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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Caso de hospital

Cheguei ao leito do paciente na UTI por volta das 23:14. Os monitores apontavam fracos sinais vitais que pareciam persistir por mero capricho. As ataduras, recém trocadas, já se encharcavam novamente de sangue. Estava, como se diz na minha terra, "na capa da gaita". Deve ter sido um milagre operado por algum santo ou pelo próprio Senhor que o manteve vivo. Ferimentos daquela gravidade teriam matado o mais forte dos homens. No entanto, aquele jovem magro e nitidamente frágil conservava o fio de fumaça de incenso que era sua vida com evidente desejo. Por trás dos olhos fechados notava-se um fogo furioso, que forçava os batentes das pálpebras querendo sair.
Ouvi passos atrás de mim, olhei para trás e cumprimentei o Dr. Cubas, o médico de plantão naquela noite. Observou os monitores, checou as pupilas do paciente e fez algumas anotações em sua prancheta. Suspirou e murmurou "pobre infeliz". Eu, que não acompanhara o caso do início, perguntei:
- O que aconteceu com esse aí, Doutor?
Dr. Cubas, como que saindo de um devaneio, olhou para mim e disse:
- Ah, como pode notar, este jovem foi brutalmente violentado. Teve o braço esquerdo arrancado e uma estaca de madeira rústica cravada em seu peito, pegando de cheio o coração, fora as feridas menores. Vítima infeliz, de fato, mas bem comum.
- E é muito comum ataques de animais selvagens pela região, Doutor? - perguntei, ingênuo.
- Animais? - Dr. Cubas riu - Animal nenhum teria feito o que foi feito com esse jovem. Os animais são menos cruéis, meu caro enfermeiro. Não, não foi um animal. Ferimentos dessa gravidade só são provocados pela criatura mais cruel que um jovem como este pode encontrar.
Silêncio. Perguntei:
- E qual é?
-Ora, - respondeu o Dr. Cubas - a mulher, naturalmente.
Engasguei com meu próprio espanto.
- Uma mulher?! Como uma simples mulher teria conseguido arrancar um braço dessa forma? Cravar uma estaca cega no peito de alguém com tamanha brutalidade?
Dr. Cubas guardou silêncio por mais alguns instantes, olhando fixamente para o rosto do paciente, como que sabendo o que ele sentia. Depois de alguns minutos, falou:
- Meu desavisado enfermeiro, o que vês não são as feridas do corpo, mas as feridas infligidas na alma desse pobre rapaz. Vês, quando se está nessa idade, ainda mais quando se trata de um jovem poeta, tudo é novo, e tudo é intenso. Há no coração desses sonhadores mais amor do que se devia dar, e, como bem sabes, amor é coisa que não pode ficar com a gente - precisa ser passado adiante. Porém, sabemos como dói essa história de dar amor, e o único analgésico eficaz contra isso é receber amor de volta. O aconteceu com este rapaz foi que ele esperou amor como quem espera o troco de dinheiro exato. O que recebeu foi a brutalidade do adeus de quem mexe em nosso peito sem jamais estender uma mão amiga para consolar. Acredito que este jovem tenha se unido a uma moça de corpo e alma (pois é assim que se troca amor), e bem sabemos o quanto os seres se fundem quando há amor. Imagine o processo de separar duas folhas de papel coladas com cola branca. Quando se separaram, a moça sem querer lhe arrancou o braço e um bom pedaço do coração, saindo quase intacta dessa união, porque geralmente só uma folha sai intacta quando tentamos separá-las.
- E a estaca? - perguntei.
- No desespero, - respondeu o Doutor - sem saber o que fazer com a lacuna que deixara no peito do desafortunado rapaz, ela preencheu o vazio com a primeira coisa que viu pela frente. Só não percebeu que era uma estaca de madeira cheia de farpas que ela estava introduzindo no peito do infeliz.
- Mas, Doutor... - indaguei - Disseste que as mulheres são cruéis, no entanto estás pintando o caso como se a moça que fez isso com nosso paciente fosse inocente!
- E é, meu caro amigo. - disse o Doutor pacientemente - As mulheres são cruéis porque isso é de sua natureza, mas não é que elas queiram; as mulheres são cruéis sem querer. Quando este rapaz acordar, há de concordar comigo.
Dr. Cubas pôs a mão em meu ombro e em seguida se afastou. Fitei o jovem paciente. Em meio a leves esgares de dor, sorria. Pude notar, então, que ele concordava com o médico.

