Mostrando postagens com marcador céu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador céu. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O voo de Ícaro.

Fitou do alto a cidade. Sentiu no peito a vazão do sangue percorrendo cada veia e cada artéria. O olhar firme no horizonte, a boca seca e as mãos suadas. Sabia que o que pretendia fazer era arriscado, mas sua alma há muito já gritava por aquilo, clamando por libertação. Respirava profundamente, recitando para si todos os mantras e orações de que se lembrava.
Juntou dentro de si a coragem que tinha e também a que não tinha. Todo o fogo do Universo deveria estar com ele neste momento, pois só assim teria sucesso no seu intento. Sentia firmes os pés sobre o concreto do terraço, o vento fustigava-lhe os olhos, fazendo-os lacrimejar. O sol poente ardia dentro das pupilas, mas o olhar era firme. "Que Deus me ajude!". Pulou.
Uma profusão de vultos velozes subia ante seus olhos. Conseguia divisar de cada janela pelo menos um rosto de auxiliar de escritório ou secretaria. Seus cabelos e roupas esvoaçavam irregularmente, desajeitando-se no corpo. A cada metro que descia, o desespero aumentava. "Falhei!", pensava, "falhei e agora vou morrer!". Desconsolado, esperou o impacto contra o frio e duro asfalto da avenida. Fechou os olhos.
Porém, sentindo de repente o vento mudar de curso, para baixo e não mais para cima, abriu os olhos.
Decolava vertiginosamente, para cima, para alto, para além. Estava voando. Pode divisar novamente cada rosto de auxiliar de escritório ou secretária, agora cada um com uma expressão incrédula. Galgara o terraço do prédio e ganhava o céu. Lá de cima, lá, bem do alto, pôde contemplar o sol mais fulgurante, tocar a estrela mais distante, respirar o ar mais puro, e, finalmente, deitar-se e dormir sobre a nuvem mais macia.


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Vênus em Conjunção com a Lua dos amantes.

Nunca verei Lua como esta de novo... O teu sorriso, e um ponto luminoso que é teu olhar escondido entre teus cabelos. É Vênus em conjunção com a Lua, maré alta em meus olhos, palpitar em meu peito. É a Terra a girar pelo simples acaso das horas, como se não esperasse nada além dessa visão. Tu, que és mulher, verás em mim muito mais do que vejo eu mesmo, e tu que és Lua enxerga bem mais através da minha carne do que meramente sangue. Tu, com teu olhar, me restringes e me incandesces, e eu, tal como vela, incendeio porque teu sorriso existe no meio do céu das minhas noites. A ponta do meu dedo em brasa tenta tocar o teu rosto que se forma entre as estrelas, sem sucesso.
E quem dirá que nunca te toquei, se em meu sono é tua luz que me acaricia o rosto, me afaga os cabelos e beija meus olhos? Quem me acalenta nos horas infelizes dos meus dias, quem viola o curso do tempo e me faz voltar aos dias mais tenros da minha idade? Quem me retorna ao berço da terra, me faz pó e sombra do mundo? Quem, senão tu, minha Lua?
E nunca, nunca mulher, nunca minha Lua, verei Lua como tu outra vez. Que as conjunções astrais são tão efêmeras quanto as mãos que te escrevem.




segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Muito mais vermelho que o céu

