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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Caso de hospital

Cheguei ao leito do paciente na UTI por volta das 23:14. Os monitores apontavam fracos sinais vitais que pareciam persistir por mero capricho. As ataduras, recém trocadas, já se encharcavam novamente de sangue. Estava, como se diz na minha terra, "na capa da gaita". Deve ter sido um milagre operado por algum santo ou pelo próprio Senhor que o manteve vivo. Ferimentos daquela gravidade teriam matado o mais forte dos homens. No entanto, aquele jovem magro e nitidamente frágil conservava o fio de fumaça de incenso que era sua vida com evidente desejo. Por trás dos olhos fechados notava-se um fogo furioso, que forçava os batentes das pálpebras querendo sair.
Ouvi passos atrás de mim, olhei para trás e cumprimentei o Dr. Cubas, o médico de plantão naquela noite. Observou os monitores, checou as pupilas do paciente e fez algumas anotações em sua prancheta. Suspirou e murmurou "pobre infeliz". Eu, que não acompanhara o caso do início, perguntei:
- O que aconteceu com esse aí, Doutor?
Dr. Cubas, como que saindo de um devaneio, olhou para mim e disse:
- Ah, como pode notar, este jovem foi brutalmente violentado. Teve o braço esquerdo arrancado e uma estaca de madeira rústica cravada em seu peito, pegando de cheio o coração, fora as feridas menores. Vítima infeliz, de fato, mas bem comum.
- E é muito comum ataques de animais selvagens pela região, Doutor? - perguntei, ingênuo.
- Animais? - Dr. Cubas riu - Animal nenhum teria feito o que foi feito com esse jovem. Os animais são menos cruéis, meu caro enfermeiro. Não, não foi um animal. Ferimentos dessa gravidade só são provocados pela criatura mais cruel que um jovem como este pode encontrar.
Silêncio. Perguntei:
- E qual é?
-Ora, - respondeu o Dr. Cubas - a mulher, naturalmente.
Engasguei com meu próprio espanto.
- Uma mulher?! Como uma simples mulher teria conseguido arrancar um braço dessa forma? Cravar uma estaca cega no peito de alguém com tamanha brutalidade?
Dr. Cubas guardou silêncio por mais alguns instantes, olhando fixamente para o rosto do paciente, como que sabendo o que ele sentia. Depois de alguns minutos, falou:
- Meu desavisado enfermeiro, o que vês não são as feridas do corpo, mas as feridas infligidas na alma desse pobre rapaz. Vês, quando se está nessa idade, ainda mais quando se trata de um jovem poeta, tudo é novo, e tudo é intenso. Há no coração desses sonhadores mais amor do que se devia dar, e, como bem sabes, amor é coisa que não pode ficar com a gente - precisa ser passado adiante. Porém, sabemos como dói essa história de dar amor, e o único analgésico eficaz contra isso é receber amor de volta. O aconteceu com este rapaz foi que ele esperou amor como quem espera o troco de dinheiro exato. O que recebeu foi a brutalidade do adeus de quem mexe em nosso peito sem jamais estender uma mão amiga para consolar. Acredito que este jovem tenha se unido a uma moça de corpo e alma (pois é assim que se troca amor), e bem sabemos o quanto os seres se fundem quando há amor. Imagine o processo de separar duas folhas de papel coladas com cola branca. Quando se separaram, a moça sem querer lhe arrancou o braço e um bom pedaço do coração, saindo quase intacta dessa união, porque geralmente só uma folha sai intacta quando tentamos separá-las.
- E a estaca? - perguntei.
- No desespero, - respondeu o Doutor - sem saber o que fazer com a lacuna que deixara no peito do desafortunado rapaz, ela preencheu o vazio com a primeira coisa que viu pela frente. Só não percebeu que era uma estaca de madeira cheia de farpas que ela estava introduzindo no peito do infeliz.
- Mas, Doutor... - indaguei - Disseste que as mulheres são cruéis, no entanto estás pintando o caso como se a moça que fez isso com nosso paciente fosse inocente!
- E é, meu caro amigo. - disse o Doutor pacientemente - As mulheres são cruéis porque isso é de sua natureza, mas não é que elas queiram; as mulheres são cruéis sem querer. Quando este rapaz acordar, há de concordar comigo.
Dr. Cubas pôs a mão em meu ombro e em seguida se afastou. Fitei o jovem paciente. Em meio a leves esgares de dor, sorria. Pude notar, então, que ele concordava com o médico.