Fonte: Google Images

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Muito mais vermelho que o céu

Seus olhos se abriram para a madrugada, a poucos minutos da alvorada. Encontrou-se de barriga para cima, olhando para o teto. Suspirou bem umas três vezes antes de se mover um pouco e se espreguiçar. Não sentia o corpo sobre a cama. Era ele apenas um fantasma a flutuar na horizontal, estático. Não lembrava de ter deitado na cama na noite passada, tampouco o instante no qual dormira. Quando o primeiro raio de luz tocou a parede do quarto, reencarnou-se e se levantou, pondo os dois pés firmemente sobre o chão. Um acorde de ar irrompeu do firmamento, chamando-o para as primeiras horas do dia pelas quais não ansiava, uma vez que seu objetivo era estar acordado na companhia da noite. Levemente contrariado, pôs as roupas e se dirigiu para a cozinha.
A manhã era particularmente quente dentro daquele vulcão que ele habitava. Na cozinha, de pé diante da pia, a solidão lhe dava bom dia, e ele respondia como respondia todos os dias, "bom dia, meu amor", e sentava-se à mesa do café, onde uma xícara fumegante de lágrimas o esperava. Sempre na mesma parede, naquele mesmo horário, a sombra de um pé de rotina se alongava, tornando seus galhos secos mais longos do que na árvore de verdade. Terminara de beber de sua xícara, e se levantara para sair sem comer seu sanduíche recheado de mágoas. Nunca sentia fome de manhã. Disse adeus a sua solidão e saiu porta afora.
Andou pela rua, se enfileirando atrás de outras solidões e outros eles que caminhavam devagar em direção ao grande dragão de fumaça que os levaria ao abismo de mediocridades no qual todos ganhavam pão, geleia de desgosto, mágoas fatiadas e lágrimas em pó. Enfiou-se desconfortavelmente dentro da barriga do dragão com os outros, e o dragão levantou voo em direção ao abismo. As entranhas do bicho se moviam de maneira incômoda para todos lá dentro, que sem querer se empurravam e se acotovelavam. Lá dentro, ninguém tinha rosto. Não poderia ser diferente, uma vez que revelar-se - diziam os "grandes" - era muito, muito perigoso.
Chegaram todos ao destino, o dragão, as solidões e os eles. Saiam todos em profusão da barriga do bicho para se atirarem no abismo em busca do pão, da geleia, das mágoas e das lágrimas. Ele, o nosso "ele", ia devagar, circundando o abismo sem muita emoção. Acordara diferente, sentira logo cedo. Aquela corrida maluca atrás de tudo aquilo de repente não fazia sentido. Em vez de olhar para baixo, olhava para cima. O céu era do mesmo vermelho que sempre fora, com as mesmas nuvens negras que sempre flutuavam no céu.
Foi quando os dois se esbarraram...
Batera de frente com uma mulher, que aparentemente também olhava para cima, e não para baixo. Passado o choque inicial do impacto entre os corpos, sentado ao chão, ele a vislumbrava pela primeira vez.
Não, definitivamente não era uma solidão, pois tinha rosto. Tinha os olhos negros como carvão, mais negros até do que as nuvens, com um brilho quente, quente como o sol. A pele era algo entre o alvo e o tostado, e ao toque de seus olhos era macia. A boca pequena era rosa como as flores de brinquedo vendidas nas lojas de esquina. Tudo isso lhe era muito, muito diferente e deslumbrante, porém, seus olhos se detinham insistentemente nos cabelos.
Vermelhos... Muito, muito mais vermelhos que o céu, com ondas e curvas e caracóis que dançavam balé em volta da cabeça e do pescoço. Seus olhos se transbordaram de vermelho e curvas e ondas e caracóis. Era tanto vermelho que sentia seu sangue ficar azul.
De repente, resolveu desviar o olhar. Espantado, notara que o céu na tinha mais a mesma cor de antes. Ficara azul! Completamente azul! E as nuvens pareciam ter sido passadas no cloro, pois estavam brancas como a neve dos países distantes. Ao se deparar com tão bizarra cena, ele riu. Riu com força e gosto. E diante dele, ela também ria. Notara ele que, sem mais nem menos, também ganhara rosto. Os dois fixaram seus olhares, firmemente... Viam a mesma coisa, eles não precisavam contar um ao outro, ele sabiam que viam a mesma coisa.
Lá ficaram, sentados um de frente para o outro, no chão, rindo, trocando olhares, e rindo, e trocando olhares. Deram-se conta que ninguém prestava atenção neles dois. Concluíram, então, que só eles, ao se encontrarem, conseguiriam ver o céu azul, seus rostos e coisas que só quem se esbarra ao olhar o céu consegue ver.


