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terça-feira, 4 de outubro de 2011

2012 - Uma carta do futuro

2012, pensou-se, seria um ano de grandes mudanças. Alguns, místicos, acreditavam na irrupção de uma nova dimensão. Outros, apocalípticos, aguardavam amedrontados o fim do mundo. Outros, otimistas, teriam certeza de que tudo haveria de ser melhor. Porém, 2012 se mostra um ano bastante diferente do que acreditávamos que seria.
O governo ainda é o mesmo. O salário dos políticos continua crescendo muito e o nosso diminuindo demais. Mesmo assim, curiosamente, conseguimos viver, ou, em alguns casos, sobreviver. Ainda existe muita pobreza, muitos tendo só o suficiente para continuar vivos ou nem isso. Continua impressionando como algumas destas pobres pessoas ainda encontram forças para um sorriso. Os ônibus são novos e as passagens as mesmas: sempre caras. Folgo em perceber que, apesar disso, ainda existem pessoas que cedem o lugar para um idoso ou uma mulher grávida. Mais impostos foram criados, e o preço do essencial ainda sobe. Morar nunca foi tão caro, comer nunca pesou tanto no bolso, mas, graças a Deus, ainda há onde morar e o que comer. Existem mais celulares que pessoas. Novas redes sociais foram criadas, melhores que as antigas, e os jovens nunca passaram tanto tempo na frente do computador como agora. Felizmente, existem aqueles que preferem conversar cara a cara, que têm gosto por viver com os pés no chão ao invés de surfar na grande rede. Os carros ainda são movidos a gasolina, e são muitos carros. As ruas estão desordenadas, os engarrafamentos são constantes e muitas pessoas preferem andar de bicicleta ou a pé. Homens amam homens, mulheres amam mulheres, no entanto existem homens que amam as mulheres, e isso foi sempre raro.
Os bancos lucram muito. Existe um shopping a cada três quadras nas principais avenidas. A cada dia aparece um novo carrinho de cachorro quente. Os centros estão abarrotados de gente correndo de seus escritórios. As redes de fast food se deleitam na hora do rush. Os religiosos prevêem o fim. Não se escreve mais “idéia”, e sim “ideia”. Cada vez menos crianças estão indo à escola. Mais e mais protestos são feitos. Muitos ainda choram suas perdas. A criminalidade continua sendo a criminalidade. Os filhos batem nos pais. As mães rezam pelos filhos. As prostitutas ainda têm emprego. Existem cães de rua. Existem meninos de rua. Existem artistas de rua. Os artistas continuam fazendo muito com muito pouco. Há vendedores de revistas estúpidos. Há vendedores de flores simpáticos. Os motéis ainda têm clientes. Instrumentos musicais importados custam o triplo do preço real. As praças ainda têm seus freqüentadores. A noite ainda existe. Os boêmios também, ainda que poucos. A cerveja está cara, entretanto ainda há quem beba. Há casas com jardins enfeitados. Ainda há quem dê a devida atenção ao espírito. Sim, ainda existe amor. E o dia 21 de Dezembro só nos lembrou que faltavam quatro dias para o Natal.
Com meus cumprimentos do futuro, desejo a todos um excelente resto de 2011.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O sonho, ou Devaneio Saramaguiano

