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sábado, 5 de março de 2016

Gatilho

Você se vê parado frente a um monte de gente. Todo mundo à tua volta espera de você alguma coisa. Coisas deles, expectativas deles, nunca as tuas. Apreciam tua educação, teus modos, teu jeito dócil. Adoram que você aja como esperado, isso os tranquiliza, pois assim eles podem ter certeza de que você não é louco. Ande na linha, e eles te darão, quem sabe, uma pequena recompensa por ser um bom garoto. Mas quando a recompensa dada não mata tua fome, quando teus modos sufocam o grito travado na garganta há décadas, quando ser dócil é uma tortura, te acusam de ingrato, te dizem para fazer terapia, te dizem para ver a vida pelo lado bom.
Você se vê parado diante de toda essa gente, os olhos deles passeando entre você e a arma na tua mão, que você conseguiu tirar do vigia na antessala do banco, e que pende ao lado da tua perna direita. Há tanto medo nesses olhares. Há medo no ar, você sente o cheiro. É sutil, mas te deixa alerta, do mesmo jeito que a cocaína. Na tua frente, um senhor tenta conversar com você, pedindo calma. Sempre aparece um desses. É engraçado como o pavor anula tua capacidade de enxergar certas coisas, como, por exemplo: você nunca deve tentar argumentar com o cara da arma. Ele está apavorado. Você não. Você sabe exatamente o que está fazendo. Você ergue a arma e aponta para a cabeça do homem à tua frente. Você sabe o que está fazendo. Por isso você puxa o gatilho.
Quando cai o primeiro corpo ao chão, as pessoas sabem que perderam o controle da situação. Você vê a súplica impressa nos olhos de todos eles. Eles têm filhos, esposa, marido, irmãos, pai, mãe, cachorro e gato. Eles têm trabalho e uma vida feliz. Eles têm medo que o fluxo constante e entorpecido de suas vidas seja interrompido. Você não. Você só tem a arma agora. Por isso puxa o gatilho de novo. E de novo. E de novo...

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Imolação

Ferido, com o nariz e vários dentes quebrados, um dos olhos fechado por um enorme e inchado hematoma, amarrado a uma cadeira e amordaçado, ele tentava gritar. Estava cego pela ardência nos olhos, causada pela gasolina, despejada sobre ele por seu algoz, do qual ainda não conseguira ver o rosto. Seu corpo todo doía, causando espasmos que só pioravam sua situação.
Risadas. Eram sinistras, vindas do fundo das entranhas, despertadas pelos instintos menos nobres. Entre uma e outra, um tapa numa das faces. O pavor se solidificava cada vez mais durante os momentos de silêncio, que eram gélidos e escuros. Aos poucos, ele pôde abrir os olhos.
A visão turva parecia enganá-lo. Por alguns instantes pensou reconhecer o rosto do homem que se encontrava em pé, logo a sua frente. Pôde divisar um sorriso malicioso em seus lábios, identificar a cor dos seus olhos, o formato do nariz, o corte do cabelo... Uma mão arrancara sua mordaça, e o rosto se aproximou.
Não acreditava no que via. Aquilo era um espelho. Só podia ser um espelho. TINHA QUE SER UM ESPELHO.
O rosto que via era o seu. Sorria com um sadismo que conhecia muito bem, pois era seu próprio sadismo. Não sabia se era pela chama do isqueiro que aquele seu reflexo segurava, mas seus olhos ardiam em fogo. Muito antes do isqueiro cair sobre o combustível, ele, a presa, lançava um grito desumano. Não existia ar nem cordas vocais o suficiente para expressar o pavor. Ele, o algoz, assistia entre gargalhadas enregelantes seu reflexo se consumindo entre as chamas, a destruição de toda a razão, o triunfo do instinto. As chispas, misturadas com as cinzas do corpo ardente, dançavam seu balé sinistro no ar frio. Não brilhavam mais que as brasas nos olhos do assassino que matara a si próprio com tamanha crueldade.