Fonte: Google Images

domingo, 1 de dezembro de 2013

Futuro

Saí cedo do Bairro da Imaculada, levando o violão e o caderno de poemas, para ir ao encontro de um passado fantasmal que persiste e não quer morrer, mas que, em verdade, não mais me incomoda. A cidade ainda dormia, e poucos pássaros madrugadores saíam de seus ninhos para a luta cotidiana. Os carros e ônibus se arrastavam sonolentos pelo asfalto, por entre prédios e árvores esparsas, e num desses dragões de chão e metal eu subi.
Devagar como a condução, eu divagava. Meus pensamentos passavam como passava a paisagem na janela, tão cinzas quanto. A neblina turvava os olhos e o coração, e tudo era estática melancolia fora e dentro de mim. Sim, querida, estava pensando em ti. E tenho pensado desde então. Tenho pensado na tua ausência e na falta que me faz teu riso frouxo. Tenho pensado no vazio que minha casa e meu coração apresentam desde que te fostes.
Desde aquele dia penso nisso. Dentro daquele ônibus, notei com tristeza que esquecia as formas do teu rosto. Esquecia a cor dos teus olhos. Esquecia a linha do teu sorriso. Esquecia, Deus meu!, da textura dos teus lábios que me salvaram da sede eterna inúmeras vezes. Estive triste, pois tu me fugias de todo, por inteira, nem na minha lembrança ficavas. Em vários instantes meus olhos ensaiaram lágrimas durante meu trajeto, mas não pude deixar uma gota de tristeza cair para não me expor ao ridículo de chorar ante as gentes que nada sabem do amor e da vida, não como tu ou eu sempre soubemos, e juntos pudemos comprovar o quanto.
E foi assim que, sentado no lado esquerdo do ônibus, como quem está sentado a esquerda de Deus, alheio a mim mesmo e mergulhado no vazio das lamúrias, assim pude ter um vislumbre do futuro.
Entravas pela porta daquele monstro de ferro com a graça dos anjos que sempre tivestes. Estavas linda e - Dio santo - velha! No mínimo, tinhas lá tua meia-idade. No entanto pude constatar, com um sorriso imenso nos lábios e no peito, que tua graça nada diminuíra; que teus olhos conservavam o mesmo brilho solar da mocidade; que aquele teu jeito de olhar para os lados como quem procura algo, como quem suspeita de algo nunca mudara; que a cor da tua pele era a mesma transição do alvo para o escuro; que teus cabelos ainda dançavam balé em volta dos teus ombros.
Mas estavas velha. E apesar do brilho intenso nos olhos, o olhar era mais triste. O rosto se encontrava sofrido do tempo e das dores de viver, mostrando uma expressão tipicamente preocupada, a expressão dos nossos pais. O corpo denunciava as formas da juventude, mas não mais as possuía com a mesma firmeza e o mesmo frescor. Já ganhavas teus ares de fruta madura, um jeito mais duro de se portar, uma maneira melancólica e nostálgica de ver a vida.
No entanto, estavas magnífica.
O ônibus chegava ao meu destino. Levantei-me e pude contemplar de perto a face do futuro. Dei-lhe bom dia e disse:
- Estou feliz de saber que ainda existes, e que existes tão bela quanto sempre fostes.
O futuro, que era tu, fitou-me nos olhos e não me reconheceu. Sorri. Não podia ser diferente, e ao mesmo tempo era inverossímil aquele olhar de interrogação, de quem não reconhece a própria alma. Sorri, pois pude, naquele momento, confundir presente e futuro, transfigurar a realidade, notar um mar de possibilidades que se abre bravio e inexplorado, e desde aquele dia foi neste mar que me pus a navegar.


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Muito mais vermelho que o céu