Tal sonho ocorreu-me ainda na noite passada, depois de uma leitura profunda e prazerosa de um desses livros do autor português que ganhou já até Prêmio Nobel (admito sem pudor que, graças a isto, descaradamente copiei uma parcela do estilo dele). Certas memórias deste sonho me escapam por entre os dedos, mas não creio que estas sejam de muita importância, uma vez que as partes relevantes não se me fugiram da mente.
Lembro-me, primeiro, de estarmos em uma linda loja de roupas e tecidos, dentro de algo que me pareceu ser um antigo casarão açoriano, com janelas altas e pouco largas que davam vista a uma paisagem que me lembrou Gramado. Era final de tarde. Sabia-me em companhia de Seth, meu amigo de infância, e de Madalena, minha amante, e mais outra pessoa que só me lembro ser uma mulher. Conversávamos animadamente, fazendo piadas e sentindo em nós o calor da juventude. Junto a minha amante, observava os tecidos mais finos, quando se achegou Seth, gracejando-a. Senti neles algo que era mais do que afeição pela amizade em comum, uma espécie de ligação que ia além do interesses. Afastei-me, enquanto eles diziam algo que não ouvi.
Como que por mágica, transportei-me para um lugar de meias-luzes. Não sei era umbral ou zona morta, mas parecia-me uma das avenidas de uma cidade qualquer, onde riscos de luzes multicoloridas, multivelozes, passavam por mim. Certamente, eram carros. O sol já se havia ido. Vagueei por calçadas imaginárias que me fugiam aos pés, transfigurando meu andar em um balé ébrio e incerto, enquanto a noite corria rápida. Minha garganta clamava por eflúvios etílicos, meu ser queria se embriagar, não mais ensaiar o passo do bêbado. Vi-me empunhando um aparelho misterioso, e através dele enviei carta-mensagem para meu velho amigo de infância, que, a esta altura, poderia estar fazendo qualquer coisa com minha amante.
Mais uma vez me desapareci de um cenário para me encontrar em outro. Tive a certeza de estar de volta ao casarão açoriano, mas já não era loja, senão residência. Um telefone tocava (ou alguém que parecia ser a mãe de Seth havia me avisado que me esperava uma ligação, já não sei). Atendi. Falei algo como: “Sou gente do mundo!”. E do lado de lá, a réplica: “Se és gente do mundo, és gente perdida. És despergente!”. Desliguei. De fato, era eu gente perdida, perdido de mim e de meus próprios atos escravo. Lembrei-me de Seth com minha amada Madalena. Sempre que meu amigo deixava uma mulher, valia-me eu desta mesma mulher, afagando-lhe e trepando-lhe feito animal. Era eu um desses homens que anseiam a mulher do amigo. Mas admito sempre ter sentido certa culpa por isto, não suficiente para me impedir de cometer o ato, mas o suficiente para me dar um leve remorso, uma vez que percebia que ele sentia certo ciúme, talvez produto de um resquício de sentimento pela moça em questão. Sob estas circunstâncias, não me sentia mal em imaginar o que Seth poderia estar fazendo com minha mulher, uma vez que, no meu íntimo, pedia a ele que se vingasse de mim, que me tomasse a mulher como várias vezes lhe tomei, e que me esfregasse na cara o fato. Quase que me comprazia com a idéia! Ouvi uma voz que me dizia que havia muito meus amigos perguntaram de mim, preocupados por eu de repente ter me separado do grupo e por causa da carta-mensagem que enviei a Seth.
Desci um lance de escadas que dava acesso a uma espécie de quintal. Muitas árvores, predominantemente pinheiros, cercavam a dita casa açoriana, que agora já ganhava outro aspecto, mais de construção incompleta. Já era quase de manhã, os primeiros sinais de sol apareciam no horizonte. Senti a presença de meu amigo. Corri para me esconder, não por vergonha ou qualquer motivo malfazejo, mas por pura diversão. Vi seu rosto a procurar e procurar, mas sempre despistava o pobre, sem ao menos ter o cuidado de pisar leve, uma vez que, por mistério, meus pés não tocavam o chão. Num dado momento, fiquei deitado atrás de uma escadaria em ruína, que parecia estar ali há milhares de anos. Mais uma vez, Seth não me encontrava. Ouvi sua voz dizer: “Ele conseguiu! Despistou-me!”.
De repente, estávamos na mesma cama, como que brigando de mentira, conversando assuntos que não lembro. Lembro-me apenas ter dito algo como: “Não importa teu esforço, homem, sempre te despistarei!”. Até que ele me disse: “És o demônio.”.
Então acordei.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Quando se rompeu o fio

Quando se rompeu o fio, uma voz fantasmagóricamente repetiu:

"Não foi possível completar sua chamada. Por favor, tente mais tarde".

"Não foi possível completar sua chamada. Por favor, tente mais tarde".

"Não foi possível completar sua chamada. Por favor, tente mais tarde".

Três vezes. Três, número mágico. Três punhaladas no peito, impiedosas, frias, mortíferas. De repente, a voz arrastada e melancólica dele havia sido trocada pela voz sólida e arrepiante da gravação. Onde estava seu amigo? Para onde haviam sido enviadas suas mensagens? O que havia acontecido para o fio se romper?
Sim, tudo havia sido falado. Mas não era justo que viesse interromper o último momento de agonia dos dois a frieza de uma operadora telefônica. Não era justo que o muito que haviam conversado terminasse sem um adeus. Não era possível que não pudessem nem ao menos dizer: "Até logo. Cuide-se. Estou com saudades. Apareça.". Não. Tudo o que se escutou no fone foi:
"Não foi possível completar sua chamada. Por favor, tente mais tarde".
Seco. Frio. Repugnante.
O silêncio instaurou-se em sua mudez nua e clara. Foi aí que a distância se fez sólida. Tão mais sólida que a voz fria e fantasmagórica da gravação da operadora. Tão somente quando o fio se rompeu.