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sábado, 5 de março de 2016

Gatilho

Você se vê parado frente a um monte de gente. Todo mundo à tua volta espera de você alguma coisa. Coisas deles, expectativas deles, nunca as tuas. Apreciam tua educação, teus modos, teu jeito dócil. Adoram que você aja como esperado, isso os tranquiliza, pois assim eles podem ter certeza de que você não é louco. Ande na linha, e eles te darão, quem sabe, uma pequena recompensa por ser um bom garoto. Mas quando a recompensa dada não mata tua fome, quando teus modos sufocam o grito travado na garganta há décadas, quando ser dócil é uma tortura, te acusam de ingrato, te dizem para fazer terapia, te dizem para ver a vida pelo lado bom.
Você se vê parado diante de toda essa gente, os olhos deles passeando entre você e a arma na tua mão, que você conseguiu tirar do vigia na antessala do banco, e que pende ao lado da tua perna direita. Há tanto medo nesses olhares. Há medo no ar, você sente o cheiro. É sutil, mas te deixa alerta, do mesmo jeito que a cocaína. Na tua frente, um senhor tenta conversar com você, pedindo calma. Sempre aparece um desses. É engraçado como o pavor anula tua capacidade de enxergar certas coisas, como, por exemplo: você nunca deve tentar argumentar com o cara da arma. Ele está apavorado. Você não. Você sabe exatamente o que está fazendo. Você ergue a arma e aponta para a cabeça do homem à tua frente. Você sabe o que está fazendo. Por isso você puxa o gatilho.
Quando cai o primeiro corpo ao chão, as pessoas sabem que perderam o controle da situação. Você vê a súplica impressa nos olhos de todos eles. Eles têm filhos, esposa, marido, irmãos, pai, mãe, cachorro e gato. Eles têm trabalho e uma vida feliz. Eles têm medo que o fluxo constante e entorpecido de suas vidas seja interrompido. Você não. Você só tem a arma agora. Por isso puxa o gatilho de novo. E de novo. E de novo...

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Coveiro

Da vez primeira que me assassinaramPerdi um jeito de sorrir que tinha...
Depois de cada vez que me mataram
Foram levando qualquer coisa minha...

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela amarelada...
Como único bem que me ficou!

Vinde corvos, chacais, ladrões de estrada!
Ah! Desta mão avaramente adunca
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!

Mário Quintana - Soneto XVII

Enterrei mais um hoje. Esse teve que ser na chuva mesmo, pois já estava morto havia um tempo, por isso não podia deixar para depois. Era pesado. Estava cheio de mágoas, expectativas, rancores... Difícil de carregar o caixão quando é assim. Pior ainda na lama. Ele atola. As mãos molhadas pela chuva escorregam da alça como se estivessem untadas com manteiga. Não é nenhum alívio quando o caixão cai na cova. Ainda tem um bocado de terra lodacenta para jogar em cima dele. A roupa molhada pesa. Junte isso ao esforço físico, e tudo no trabalho se torna uma penitência. Nesse tipo de trabalho, ajuda é coisa que não existe. Você enterra uns três por dia sozinho, quando não são mais. É assim quando você vai enterrar os seus mortos. Cada cadáver de você é diferente. Você morre cada dia em momentos diferentes, sendo pessoas diferentes. Mesmo quando se é o coveiro de tantos mortos, sua hora chega "impressentida, jamais inesperada". A pergunta que fica é quem vai enterrar o seu cadáver nesse infinito cemitério interior, onde se sepulta tudo o que se foi e o que se queria ser.

Editada pelo autor.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Em cativeiro

De vez em quando vejo a Morte passar pela janela...