Seus olhos se abriram para a madrugada, a poucos minutos da alvorada. Encontrou-se de barriga para cima, olhando para o teto. Suspirou bem umas três vezes antes de se mover um pouco e se espreguiçar. Não sentia o corpo sobre a cama. Era ele apenas um fantasma a flutuar na horizontal, estático. Não lembrava de ter deitado na cama na noite passada, tampouco o instante no qual dormira. Quando o primeiro raio de luz tocou a parede do quarto, reencarnou-se e se levantou, pondo os dois pés firmemente sobre o chão. Um acorde de ar irrompeu do firmamento, chamando-o para as primeiras horas do dia pelas quais não ansiava, uma vez que seu objetivo era estar acordado na companhia da noite. Levemente contrariado, pôs as roupas e se dirigiu para a cozinha.
A manhã era particularmente quente dentro daquele vulcão que ele habitava. Na cozinha, de pé diante da pia, a solidão lhe dava bom dia, e ele respondia como respondia todos os dias, "bom dia, meu amor", e sentava-se à mesa do café, onde uma xícara fumegante de lágrimas o esperava. Sempre na mesma parede, naquele mesmo horário, a sombra de um pé de rotina se alongava, tornando seus galhos secos mais longos do que na árvore de verdade. Terminara de beber de sua xícara, e se levantara para sair sem comer seu sanduíche recheado de mágoas. Nunca sentia fome de manhã. Disse adeus a sua solidão e saiu porta afora.
Andou pela rua, se enfileirando atrás de outras solidões e outros eles que caminhavam devagar em direção ao grande dragão de fumaça que os levaria ao abismo de mediocridades no qual todos ganhavam pão, geleia de desgosto, mágoas fatiadas e lágrimas em pó. Enfiou-se desconfortavelmente dentro da barriga do dragão com os outros, e o dragão levantou voo em direção ao abismo. As entranhas do bicho se moviam de maneira incômoda para todos lá dentro, que sem querer se empurravam e se acotovelavam. Lá dentro, ninguém tinha rosto. Não poderia ser diferente, uma vez que revelar-se - diziam os "grandes" - era muito, muito perigoso.
Chegaram todos ao destino, o dragão, as solidões e os eles. Saiam todos em profusão da barriga do bicho para se atirarem no abismo em busca do pão, da geleia, das mágoas e das lágrimas. Ele, o nosso "ele", ia devagar, circundando o abismo sem muita emoção. Acordara diferente, sentira logo cedo. Aquela corrida maluca atrás de tudo aquilo de repente não fazia sentido. Em vez de olhar para baixo, olhava para cima. O céu era do mesmo vermelho que sempre fora, com as mesmas nuvens negras que sempre flutuavam no céu.
Foi quando os dois se esbarraram...
Batera de frente com uma mulher, que aparentemente também olhava para cima, e não para baixo. Passado o choque inicial do impacto entre os corpos, sentado ao chão, ele a vislumbrava pela primeira vez.
Não, definitivamente não era uma solidão, pois tinha rosto. Tinha os olhos negros como carvão, mais negros até do que as nuvens, com um brilho quente, quente como o sol. A pele era algo entre o alvo e o tostado, e ao toque de seus olhos era macia. A boca pequena era rosa como as flores de brinquedo vendidas nas lojas de esquina. Tudo isso lhe era muito, muito diferente e deslumbrante, porém, seus olhos se detinham insistentemente nos cabelos.
Vermelhos... Muito, muito mais vermelhos que o céu, com ondas e curvas e caracóis que dançavam balé em volta da cabeça e do pescoço. Seus olhos se transbordaram de vermelho e curvas e ondas e caracóis. Era tanto vermelho que sentia seu sangue ficar azul.
De repente, resolveu desviar o olhar. Espantado, notara que o céu na tinha mais a mesma cor de antes. Ficara azul! Completamente azul! E as nuvens pareciam ter sido passadas no cloro, pois estavam brancas como a neve dos países distantes. Ao se deparar com tão bizarra cena, ele riu. Riu com força e gosto. E diante dele, ela também ria. Notara ele que, sem mais nem menos, também ganhara rosto. Os dois fixaram seus olhares, firmemente... Viam a mesma coisa, eles não precisavam contar um ao outro, ele sabiam que viam a mesma coisa.
Lá ficaram, sentados um de frente para o outro, no chão, rindo, trocando olhares, e rindo, e trocando olhares. Deram-se conta que ninguém prestava atenção neles dois. Concluíram, então, que só eles, ao se encontrarem, conseguiriam ver o céu azul, seus rostos e coisas que só quem se esbarra ao olhar o céu consegue ver.


quarta-feira, 13 de junho de 2012

O velho bandido

Eu sou aquele velho. Parado ante o hotel, olhos fechados, a mala cheia de arrependimentos numa das mãos. O grisalho dos curtos cabelos se confundindo com o cinza do céu, a tempestuosa estação fazendo trovoada dentro dele. Sou ele. Sou o passado que desfila diante de seus olhos, torturando-o com nostalgias e lembranças que não ressuscitam nem exorcizam fantasmas. Com a bengala cravada ao chão, apoiado por seu orgulho desfeito, eu sou aquele homem, que sente apertar no peito o amor partido das eras, o florescer de muitas primaveras, o frio de muitos invernos. Ele, tal como eu, viveu a vida como se comete um erro: repentinamente, impensadamente, dolorosa e ardentemente. E tal foram seus olhos ante a vida, como disparates ao vento, raios de sol para as nuvens, céu azul para o firmamento de estanho.
Parado diante do hotel, a angustiosa estação fazendo chuva dentro dele, sente apertar no peito uma dor não mais de saudade, não mais de amor, não mais de vida. A pontada lancinante da morte agora vara seu coração dilacerado pelo tempo. Lentamente, como na luta de facas das Bodas de Sangue, ele cai. Estende a mão para o alto, pedindo perdão, sentindo o frio de todos os invernos. A calçada fria é seu leito. O céu cinzento lhe dá a extrema unção. Sem olhar para trás, já dobrei a esquina, não vendo o velho bandido morrer esquecido naquela rua já deserta, não vendo a minha própria morte, a morte dos meus olhos nos olhos dele.