quarta-feira, 13 de junho de 2012

O velho bandido

Eu sou aquele velho. Parado ante o hotel, olhos fechados, a mala cheia de arrependimentos numa das mãos. O grisalho dos curtos cabelos se confundindo com o cinza do céu, a tempestuosa estação fazendo trovoada dentro dele. Sou ele. Sou o passado que desfila diante de seus olhos, torturando-o com nostalgias e lembranças que não ressuscitam nem exorcizam fantasmas. Com a bengala cravada ao chão, apoiado por seu orgulho desfeito, eu sou aquele homem, que sente apertar no peito o amor partido das eras, o florescer de muitas primaveras, o frio de muitos invernos. Ele, tal como eu, viveu a vida como se comete um erro: repentinamente, impensadamente, dolorosa e ardentemente. E tal foram seus olhos ante a vida, como disparates ao vento, raios de sol para as nuvens, céu azul para o firmamento de estanho.
Parado diante do hotel, a angustiosa estação fazendo chuva dentro dele, sente apertar no peito uma dor não mais de saudade, não mais de amor, não mais de vida. A pontada lancinante da morte agora vara seu coração dilacerado pelo tempo. Lentamente, como na luta de facas das Bodas de Sangue, ele cai. Estende a mão para o alto, pedindo perdão, sentindo o frio de todos os invernos. A calçada fria é seu leito. O céu cinzento lhe dá a extrema unção. Sem olhar para trás, já dobrei a esquina, não vendo o velho bandido morrer esquecido naquela rua já deserta, não vendo a minha própria morte, a morte dos meus olhos nos olhos dele.

Fonte: sevicosocial.blogspot.com

terça-feira, 4 de outubro de 2011

2012 - Uma carta do futuro

2012, pensou-se, seria um ano de grandes mudanças. Alguns, místicos, acreditavam na irrupção de uma nova dimensão. Outros, apocalípticos, aguardavam amedrontados o fim do mundo. Outros, otimistas, teriam certeza de que tudo haveria de ser melhor. Porém, 2012 se mostra um ano bastante diferente do que acreditávamos que seria.
O governo ainda é o mesmo. O salário dos políticos continua crescendo muito e o nosso diminuindo demais. Mesmo assim, curiosamente, conseguimos viver, ou, em alguns casos, sobreviver. Ainda existe muita pobreza, muitos tendo só o suficiente para continuar vivos ou nem isso. Continua impressionando como algumas destas pobres pessoas ainda encontram forças para um sorriso. Os ônibus são novos e as passagens as mesmas: sempre caras. Folgo em perceber que, apesar disso, ainda existem pessoas que cedem o lugar para um idoso ou uma mulher grávida. Mais impostos foram criados, e o preço do essencial ainda sobe. Morar nunca foi tão caro, comer nunca pesou tanto no bolso, mas, graças a Deus, ainda há onde morar e o que comer. Existem mais celulares que pessoas. Novas redes sociais foram criadas, melhores que as antigas, e os jovens nunca passaram tanto tempo na frente do computador como agora. Felizmente, existem aqueles que preferem conversar cara a cara, que têm gosto por viver com os pés no chão ao invés de surfar na grande rede. Os carros ainda são movidos a gasolina, e são muitos carros. As ruas estão desordenadas, os engarrafamentos são constantes e muitas pessoas preferem andar de bicicleta ou a pé. Homens amam homens, mulheres amam mulheres, no entanto existem homens que amam as mulheres, e isso foi sempre raro.
Os bancos lucram muito. Existe um shopping a cada três quadras nas principais avenidas. A cada dia aparece um novo carrinho de cachorro quente. Os centros estão abarrotados de gente correndo de seus escritórios. As redes de fast food se deleitam na hora do rush. Os religiosos prevêem o fim. Não se escreve mais “idéia”, e sim “ideia”. Cada vez menos crianças estão indo à escola. Mais e mais protestos são feitos. Muitos ainda choram suas perdas. A criminalidade continua sendo a criminalidade. Os filhos batem nos pais. As mães rezam pelos filhos. As prostitutas ainda têm emprego. Existem cães de rua. Existem meninos de rua. Existem artistas de rua. Os artistas continuam fazendo muito com muito pouco. Há vendedores de revistas estúpidos. Há vendedores de flores simpáticos. Os motéis ainda têm clientes. Instrumentos musicais importados custam o triplo do preço real. As praças ainda têm seus freqüentadores. A noite ainda existe. Os boêmios também, ainda que poucos. A cerveja está cara, entretanto ainda há quem beba. Há casas com jardins enfeitados. Ainda há quem dê a devida atenção ao espírito. Sim, ainda existe amor. E o dia 21 de Dezembro só nos lembrou que faltavam quatro dias para o Natal.
Com meus cumprimentos do futuro, desejo a todos um excelente resto de 2011.