Daqui da gaiola, minhas visões são um quarto finamente mobiliado, minuciosamente arrumado, e uma janela que dá para um jacarandá mimoso. A porta se abre às vezes, e por ela passa o homem que me capturou. A ele bastou um punhado de alpiste e uma caixa de papelão. Só isso. E cá estou eu, engaiolado. Antes da gaiola eu voava. E cantava, naturalmente, como os rouxinóis costumam fazer. No dia em que perdi minha liberdade, eu voava longe do ninho, inadvertido dos homens que amam pássaros. E o amor dos homens geralmente aprisiona.
Por isso estou aqui. Esse homem me ama. Por isso me prende, e não parece haver chance de me deixar ir. Ele gosta da minha canção. Ele me acha belo. Ele me quer. Ele diz que me protege, que cuida de mim e que quer meu bem. Diz que vai me deixar longe de qualquer perigo. Ele não pergunta o que quero, porque não entende o que digo, tampouco é capaz de perceber que meu canto desde a gaiola é triste.
E daqui vejo a janela, e depois da janela o jacarandá. Faz alguns dias que floriu. Suas flores de cor transmutadora são o mais próximo de prazer que posso conseguir. Seu perfume sutil acende em mim um desejo que jamais se realizará enquanto houver estas finas barras de aço entre eu e ele. Seria verdadeiramente livre se estivesse pousado a um galho desta árvore.
Mas existem grades. De vez quando vejo a Morte passar pela janela, entre eu, em minha gaiola, e o jacarandá. Ela sorri, acena e dá bom dia. Quando olho para ela, logo penso que sua carícia mortal poderia me dar asas que metal algum aprisionaria. Assim, libertado da gaiola e do corpo, poderia abraçar o jacarandá mimoso com todo amor que guardei durante tanto tempo. Por isso, pergunto a ela, à Morte, quase exasperado, quando ela me vem levar.
Mas, como sua visita é sempre rápida e indefinitiva, ela apenas sorri, vira as costas e some.

Fonte: http://static.panoramio.com/photos/

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Trecho

(...) E por isso, caro leitor, decidi narrar a ti toda minha história. Este fragmento de vida desvairada, vivida como um sopro, é para ti e para todos os que, como eu, não puderam fazer outra coisa senão arder como chama. Meu sangue, coagulando sobre as teclas da Remington 25, já começa a tornar difícil datilografar nesta velha máquina de escrever... A cabeça pesa, meus sentidos estão lentos, mas sigo escrevendo, porque sinto que devo. Maldito é o homem que morre com seus segredos, sem deixá-los em algum lugar onde possam ser encontrados.
Narro, agora, meu estimado leitor, a visão que se desvela ante meus olhos! As paredes de meu velho quarto parecem ter se dissolvido, e agora estou num enorme campo aberto, de um verde vivo. Estou acompanhado apenas da máquina de escrever. E em frente, bem em frente, meu Deus... é enorme, é magnífico, é um frondoso ipê roxo! Está completamente florido, a cor de suas flores vibra em meu olhar. Choro, pois é idêntico ao ipê sob o qual vi Coralina pela primeira vez... E há alguém sob esta árvore agora. Não consigo identificar... Será Cora, minha amada Cora, minha preciosa Coralina de Assis? Se minha visão não estivesse turva pelas lágrimas e pela perda de sangue, talvez pudesse enxergar melhor. Mas só pode ser ela. Quem mais brilharia tanto ao meu olhar, se não ela? Quem mais teria em mim o efeito de todos as drogas mais entorpecentes, se não ela? Quem turva minha visão de lágrimas de amor, se não ela? Preciso chegar mais perto, preciso tocá-la, preciso beijá-la, mas minhas pernas não respondem, meus lábios formigam muito, minha cabeça está tão pesada, muito pesg b  bb 