Fonte: sevicosocial.blogspot.com

terça-feira, 4 de outubro de 2011

2012 - Uma carta do futuro

2012, pensou-se, seria um ano de grandes mudanças. Alguns, místicos, acreditavam na irrupção de uma nova dimensão. Outros, apocalípticos, aguardavam amedrontados o fim do mundo. Outros, otimistas, teriam certeza de que tudo haveria de ser melhor. Porém, 2012 se mostra um ano bastante diferente do que acreditávamos que seria.
O governo ainda é o mesmo. O salário dos políticos continua crescendo muito e o nosso diminuindo demais. Mesmo assim, curiosamente, conseguimos viver, ou, em alguns casos, sobreviver. Ainda existe muita pobreza, muitos tendo só o suficiente para continuar vivos ou nem isso. Continua impressionando como algumas destas pobres pessoas ainda encontram forças para um sorriso. Os ônibus são novos e as passagens as mesmas: sempre caras. Folgo em perceber que, apesar disso, ainda existem pessoas que cedem o lugar para um idoso ou uma mulher grávida. Mais impostos foram criados, e o preço do essencial ainda sobe. Morar nunca foi tão caro, comer nunca pesou tanto no bolso, mas, graças a Deus, ainda há onde morar e o que comer. Existem mais celulares que pessoas. Novas redes sociais foram criadas, melhores que as antigas, e os jovens nunca passaram tanto tempo na frente do computador como agora. Felizmente, existem aqueles que preferem conversar cara a cara, que têm gosto por viver com os pés no chão ao invés de surfar na grande rede. Os carros ainda são movidos a gasolina, e são muitos carros. As ruas estão desordenadas, os engarrafamentos são constantes e muitas pessoas preferem andar de bicicleta ou a pé. Homens amam homens, mulheres amam mulheres, no entanto existem homens que amam as mulheres, e isso foi sempre raro.
Os bancos lucram muito. Existe um shopping a cada três quadras nas principais avenidas. A cada dia aparece um novo carrinho de cachorro quente. Os centros estão abarrotados de gente correndo de seus escritórios. As redes de fast food se deleitam na hora do rush. Os religiosos prevêem o fim. Não se escreve mais “idéia”, e sim “ideia”. Cada vez menos crianças estão indo à escola. Mais e mais protestos são feitos. Muitos ainda choram suas perdas. A criminalidade continua sendo a criminalidade. Os filhos batem nos pais. As mães rezam pelos filhos. As prostitutas ainda têm emprego. Existem cães de rua. Existem meninos de rua. Existem artistas de rua. Os artistas continuam fazendo muito com muito pouco. Há vendedores de revistas estúpidos. Há vendedores de flores simpáticos. Os motéis ainda têm clientes. Instrumentos musicais importados custam o triplo do preço real. As praças ainda têm seus freqüentadores. A noite ainda existe. Os boêmios também, ainda que poucos. A cerveja está cara, entretanto ainda há quem beba. Há casas com jardins enfeitados. Ainda há quem dê a devida atenção ao espírito. Sim, ainda existe amor. E o dia 21 de Dezembro só nos lembrou que faltavam quatro dias para o Natal.
Com meus cumprimentos do futuro, desejo a todos um excelente resto de 2011.

domingo, 24 de abril de 2011

Mar de gente, a certeza da solidão

Ele se divertia. Por fora. Por dentro, era mais uma massa de tédio e melancolia. Festas, confraternizações e afins. Tudo isso deixava o rapaz em depressão profunda, como se a vida se resumisse às gotas de uma bebida etílica e um punhado de gente superficial. Podia ter a nítida certeza de que, se morresse naquele exato instante, ninguém notaria. Ninguém ouviria o grito silencioso de sua alma, ninguém teria compaixão para com seu espírito ferido e jamais teria o amor de ninguém ali.
Tudo estava estático, mesmo em movimento. Nenhuma viva alma sentia ou pensava, eram todos como animais cegos e acéfalos, sem noção do que era ou não era. Deles, apenas ele parecia ciente. Apenas ele se via em pé ante as condições que a vida impunha tão implacavelmente aos seres mortais. "Se tens alegrias, tens muitos amigos. Se tens dores, só estás". Por que, justo agora, aquilo se fazia tão claro?
Mas era inevitável. Onde quer que estivesse, apenas ele sabia daquilo. E se lutasse contra, entendia do jeito mais difícil que era fraco. Não por não conseguir lutar, mas por não saber lidar com a perda, por não saber lidar com o passado e solidão. Em meio a tantas pessoas, tantos amores e desamores, estava só. E seria eterno este sentimento, enquanto estivesse longe dela.

domingo, 3 de abril de 2011

Chama, ou Big Bang

Um homem do povoado de Neguá, no litoral da Colômbia, pôde subir no alto do céu e na volto contou: disse que havia contemplado, desde lá de cima a vida humana. E disse que somos um mar de foguinhos. O mundo é isso, revelou: um monte de gente, um mar de foguinhos. Não existem dois fogos iguais. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Existem fogos grandes e fogos pequenos,  e fogos de todas as cores. Há gente de fogo sereno, que nem fica sabendo do vento. E há gente de fogo louco, que enche o ar de faíscas. Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam. Mas outros... Outros ardem a vida com tanta vontade que não se pode olhá-los sem pestanejar, e quem se aproxima se incendeia.
(Eduardo Galeano)

Eles eram o Big Bang entre a gente que brilha sem vontade. Entregavam-se um ao outro com tamanha devoção e com tamanho desejo que todas as gentes, mesmo as de olhos opacos ou vazios, sentiam o calor daquele momento, ouviam seus corpos a conversar sem palavras, viam o brilho de beleza e fervor que os dois, juntos, produziam. Seus suores eram o mar. Seus olhos, diamantes. Suas peles, brasas. Seus cabelos se entrelaçavam como galhos de árvores numa mata virgem. Seus beijos lançavam no ar aromas, cores e música. Se abraçavam com tanta força que quase sentiam seus corpos a se fundirem numa única grande chama, a arder ofuscantemente num ponto esquecido do mundo, longe, mas tão perto. Ali, perto. Seu orgasmo era o eco dos ecos, o brilho de todas as estrelas, o calor de todas as chamas. E seu sono era o total silêncio, a noite mais clara, o brisa mais branda. Para depois começar tudo outra vez, naquele sofá de casa de campo...
Eles eram o Big Bang.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O sonho, ou Devaneio Saramaguiano