domingo, 24 de abril de 2011

Mar de gente, a certeza da solidão

Ele se divertia. Por fora. Por dentro, era mais uma massa de tédio e melancolia. Festas, confraternizações e afins. Tudo isso deixava o rapaz em depressão profunda, como se a vida se resumisse às gotas de uma bebida etílica e um punhado de gente superficial. Podia ter a nítida certeza de que, se morresse naquele exato instante, ninguém notaria. Ninguém ouviria o grito silencioso de sua alma, ninguém teria compaixão para com seu espírito ferido e jamais teria o amor de ninguém ali.
Tudo estava estático, mesmo em movimento. Nenhuma viva alma sentia ou pensava, eram todos como animais cegos e acéfalos, sem noção do que era ou não era. Deles, apenas ele parecia ciente. Apenas ele se via em pé ante as condições que a vida impunha tão implacavelmente aos seres mortais. "Se tens alegrias, tens muitos amigos. Se tens dores, só estás". Por que, justo agora, aquilo se fazia tão claro?
Mas era inevitável. Onde quer que estivesse, apenas ele sabia daquilo. E se lutasse contra, entendia do jeito mais difícil que era fraco. Não por não conseguir lutar, mas por não saber lidar com a perda, por não saber lidar com o passado e solidão. Em meio a tantas pessoas, tantos amores e desamores, estava só. E seria eterno este sentimento, enquanto estivesse longe dela.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O sonho, ou Devaneio Saramaguiano