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Imolação

Ferido, com o nariz e vários dentes quebrados, um dos olhos fechado por um enorme e inchado hematoma, amarrado a uma cadeira e amordaçado, ele tentava gritar. Estava cego pela ardência nos olhos, causada pela gasolina, despejada sobre ele por seu algoz, do qual ainda não conseguira ver o rosto. Seu corpo todo doía, causando espasmos que só pioravam sua situação.
Risadas. Eram sinistras, vindas do fundo das entranhas, despertadas pelos instintos menos nobres. Entre uma e outra, um tapa numa das faces. O pavor se solidificava cada vez mais durante os momentos de silêncio, que eram gélidos e escuros. Aos poucos, ele pôde abrir os olhos.
A visão turva parecia enganá-lo. Por alguns instantes pensou reconhecer o rosto do homem que se encontrava em pé, logo a sua frente. Pôde divisar um sorriso malicioso em seus lábios, identificar a cor dos seus olhos, o formato do nariz, o corte do cabelo... Uma mão arrancara sua mordaça, e o rosto se aproximou.
Não acreditava no que via. Aquilo era um espelho. Só podia ser um espelho. TINHA QUE SER UM ESPELHO.
O rosto que via era o seu. Sorria com um sadismo que conhecia muito bem, pois era seu próprio sadismo. Não sabia se era pela chama do isqueiro que aquele seu reflexo segurava, mas seus olhos ardiam em fogo. Muito antes do isqueiro cair sobre o combustível, ele, a presa, lançava um grito desumano. Não existia ar nem cordas vocais o suficiente para expressar o pavor. Ele, o algoz, assistia entre gargalhadas enregelantes seu reflexo se consumindo entre as chamas, a destruição de toda a razão, o triunfo do instinto. As chispas, misturadas com as cinzas do corpo ardente, dançavam seu balé sinistro no ar frio. Não brilhavam mais que as brasas nos olhos do assassino que matara a si próprio com tamanha crueldade.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O compositor

A angustiosa premonição de sua partida o fazia perder o eixo. 
Cedo ele veria as claves de sol vermelhas ficando menores, cada vez menores, ainda menores... até sumirem. Seus olhos se apertariam até virarem dois riscos em seu rosto, mas ele não conseguiria mais vislumbrar sua canção. Ela o deixaria cedo demais, tarde demais, cruel demais.
Sentia as palavras frias que saiam de sua boca. Nenhuma rima, nenhum amor, nada. Nenhuma linha nova ao piano, nenhum sentimento bom. Queria fingir não notar que sua canção estava cada vez mais calada, sem emoção, mas não conseguia. Os dedos erravam a nota, a voz não saía por conta de um nó na garganta, e tudo mais era estático em seu corpo. O único órgão que se movia era seu coração. Batia num ritmo de marcha-rancho, que por um momento pôde acompanhar ao piano. Uma nota, duas notas, três, dez... A letra saia devagar:

Sossega capitão
A vida corre sem parar
Recua o batalhão
Sem ver o sangue derramar
Com os olhos na amplidão
Espera o Alferes retornar
Mas sabe que se foi
E que jamais vai regressar

Veste luto
Por tua paixão
Verte a lágrima certeira
Que dispara do teu pobre coração

E vinha o nó, a garganta fechava, o coração perdera o compasso. Sua cabeça caia por sobre as teclas emitindo um acorde dissonante e angustiado. Chorava. A canção deixava sua carta de adeus sobre o tampo do instrumento, e saía sem fazer barulho.
A angustiosa premonição de sua partida o tirava do eixo. E sua partida, de fato, deu-o a mais impiedosa das mortes. Agora não cantava. O piano era fantasma. A sala era silêncio. A casa era areia. O mundo, deserto.