Tal sonho ocorreu-me ainda na noite passada, depois de uma leitura profunda e prazerosa de um desses livros do autor português que ganhou já até Prêmio Nobel (admito sem pudor que, graças a isto, descaradamente copiei uma parcela do estilo dele). Certas memórias deste sonho me escapam por entre os dedos, mas não creio que estas sejam de muita importância, uma vez que as partes relevantes não se me fugiram da mente.
Lembro-me, primeiro, de estarmos em uma linda loja de roupas e tecidos, dentro de algo que me pareceu ser um antigo casarão açoriano, com janelas altas e pouco largas que davam vista a uma paisagem que me lembrou Gramado. Era final de tarde. Sabia-me em companhia de Seth, meu amigo de infância, e de Madalena, minha amante, e mais outra pessoa que só me lembro ser uma mulher. Conversávamos animadamente, fazendo piadas e sentindo em nós o calor da juventude. Junto a minha amante, observava os tecidos mais finos, quando se achegou Seth, gracejando-a. Senti neles algo que era mais do que afeição pela amizade em comum, uma espécie de ligação que ia além do interesses. Afastei-me, enquanto eles diziam algo que não ouvi.
Como que por mágica, transportei-me para um lugar de meias-luzes. Não sei era umbral ou zona morta, mas parecia-me uma das avenidas de uma cidade qualquer, onde riscos de luzes multicoloridas, multivelozes, passavam por mim. Certamente, eram carros. O sol já se havia ido. Vagueei por calçadas imaginárias que me fugiam aos pés, transfigurando meu andar em um balé ébrio e incerto, enquanto a noite corria rápida. Minha garganta clamava por eflúvios etílicos, meu ser queria se embriagar, não mais ensaiar o passo do bêbado. Vi-me empunhando um aparelho misterioso, e através dele enviei carta-mensagem para meu velho amigo de infância, que, a esta altura, poderia estar fazendo qualquer coisa com minha amante.
Mais uma vez me desapareci de um cenário para me encontrar em outro. Tive a certeza de estar de volta ao casarão açoriano, mas já não era loja, senão residência. Um telefone tocava (ou alguém que parecia ser a mãe de Seth havia me avisado que me esperava uma ligação, já não sei). Atendi. Falei algo como: “Sou gente do mundo!”. E do lado de lá, a réplica: “Se és gente do mundo, és gente perdida. És despergente!”. Desliguei. De fato, era eu gente perdida, perdido de mim e de meus próprios atos escravo. Lembrei-me de Seth com minha amada Madalena. Sempre que meu amigo deixava uma mulher, valia-me eu desta mesma mulher, afagando-lhe e trepando-lhe feito animal. Era eu um desses homens que anseiam a mulher do amigo. Mas admito sempre ter sentido certa culpa por isto, não suficiente para me impedir de cometer o ato, mas o suficiente para me dar um leve remorso, uma vez que percebia que ele sentia certo ciúme, talvez produto de um resquício de sentimento pela moça em questão. Sob estas circunstâncias, não me sentia mal em imaginar o que Seth poderia estar fazendo com minha mulher, uma vez que, no meu íntimo, pedia a ele que se vingasse de mim, que me tomasse a mulher como várias vezes lhe tomei, e que me esfregasse na cara o fato. Quase que me comprazia com a idéia! Ouvi uma voz que me dizia que havia muito meus amigos perguntaram de mim, preocupados por eu de repente ter me separado do grupo e por causa da carta-mensagem que enviei a Seth.
Desci um lance de escadas que dava acesso a uma espécie de quintal. Muitas árvores, predominantemente pinheiros, cercavam a dita casa açoriana, que agora já ganhava outro aspecto, mais de construção incompleta. Já era quase de manhã, os primeiros sinais de sol apareciam no horizonte. Senti a presença de meu amigo. Corri para me esconder, não por vergonha ou qualquer motivo malfazejo, mas por pura diversão. Vi seu rosto a procurar e procurar, mas sempre despistava o pobre, sem ao menos ter o cuidado de pisar leve, uma vez que, por mistério, meus pés não tocavam o chão. Num dado momento, fiquei deitado atrás de uma escadaria em ruína, que parecia estar ali há milhares de anos. Mais uma vez, Seth não me encontrava. Ouvi sua voz dizer: “Ele conseguiu! Despistou-me!”.
De repente, estávamos na mesma cama, como que brigando de mentira, conversando assuntos que não lembro. Lembro-me apenas ter dito algo como: “Não importa teu esforço, homem, sempre te despistarei!”. Até que ele me disse: “És o demônio.”.
Então acordei.

