeno, para não derramar nenhuma gota. Aquela bebida era cara demais para ser desperdiçada, e era um dos poucos amenizadores de suas tensões diárias. Bebeu todo o conteúdo do copo num gole, sentindo a garganta arder um pouco, e logo depois o estômago queimar por um instante. Por conseguinte, uma sensação de relaxamento alcoólico se espalhava vagarosamente pelo corpo. Aproveitara o momento para dar uma olhada em seu apartamento.
Gostava de olhar para o que tinha. Muitas vezes, conquistara seus bens com muito suor e persistência. No caso do apartamento, era um pouco diferente. Presente de sua mãe, que mais queria se livrar dele do que qualquer outra coisa. Ele, mesmo assim, era grato a ela pela moradia. Era um apartamento de quatro peças: sala, cozinha, banheiro e quarto, muito mais do que podia imaginar que conseguiria, levando em consideração aquilo que ganhava com seu trabalho.
Resolveu ir dormir, pois sentia o peso do cansaço. Tirou as roupas e deitou-se debaixo dos cobertores. Ficou ali, imóvel, esperando o sono vir. Enquanto ele não vinha, Pablo pensava. Era uma das poucas maneiras que conhecia de aguardar o desligamento do corpo e da mente, e também sua favorita. Pensava no trabalho entediante no Theatro, no quanto gostava do posar como estátua viva e no quanto era desgastante fisicamente. Pensava em quando ele finalmente conseguiria pisar num palco a atuar num grande espetáculo. Pensava em como era só, mesmo com amigos e conhecidos espalhados pela cidade, pois praticamente ninguém compartilhava de seu pensamento acerca do mundo, da vida e da arte. Sonhava com o momento que teria reconhecimento por seu esforço.
Quando quase pegava no sono, gemidos e batidas quebraram o silêncio de seu quarto. Eram os vizinhos despudorados do andar de cima. Tudo bem que se amassem tanto, mas era uma falta de respeito perturbar o sono dos outros. Pablo levantou-se da cama, se vestiu e saiu do apartamento. Sabia que ia demorar até aqueles dois se satisfazerem. Desceu as escadas e saiu caminhando pela rua. Gostava de fazer isso, de vez em quando. Passara mais uma vez na frente do pub. Havia um grupo de amigos, mas não conhecia ninguém. Ficava angustiado com isso à vezes. Não tinha muitos amigos em quem podia confiar de fato, e apenas um era como um irmão para ele. Suspirou e seguiu seu caminho.
Dentro do pub, uma moça o vira de relance, mas logo voltou sua atenção aos amigos que riam e se divertiam.