quarta-feira, 13 de junho de 2012

O velho bandido

Eu sou aquele velho. Parado ante o hotel, olhos fechados, a mala cheia de arrependimentos numa das mãos. O grisalho dos curtos cabelos se confundindo com o cinza do céu, a tempestuosa estação fazendo trovoada dentro dele. Sou ele. Sou o passado que desfila diante de seus olhos, torturando-o com nostalgias e lembranças que não ressuscitam nem exorcizam fantasmas. Com a bengala cravada ao chão, apoiado por seu orgulho desfeito, eu sou aquele homem, que sente apertar no peito o amor partido das eras, o florescer de muitas primaveras, o frio de muitos invernos. Ele, tal como eu, viveu a vida como se comete um erro: repentinamente, impensadamente, dolorosa e ardentemente. E tal foram seus olhos ante a vida, como disparates ao vento, raios de sol para as nuvens, céu azul para o firmamento de estanho.
Parado diante do hotel, a angustiosa estação fazendo chuva dentro dele, sente apertar no peito uma dor não mais de saudade, não mais de amor, não mais de vida. A pontada lancinante da morte agora vara seu coração dilacerado pelo tempo. Lentamente, como na luta de facas das Bodas de Sangue, ele cai. Estende a mão para o alto, pedindo perdão, sentindo o frio de todos os invernos. A calçada fria é seu leito. O céu cinzento lhe dá a extrema unção. Sem olhar para trás, já dobrei a esquina, não vendo o velho bandido morrer esquecido naquela rua já deserta, não vendo a minha própria morte, a morte dos meus olhos nos olhos dele.

Fonte: sevicosocial.blogspot.com

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Grande Laranjeira

Era sertão. Era deserto. O que era?
Vira-se, repentinamente num lugar árido, cheio de árvores mortas e enegrecidas como se tivessem sido incendiadas há muito. O céu era quase vermelho, o sol parecia se pôr no horizonte. Caminhava desnorteado, como se procurasse algo, sem saber ao certo o que procurava. Como sempre, não sentia o chão embaixo de seus pés. No entanto, ele caminhava com seus pés incertos pela terra devastada, erodida e infértil daquele que parecia ser o âmago do seu espírito. Tinha ciência de sua solidão, e que, uma vez ali, não teria auxílio. Estava à própria sorte dentro dos confins de si próprio.
Lembrou-se. Procurava uma árvore. Uma certa árvore. Até pouco tempo antes, era grande, bela e frondosa. Os passos, ainda incertos, já eram mais ligeiros. Olhava em volta, confusamente, quase desesperado. Foi quando sua solidão fora interrompida por homens estranhos. Vestiam negro, tinha cabelos curtos e negros, e seus olhos eram profunda e opacamente negros. Diziam: "Para trás, te perderás nestas terras áridas". Desencorajavam-no em sua busca pela Grande Laranjeira, que era a sua essência maior, a fonte de todos os seus sonhos e inspirações.
Seguiu impávido. Tinha de encontrá-la. Que seus medos e angústias o devorassem vivo, como leões devoram a caça. Que se perdesse naquela terra infértil. Que seus pés sangrassem pela interminável caminhada.  Que fosse consumido pelo esforço. Não importava, tinha de encontrá-la!
Quando ele finalmente a viu...
A Grande Laranjeira, antes bela e frondosa, era agora uma grande árvore petrificada, sem folhas, sem vida. Andando em volta dela, notou que tinha o seu rosto. A expressão era triste, desolada. Uma gota de seiva escura corria de um de seus olhos, como se fosse uma lágrima silenciosa e cheia de pesar. Os homens estranhos diziam: "Eis tua essência, eis teu ser. Esta árvore está morta.".
Ele caiu de joelhos.
Não... Não...! Era bela... Era frondosa... Era fértil e muito forte... O que aconteceu? Pôs-se em pé fracamente, e abraçou a árvore com sentimentos que se misturavam: medo, pesar, carinho, amor, remorso... Sentiu sua casca petrificada e chorou, pedindo sincero perdão pelo abandono, pela desilusão e pela falta de carinho que proporcionara à planta, que era sua essência, sua inspiração, sua vida.
Sentiu a Grande Laranjeira pulsar. Então, percebeu que, pouco a pouco, muito lentamente, a velha árvore ganhava nova vida. A casca começara a rachar, o rosto que era igual ao seu se desmanchava como uma máscara. Vêem? disse ele aos homens estranhos Está viva!
Das rachaduras irrompiam fachos de luz branca e ofuscante. De repente, a casca de pedra da árvore voou aos pedaços para todos os lados, e no lugar onde antes se encontrava a Grande Laranjeira morta, resplandescia uma gloriosa planta feita de pura luz, que desfez à sua volta toda a paisagem seca e infértil.
E tudo, então, se tornou luz...


sábado, 19 de junho de 2010

Os missionários, ou Providência Divina, ou Em nome de Deus

 Decidi-me por beber um martelinho de cachaça mineira e publicar este conto, mas não sem antes escrever esta nota. Esta é uma história de ficção. Que tirem suas conclusões e ofenda-se quem ofendido se sentir.