terça-feira, 22 de junho de 2010

A manhã posterior, ou A angústia de Silvana

Era incrível como o cheiro dele insisitia em sua blusa.
Um abraço. Só isso. Os dois compartilharam não mais que um momento de calor humano. Nada mais. O que era aquilo? Amor? Admiração? Curiosidade? Que homem estranho e intrigante era aquele, que por uma noite esteve em sua cama, sem sequer ter tido com ela um momento de fervor? Vira seus olhos tristes, sua boca pequena, não obstante em nenhum momento fechara aqueles olhos, em nenhum momento beijara aquela boca.
Uma noite e uma madrugada em claro foi o que compartilharam. Conversas sobre o nada, ou sobre o tudo, ou sobre tudo ou nada. Pareciam discutir os segredos do Universo com palavras simples, ou mesmo desvendar os mistérios da alma em uma frase. Vez por outra, externizavam mágoas. Ele cerrava deliciosamente os olhos. Vira-o dormir, e, por uns instantes, observara-o em seus misteriosos sonhos, antes de adormecer ela própria.
Fora acordada por sua voz se despedindo, e por sua boca dando-lhe um beijo carinhoso no rosto. Em seguida, adormecera novamente. Quando acordara definitivamente, ouvindo a algazarra da metrópole ensandescida, horas mais tarde, dera falta dele. Aquelas doces palavras, aquele delicado beijo não haviam sido um sonho. Houvera sido a triste realidade que ele se fora. Sentiu um vazio gélido no peito. Como? Como era possível, em uma noite, sem ao menos ter de fato se entregado, ser tão pertencente àquele homem? O que fizera ele? Por que já era tão difícil a idéia de dormir sem seu calor?
Levantou da cama, pesada e tristemente. Arrependia-se de não ter dado ao fidalgo que a abandonara ao menos uma parcela de seu amor. Aquilo já pesava sobre ela como um fardo velho e gasto. Caminhara sobre o quarto, sentindo a presença inquietante dele, procurando em cada vão um vestígio de sua sombra. Não encontrava. Sentou-se na cama, inconformada como criança. Viu no chão, próximo ao pé da cama, sua blusa verde. Tomou-a em mãos e a abraçou como se abraçasse aquele homem. Numa surpresa, sentira o aroma de seu perfume. Olhou em direção a porta.
Ninguém. O cheiro não vinha dali.
Era incrível como o cheiro dele insistia em sua blusa.

sábado, 19 de junho de 2010

Os missionários, ou Providência Divina, ou Em nome de Deus

 Decidi-me por beber um martelinho de cachaça mineira e publicar este conto, mas não sem antes escrever esta nota. Esta é uma história de ficção. Que tirem suas conclusões e ofenda-se quem ofendido se sentir.