Tal sonho ocorreu-me ainda na noite passada, depois de uma leitura profunda e prazerosa de um desses livros do autor português que ganhou já até Prêmio Nobel (admito sem pudor que, graças a isto, descaradamente copiei uma parcela do estilo dele). Certas memórias deste sonho me escapam por entre os dedos, mas não creio que estas sejam de muita importância, uma vez que as partes relevantes não se me fugiram da mente.
Lembro-me, primeiro, de estarmos em uma linda loja de roupas e tecidos, dentro de algo que me pareceu ser um antigo casarão açoriano, com janelas altas e pouco largas que davam vista a uma paisagem que me lembrou Gramado. Era final de tarde. Sabia-me em companhia de Seth, meu amigo de infância, e de Madalena, minha amante, e mais outra pessoa que só me lembro ser uma mulher. Conversávamos animadamente, fazendo piadas e sentindo em nós o calor da juventude. Junto a minha amante, observava os tecidos mais finos, quando se achegou Seth, gracejando-a. Senti neles algo que era mais do que afeição pela amizade em comum, uma espécie de ligação que ia além do interesses. Afastei-me, enquanto eles diziam algo que não ouvi.
Como que por mágica, transportei-me para um lugar de meias-luzes. Não sei era umbral ou zona morta, mas parecia-me uma das avenidas de uma cidade qualquer, onde riscos de luzes multicoloridas, multivelozes, passavam por mim. Certamente, eram carros. O sol já se havia ido. Vagueei por calçadas imaginárias que me fugiam aos pés, transfigurando meu andar em um balé ébrio e incerto, enquanto a noite corria rápida. Minha garganta clamava por eflúvios etílicos, meu ser queria se embriagar, não mais ensaiar o passo do bêbado. Vi-me empunhando um aparelho misterioso, e através dele enviei carta-mensagem para meu velho amigo de infância, que, a esta altura, poderia estar fazendo qualquer coisa com minha amante.
Mais uma vez me desapareci de um cenário para me encontrar em outro. Tive a certeza de estar de volta ao casarão açoriano, mas já não era loja, senão residência. Um telefone tocava (ou alguém que parecia ser a mãe de Seth havia me avisado que me esperava uma ligação, já não sei). Atendi. Falei algo como: “Sou gente do mundo!”. E do lado de lá, a réplica: “Se és gente do mundo, és gente perdida. És despergente!”. Desliguei. De fato, era eu gente perdida, perdido de mim e de meus próprios atos escravo. Lembrei-me de Seth com minha amada Madalena. Sempre que meu amigo deixava uma mulher, valia-me eu desta mesma mulher, afagando-lhe e trepando-lhe feito animal. Era eu um desses homens que anseiam a mulher do amigo. Mas admito sempre ter sentido certa culpa por isto, não suficiente para me impedir de cometer o ato, mas o suficiente para me dar um leve remorso, uma vez que percebia que ele sentia certo ciúme, talvez produto de um resquício de sentimento pela moça em questão. Sob estas circunstâncias, não me sentia mal em imaginar o que Seth poderia estar fazendo com minha mulher, uma vez que, no meu íntimo, pedia a ele que se vingasse de mim, que me tomasse a mulher como várias vezes lhe tomei, e que me esfregasse na cara o fato. Quase que me comprazia com a idéia! Ouvi uma voz que me dizia que havia muito meus amigos perguntaram de mim, preocupados por eu de repente ter me separado do grupo e por causa da carta-mensagem que enviei a Seth.
Desci um lance de escadas que dava acesso a uma espécie de quintal. Muitas árvores, predominantemente pinheiros, cercavam a dita casa açoriana, que agora já ganhava outro aspecto, mais de construção incompleta. Já era quase de manhã, os primeiros sinais de sol apareciam no horizonte. Senti a presença de meu amigo. Corri para me esconder, não por vergonha ou qualquer motivo malfazejo, mas por pura diversão. Vi seu rosto a procurar e procurar, mas sempre despistava o pobre, sem ao menos ter o cuidado de pisar leve, uma vez que, por mistério, meus pés não tocavam o chão. Num dado momento, fiquei deitado atrás de uma escadaria em ruína, que parecia estar ali há milhares de anos. Mais uma vez, Seth não me encontrava. Ouvi sua voz dizer: “Ele conseguiu! Despistou-me!”.
De repente, estávamos na mesma cama, como que brigando de mentira, conversando assuntos que não lembro. Lembro-me apenas ter dito algo como: “Não importa teu esforço, homem, sempre te despistarei!”. Até que ele me disse: “És o demônio.”.
Então acordei.

sábado, 8 de maio de 2010

A Jornada e o Tempo, ou Condição Humana

Tanto caminho e parece que a gente anda em círculos! Este é um dos absurdos da Jornada. Sim, são muitos os poréns dela, mas não escapamos nunca da caminhada. É sempre necessário dar um próximo passo, mesmo que resulte em queda, mesmo que se saiba da possibilidade da queda. Quedar-se imóvel é impossível, de qualquer forma.
Por isto, caminhamos, tanto faz se para frente ou para trás. A Jornada consiste em estarmos sempre em movimento, não importa para onde caminhemos, não importa se retrocedemos, não importa de caímos. Isto porque o Tempo (que exerce sobre nós força inigualável) está sempre andando. Ele fere, degrada, atinge e desfaz muita coisa, mas não pára.
Aprendamos com ele! Por mais que fira, degrade e atinja, o Tempo é o mestre que alimenta teu sangue e sara tuas feridas, e mostra que tudo sempre passa. Ele dá passos curtos e cadenciados, portanto, lentamente tranforma as coisas, e ensina que nossa transformação também é lenta. Chego a acreditar que o Tempo foi um grande sábio encarnado e que agora olha por nós sob a forma do passar das horas, dos dias e dos anos, sempre ensinando que na Jornada se deve andar devagar, e nunca deixar de andar.
Nós, estúpidos e infelizes seres humanos, tememos ambos o Tempo e a Jornada pelo mero fato de, para nós, serem coisas desconhecidas. Está por vir o dia em que teremos de romper com as correntes da nossa ignorância e caminhar sem medo pela estrada do que chamamos vida, sem tentar prever o próximo passo. A Jornada é nebulosa, e não se vê um palmo à nossa frente, porém, se tivermos fé, cada passo será dado com segurança em nosso chão, e entenderemos que o Tempo nos ensinou bem a caminhar devagar.