 A campainha tocou. Estranhou. Nunca recebia visitas tão cedo na tarde. Olhou pela janela e viu dois jovens parados ao portão. Usavam roupas sociais. Seriam vendedores? Abriu a porta.
- Sim? - falou alto.
- Senhora, boa tarde. - disse o mais baixo, de cabelos pretos e pele branca, um rosto fino. Tinha por volta dos dezoito anos. - Podemos falar?
Ela estranhou, mas se aproximou do portão.
- Pois não... - disse ela, ainda desconfiada.
- Nós somos missionários. Levamos a palavra de Deus em nome de nossa Igreja aos cidadãos. - disse o outro, mais alto, loiro e com o rosto coberto por algumas espinhas. - Poderiamos tomar alguns minutos do seu tempo?
Ela esboçou um meio-sorriso. Jovens missionários. Havia tempos que não ia à Igreja, passava a maior parte do tempo em casa. Era viúva antes dos quarenta anos. Religiosa. Assim como seu falecido marido. Aqueles jovens, tão bem-educados e simpáticos surgiam para ela como um alento para sua dor, vinda de uma ferida ainda não cicatrizada.
- Não estarão tomando meu tempo, queridos. - disse ela, finalmente sorrindo. - Querem entrar?
- Não senhora, por ora estamos de passagem. Mas leremos um trecho da Bíblia aqui mesmo.
Ela assentiu. O missionário mais baixo leu um dos Salmos. Ao fim, disseram:
- Que Deus esteja em vossa casa e que a Benção Divina paire sobre a senhora aonde for.
- Obrigado pela atenção e muito boa tarde.
Se despediram. Foram seguindo a rua em direção à proxima casa.
Passara-se uma semana. A capainha voltou a tocar, no mesmo horário, e lá estavam eles. Os mesmo jovens, com as mesmas roupas sociais. Ela os atendeu no portão.
- Que bom ver vocês de novo. - disse a viúva. - Na semana passada, vocês aqueceram meu coração com a leitura.
- São as palavras de Deus, senhora - disse o loiro. - Elas confortam quem tem ouvidos para o Senhor.
- E hoje, vocês não querem entrar? - disse ela, cordial.
- Não, senhora, não queremos incomodar... - disse o mais baixo.
- Insisto! Tomem um suco, ao menos.
Assentiram. A viúva abriu-lhes o portão da casa. Eles entraram, beberam, comeram e leram a Bíblia. Ficaram lá por meia hora, depois, educamente, agradeceram e se retiraram.
Foi assim por semanas. Com o tempo, não só paravam para fazer um lanche, mas já estavam jantando na casa da viúva depois dos cultos no templo, mais tarde pernoitando e tomando banho em sua casa. Ela os via como dois filhos que nunca tivera com seu falecido marido. Ela era estéril. Por isso, ter aqueles dois rapazes educados e respeitosos em sua casa era um presente de Deus.
Uma noite, quando os dois haviam terminado o jantar e se preparavam para partir, ela os deteve.
- Meninos, não tenham pressa! Fiquem mais um pouco!
- Mas já incomodamos o suficiente, senhora. Não seria delicado de nossa parte...
- Por favor, meninos. Eu insisto.
Assentiram, como sempre.
Sentaram nos sofás da sala. Ela foi ao bar e pegou uma garrafa do melhor vinho que tinha.
- Aceitem. É uma excelente safra.
- Senhora, - disse o rapaz de cabelos pretos - não nos é permitido ingerir álcool. É contra a os princípios da religião.
- Ora, por favor, uma taça não vai fazer de vocês hereges. Aliás, o próprio Jesus Cristo bebeu do vinho do seu povo.
Com este argumento, os rapazes pegaram as taças oferecidas e foram servidos do vinho rubro. Bebericavam comedidamente. A viúva bebeu um longo e gostoso gole. Respirou profunda e sonoramente com a sensação do álcool circulando em suas veias.
- Sabe, eu costumava beber muito com meu marido. - disse ela, o olhar distante e fixo. - Muito, digo eu, uma taça por dia, um costume nosso. Compravamos sempre do melhor. Agora, o que restou está aí, juntando pó. Nunca mais tive vontade de beber deste sangue de Cristo. Mas vocês são tão amáveis que me fizeram abrir uma garrafa! Isso é muito bom.
Tomou outro gole, esvaziando a taça. Em seguida, tornou a enchê-la, até a borda.
Os dois rapazes continuavam com as taças cheias, enquanto a viúva entornava uma após a outra. Ela ria alto, enrolava a língua, tropeçando nas palavras e nos móveis. Num dado momento, caiu no tapete da sala. Rindo ela pediu que os rapazes a ajudassem a levantar.
Ao invés disto, estavam soltando os cintos.
Parou de rir. Abriam as calças. De repente, estavam em cima dela, segurando-a com força, com violência. Ela nem ao menos conseguia reagir, não sabia se por causa do álcool ou do medo. Rasgavam-lhe as roupas, chupavam-lhe os seios fartos com gula repulsiva, tocavam-a estupidamente. Batiam-lhe nas faces com seus membros rijos. Pentravam-a, violavam-lhe o ânus, maculavam-lhe a boca, e não paravam, por Deus, não paravam. Emitiam sons grotescos, salivavam por sobre seu corpo tal animais selvagens, animais humanos. Ela gritava, gemia de desespero. Não paravam... Por Deus, não paravam.
Repentinamente, com um grunhido, cada um deles anúnciou o derradeiro momento. O rapaz mais baixo, de cabelos negros, ejaculou dentro de seu ânus, enquanto o outro sujou-lhe o rosto. O líquido viscoso e quente lhe corria nas faces e para fora de seu orifício. Os dois violentadores, recompondo-se, vestiram as roupas e saíram pela porta, abandonando a vítima. O vinho das taças jazia no chão, como ela própria. Lágrimas e esperma vil machavam-lhe as faces. Não sabia o que sentia. De repente, Deus a abandonara.  Não tinha marido, não tinha filhos, não tinha nada... Estava tão inerte por dentro quanto por fora. Apenas conseguia mover os olhos. Estes encontraram a foto de seu falecido marido. Ele parecia olhar para ela, como que querendo confortá-la, como se a chamasse...
Num impulso, ela pegou a garrafa de vinho, quebrou-a fazendo cacos voarem por toda a sala, e, com esta ainda na mão, cravou-lhe a extremidade pontiguada e fatal na garganta, exatamente como fizera seu marido, com quem se juntava neste momento. O tinto do sangue mesclava-se ao tinto do sangue de Cristo, enquanto ela jazia eternamente inerte.
 