 A campainha tocou. Estranhou. Nunca recebia visitas tão cedo na tarde. Olhou pela janela e viu dois jovens parados ao portão. Usavam roupas sociais. Seriam vendedores? Abriu a porta.
- Sim? - falou alto.
- Senhora, boa tarde. - disse o mais baixo, de cabelos pretos e pele branca, um rosto fino. Tinha por volta dos dezoito anos. - Podemos falar?
Ela estranhou, mas se aproximou do portão.
- Pois não... - disse ela, ainda desconfiada.
- Nós somos missionários. Levamos a palavra de Deus em nome de nossa Igreja aos cidadãos. - disse o outro, mais alto, loiro e com o rosto coberto por algumas espinhas. - Poderiamos tomar alguns minutos do seu tempo?
Ela esboçou um meio-sorriso. Jovens missionários. Havia tempos que não ia à Igreja, passava a maior parte do tempo em casa. Era viúva antes dos quarenta anos. Religiosa. Assim como seu falecido marido. Aqueles jovens, tão bem-educados e simpáticos surgiam para ela como um alento para sua dor, vinda de uma ferida ainda não cicatrizada.
- Não estarão tomando meu tempo, queridos. - disse ela, finalmente sorrindo. - Querem entrar?
- Não senhora, por ora estamos de passagem. Mas leremos um trecho da Bíblia aqui mesmo.
Ela assentiu. O missionário mais baixo leu um dos Salmos. Ao fim, disseram:
- Que Deus esteja em vossa casa e que a Benção Divina paire sobre a senhora aonde for.
- Obrigado pela atenção e muito boa tarde.
Se despediram. Foram seguindo a rua em direção à proxima casa.
Passara-se uma semana. A capainha voltou a tocar, no mesmo horário, e lá estavam eles. Os mesmo jovens, com as mesmas roupas sociais. Ela os atendeu no portão.
- Que bom ver vocês de novo. - disse a viúva. - Na semana passada, vocês aqueceram meu coração com a leitura.
- São as palavras de Deus, senhora - disse o loiro. - Elas confortam quem tem ouvidos para o Senhor.
- E hoje, vocês não querem entrar? - disse ela, cordial.
- Não, senhora, não queremos incomodar... - disse o mais baixo.
- Insisto! Tomem um suco, ao menos.
Assentiram. A viúva abriu-lhes o portão da casa. Eles entraram, beberam, comeram e leram a Bíblia. Ficaram lá por meia hora, depois, educamente, agradeceram e se retiraram.
Foi assim por semanas. Com o tempo, não só paravam para fazer um lanche, mas já estavam jantando na casa da viúva depois dos cultos no templo, mais tarde pernoitando e tomando banho em sua casa. Ela os via como dois filhos que nunca tivera com seu falecido marido. Ela era estéril. Por isso, ter aqueles dois rapazes educados e respeitosos em sua casa era um presente de Deus.
Uma noite, quando os dois haviam terminado o jantar e se preparavam para partir, ela os deteve.
- Meninos, não tenham pressa! Fiquem mais um pouco!
- Mas já incomodamos o suficiente, senhora. Não seria delicado de nossa parte...
- Por favor, meninos. Eu insisto.
Assentiram, como sempre.
Sentaram nos sofás da sala. Ela foi ao bar e pegou uma garrafa do melhor vinho que tinha.
- Aceitem. É uma excelente safra.
- Senhora, - disse o rapaz de cabelos pretos - não nos é permitido ingerir álcool. É contra a os princípios da religião.
- Ora, por favor, uma taça não vai fazer de vocês hereges. Aliás, o próprio Jesus Cristo bebeu do vinho do seu povo.
Com este argumento, os rapazes pegaram as taças oferecidas e foram servidos do vinho rubro. Bebericavam comedidamente. A viúva bebeu um longo e gostoso gole. Respirou profunda e sonoramente com a sensação do álcool circulando em suas veias.
- Sabe, eu costumava beber muito com meu marido. - disse ela, o olhar distante e fixo. - Muito, digo eu, uma taça por dia, um costume nosso. Compravamos sempre do melhor. Agora, o que restou está aí, juntando pó. Nunca mais tive vontade de beber deste sangue de Cristo. Mas vocês são tão amáveis que me fizeram abrir uma garrafa! Isso é muito bom.
Tomou outro gole, esvaziando a taça. Em seguida, tornou a enchê-la, até a borda.
Os dois rapazes continuavam com as taças cheias, enquanto a viúva entornava uma após a outra. Ela ria alto, enrolava a língua, tropeçando nas palavras e nos móveis. Num dado momento, caiu no tapete da sala. Rindo ela pediu que os rapazes a ajudassem a levantar.
Ao invés disto, estavam soltando os cintos.
Parou de rir. Abriam as calças. De repente, estavam em cima dela, segurando-a com força, com violência. Ela nem ao menos conseguia reagir, não sabia se por causa do álcool ou do medo. Rasgavam-lhe as roupas, chupavam-lhe os seios fartos com gula repulsiva, tocavam-a estupidamente. Batiam-lhe nas faces com seus membros rijos. Pentravam-a, violavam-lhe o ânus, maculavam-lhe a boca, e não paravam, por Deus, não paravam. Emitiam sons grotescos, salivavam por sobre seu corpo tal animais selvagens, animais humanos. Ela gritava, gemia de desespero. Não paravam... Por Deus, não paravam.
Repentinamente, com um grunhido, cada um deles anúnciou o derradeiro momento. O rapaz mais baixo, de cabelos negros, ejaculou dentro de seu ânus, enquanto o outro sujou-lhe o rosto. O líquido viscoso e quente lhe corria nas faces e para fora de seu orifício. Os dois violentadores, recompondo-se, vestiram as roupas e saíram pela porta, abandonando a vítima. O vinho das taças jazia no chão, como ela própria. Lágrimas e esperma vil machavam-lhe as faces. Não sabia o que sentia. De repente, Deus a abandonara.  Não tinha marido, não tinha filhos, não tinha nada... Estava tão inerte por dentro quanto por fora. Apenas conseguia mover os olhos. Estes encontraram a foto de seu falecido marido. Ele parecia olhar para ela, como que querendo confortá-la, como se a chamasse...
Num impulso, ela pegou a garrafa de vinho, quebrou-a fazendo cacos voarem por toda a sala, e, com esta ainda na mão, cravou-lhe a extremidade pontiguada e fatal na garganta, exatamente como fizera seu marido, com quem se juntava neste momento. O tinto do sangue mesclava-se ao tinto do sangue de Cristo, enquanto ela jazia eternamente inerte.
 

sábado, 8 de maio de 2010

A Jornada e o Tempo, ou Condição Humana

Tanto caminho e parece que a gente anda em círculos! Este é um dos absurdos da Jornada. Sim, são muitos os poréns dela, mas não escapamos nunca da caminhada. É sempre necessário dar um próximo passo, mesmo que resulte em queda, mesmo que se saiba da possibilidade da queda. Quedar-se imóvel é impossível, de qualquer forma.
Por isto, caminhamos, tanto faz se para frente ou para trás. A Jornada consiste em estarmos sempre em movimento, não importa para onde caminhemos, não importa se retrocedemos, não importa de caímos. Isto porque o Tempo (que exerce sobre nós força inigualável) está sempre andando. Ele fere, degrada, atinge e desfaz muita coisa, mas não pára.
Aprendamos com ele! Por mais que fira, degrade e atinja, o Tempo é o mestre que alimenta teu sangue e sara tuas feridas, e mostra que tudo sempre passa. Ele dá passos curtos e cadenciados, portanto, lentamente tranforma as coisas, e ensina que nossa transformação também é lenta. Chego a acreditar que o Tempo foi um grande sábio encarnado e que agora olha por nós sob a forma do passar das horas, dos dias e dos anos, sempre ensinando que na Jornada se deve andar devagar, e nunca deixar de andar.
Nós, estúpidos e infelizes seres humanos, tememos ambos o Tempo e a Jornada pelo mero fato de, para nós, serem coisas desconhecidas. Está por vir o dia em que teremos de romper com as correntes da nossa ignorância e caminhar sem medo pela estrada do que chamamos vida, sem tentar prever o próximo passo. A Jornada é nebulosa, e não se vê um palmo à nossa frente, porém, se tivermos fé, cada passo será dado com segurança em nosso chão, e entenderemos que o Tempo nos ensinou bem a caminhar devagar.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Fugere urben