Seus olhos se abriram para a madrugada, a poucos minutos da alvorada. Encontrou-se de barriga para cima, olhando para o teto. Suspirou bem umas três vezes antes de se mover um pouco e se espreguiçar. Não sentia o corpo sobre a cama. Era ele apenas um fantasma a flutuar na horizontal, estático. Não lembrava de ter deitado na cama na noite passada, tampouco o instante no qual dormira. Quando o primeiro raio de luz tocou a parede do quarto, reencarnou-se e se levantou, pondo os dois pés firmemente sobre o chão. Um acorde de ar irrompeu do firmamento, chamando-o para as primeiras horas do dia pelas quais não ansiava, uma vez que seu objetivo era estar acordado na companhia da noite. Levemente contrariado, pôs as roupas e se dirigiu para a cozinha.
A manhã era particularmente quente dentro daquele vulcão que ele habitava. Na cozinha, de pé diante da pia, a solidão lhe dava bom dia, e ele respondia como respondia todos os dias, "bom dia, meu amor", e sentava-se à mesa do café, onde uma xícara fumegante de lágrimas o esperava. Sempre na mesma parede, naquele mesmo horário, a sombra de um pé de rotina se alongava, tornando seus galhos secos mais longos do que na árvore de verdade. Terminara de beber de sua xícara, e se levantara para sair sem comer seu sanduíche recheado de mágoas. Nunca sentia fome de manhã. Disse adeus a sua solidão e saiu porta afora.
Andou pela rua, se enfileirando atrás de outras solidões e outros eles que caminhavam devagar em direção ao grande dragão de fumaça que os levaria ao abismo de mediocridades no qual todos ganhavam pão, geleia de desgosto, mágoas fatiadas e lágrimas em pó. Enfiou-se desconfortavelmente dentro da barriga do dragão com os outros, e o dragão levantou voo em direção ao abismo. As entranhas do bicho se moviam de maneira incômoda para todos lá dentro, que sem querer se empurravam e se acotovelavam. Lá dentro, ninguém tinha rosto. Não poderia ser diferente, uma vez que revelar-se - diziam os "grandes" - era muito, muito perigoso.
Chegaram todos ao destino, o dragão, as solidões e os eles. Saiam todos em profusão da barriga do bicho para se atirarem no abismo em busca do pão, da geleia, das mágoas e das lágrimas. Ele, o nosso "ele", ia devagar, circundando o abismo sem muita emoção. Acordara diferente, sentira logo cedo. Aquela corrida maluca atrás de tudo aquilo de repente não fazia sentido. Em vez de olhar para baixo, olhava para cima. O céu era do mesmo vermelho que sempre fora, com as mesmas nuvens negras que sempre flutuavam no céu.
Foi quando os dois se esbarraram...
Batera de frente com uma mulher, que aparentemente também olhava para cima, e não para baixo. Passado o choque inicial do impacto entre os corpos, sentado ao chão, ele a vislumbrava pela primeira vez.
Não, definitivamente não era uma solidão, pois tinha rosto. Tinha os olhos negros como carvão, mais negros até do que as nuvens, com um brilho quente, quente como o sol. A pele era algo entre o alvo e o tostado, e ao toque de seus olhos era macia. A boca pequena era rosa como as flores de brinquedo vendidas nas lojas de esquina. Tudo isso lhe era muito, muito diferente e deslumbrante, porém, seus olhos se detinham insistentemente nos cabelos.
Vermelhos... Muito, muito mais vermelhos que o céu, com ondas e curvas e caracóis que dançavam balé em volta da cabeça e do pescoço. Seus olhos se transbordaram de vermelho e curvas e ondas e caracóis. Era tanto vermelho que sentia seu sangue ficar azul.
De repente, resolveu desviar o olhar. Espantado, notara que o céu na tinha mais a mesma cor de antes. Ficara azul! Completamente azul! E as nuvens pareciam ter sido passadas no cloro, pois estavam brancas como a neve dos países distantes. Ao se deparar com tão bizarra cena, ele riu. Riu com força e gosto. E diante dele, ela também ria. Notara ele que, sem mais nem menos, também ganhara rosto. Os dois fixaram seus olhares, firmemente... Viam a mesma coisa, eles não precisavam contar um ao outro, ele sabiam que viam a mesma coisa.
Lá ficaram, sentados um de frente para o outro, no chão, rindo, trocando olhares, e rindo, e trocando olhares. Deram-se conta que ninguém prestava atenção neles dois. Concluíram, então, que só eles, ao se encontrarem, conseguiriam ver o céu azul, seus rostos e coisas que só quem se esbarra ao olhar o céu consegue ver.