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Os olhos do corvo

Aquilo acima deles não é céu. Aquilo embaixo deles não é terra. Essa gente ensandescida morre pouco a pouco, de frio ou de calor, de fome ou de gula, de amor ou de ódio. O ser humano é triste, engraçado, infantil... Não consigo ver neles nada além de carne semi-morta desfilando sobre esta massa de concreto e piche. Carcaças. Só o que são.
A primeira parte que gosto de comer-lhes é os olhos. Gosto de sentir o globo ocular estourando, vertendo seu nectar sangrento... Cuspo o cristalino. Praticamente tudo no ser humano tem uma parcela não aproveitável. Não só na sua carne, mas no seu espírito. Parece-me que a eles é agradável juntar inutilidades. A maior parte do tempo, gasto cuspindo fora partes que de nada servem, principalmente na alma desses macacos sem pêlos. Por isso, prefiro devorar as crianças. Elas tem cartilagens mais moles, assim como um espírito mais flexível, tenro, fácil de digerir.
É estranho vê-los inertes, apodrecendo. Passam a vida correndo, para depois acabar dentro dum caixão, ou atirados em qualquer lugar, esquecidos. No segundo caso, é quando ajo. Faço-lhes o favor de aproveitar o que nunca aproveitaram. Como-lhes a carne. Como-lhes a alma. Encontro meu prazer no passamento. Meu alimento. Minha vida na morte deles.