Foje à minha visão o espírito da cidade. O gato branco passeia sob minha mesa. Morte e vida portoalegrenses baixam sobre minha cabeça, e o frio do inverno sussurra em meus ouvidos. Carcaças desfilam pela Praça XV, enquanto o sol desaba vagarosamente pelo firmamento. É a tarde cosmopolita, a metrópole cega-surda-muda, insône e febril sobre seu leito frio à beira do rio. É o delírio desperto de uma urbe sitiada. É o fim do espasmo antes do coma. É a altivez do concreto e a baixeza do sutil. É a prevalência da carne. É o maldizer daqueles que não têm e dos que têm e não dão. É o aluguel do recém-nascido. É o lamento das antenas. São pernas, seios e quadris sem corpo. É a nudez velada dos crimes e pecados do povo. É, por fim, aquilo que passa pelos olhos num lampejo...

segunda-feira, 1 de março de 2010

Pena de morte, ou O suicídio.

O pensamento inexistia. O ar era sólido e frio como granizo. Ao longe, os prédios se erguiam em seus alicerces. A cidade ainda dormia. Ele, do alto daquele edifício, contemplava a imensidão, só como um oasis. Escura era sua vida. Tolo era seu pensar, que agora, sumia com o carro que dobrava a esquina. Ele era só. Ele era sólido. Ele era frio.
Parou-se à beira de seu cadafalso. Sabia que havia errado. Sabia que era culpado. E sabia que sua condenação era mais do que justa. Já não tinha direito a felicidade. Sabia que muitas vidas se perderiam em seus braços e que era perigosamente tolo. Sabia que era mentiroso e sedutor. Tinha consciência de seus crimes mais hediondos, agora mais do que nunca.
Mais uma vez fitou a cidade. Era uma despedida. Era um último olhar de um condenado ao povo que o condena. Uma lágrima boba e silenciosa brotou-lhe dos olhos. Ele se fez sol quando o sol se ergueu. Ele se fez vento quando o vento soprou. Ele se fez livre. Abriu o vão de seu próprio cadafalso. Sentiu o ar gelado mais leve e fluído, flutuando pelo ar como pássaro. Sentiu, por um breve e agoniado instante, o alívio dos aflitos.
Tocou o chão violentamente. Sentia dor e desespero. Inerte, patético, fitou a única coisa que podia fitar naquele momento: o céu. Azul e cruel, parecia olhar de volta. Mais uma lágrima se fez cair de seus olhos. Aquilo que ele mais queria estava ali, logo ali, acima dele, mas sabia que, ali embaixo, tão baixo, jamais seria capaz de alcançar o céu...

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

E agora?

"Esta verdade trespassa meus olhos esbugalhados..."
"Acordo. Levanto. Fico sentado em minha cama. E agora? Ah, agora é um pé após o outro em direção ao banheiro. Tiro uma água do joelho, tomo um banho, me visto. E agora? Um pé após o outro, desta vez em direção à cozinha. Preparo um café, largo fritura em um pão francês. Parto. E agora? Pra onde? Pé ante pé, depressa para não perder a condução. Trabalho. Almoço. E agora? Mais trabalho. É meu ganha pão, minha condição, minha vida. Sem isto não faço nada. E agora? Final de expediente. Hora de ir embora. Não sou José, mas pra onde? E agora? Era pé ante pé, não era? Sinto-me tonto. Chego em casa... E agora? Abro a porta, dou de cara com a bagunça habitual, sento-me... Abro uma garrafa de whisky, ninguém é de ferro. O etílico elixir inebria cada célula. Fico dormente. E agora? Mais whisky. Vejo que não vivi nada o dia todo. É noite. Acendo um cigarro. A fumaça dança preguiçosa no ar, meus suspiros se escondem no monóxido de carbono, meus olhos piscam entorpecidos. Nenhuma lágrima. Só o vazio. É noite. A sala só é iluminada pelas luzes lá de fora. E agora? Que interrogação persistente. Levanto-me. Tropeço. Sinto o choque cruel de minha cabeça contra a quina da mesa de centro. Sangue... E, de repente, fica tudo claro. E agora? Como vou trabalhar? O que vão dizer aos meus parentes? E meus amigos? Eu queria ser alguém, mas não tinha vida. Que interrogação persistente. E agora? Isso tudo que fiz até hoje me tirou a vida..."
"Esta verdade trespassa meus olhos esbugalhados..."
"Mas eu tinha vida..."
"E agora...?"