quinta-feira, 18 de março de 2010

Fugere urben

Foje à minha visão o espírito da cidade. O gato branco passeia sob minha mesa. Morte e vida portoalegrenses baixam sobre minha cabeça, e o frio do inverno sussurra em meus ouvidos. Carcaças desfilam pela Praça XV, enquanto o sol desaba vagarosamente pelo firmamento. É a tarde cosmopolita, a metrópole cega-surda-muda, insône e febril sobre seu leito frio à beira do rio. É o delírio desperto de uma urbe sitiada. É o fim do espasmo antes do coma. É a altivez do concreto e a baixeza do sutil. É a prevalência da carne. É o maldizer daqueles que não têm e dos que têm e não dão. É o aluguel do recém-nascido. É o lamento das antenas. São pernas, seios e quadris sem corpo. É a nudez velada dos crimes e pecados do povo. É, por fim, aquilo que passa pelos olhos num lampejo...

segunda-feira, 1 de março de 2010

Pena de morte, ou O suicídio.

O pensamento inexistia. O ar era sólido e frio como granizo. Ao longe, os prédios se erguiam em seus alicerces. A cidade ainda dormia. Ele, do alto daquele edifício, contemplava a imensidão, só como um oasis. Escura era sua vida. Tolo era seu pensar, que agora, sumia com o carro que dobrava a esquina. Ele era só. Ele era sólido. Ele era frio.
Parou-se à beira de seu cadafalso. Sabia que havia errado. Sabia que era culpado. E sabia que sua condenação era mais do que justa. Já não tinha direito a felicidade. Sabia que muitas vidas se perderiam em seus braços e que era perigosamente tolo. Sabia que era mentiroso e sedutor. Tinha consciência de seus crimes mais hediondos, agora mais do que nunca.
Mais uma vez fitou a cidade. Era uma despedida. Era um último olhar de um condenado ao povo que o condena. Uma lágrima boba e silenciosa brotou-lhe dos olhos. Ele se fez sol quando o sol se ergueu. Ele se fez vento quando o vento soprou. Ele se fez livre. Abriu o vão de seu próprio cadafalso. Sentiu o ar gelado mais leve e fluído, flutuando pelo ar como pássaro. Sentiu, por um breve e agoniado instante, o alívio dos aflitos.
Tocou o chão violentamente. Sentia dor e desespero. Inerte, patético, fitou a única coisa que podia fitar naquele momento: o céu. Azul e cruel, parecia olhar de volta. Mais uma lágrima se fez cair de seus olhos. Aquilo que ele mais queria estava ali, logo ali, acima dele, mas sabia que, ali embaixo, tão baixo, jamais seria capaz de alcançar o céu...

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

E agora?

"Esta verdade trespassa meus olhos esbugalhados..."
"Acordo. Levanto. Fico sentado em minha cama. E agora? Ah, agora é um pé após o outro em direção ao banheiro. Tiro uma água do joelho, tomo um banho, me visto. E agora? Um pé após o outro, desta vez em direção à cozinha. Preparo um café, largo fritura em um pão francês. Parto. E agora? Pra onde? Pé ante pé, depressa para não perder a condução. Trabalho. Almoço. E agora? Mais trabalho. É meu ganha pão, minha condição, minha vida. Sem isto não faço nada. E agora? Final de expediente. Hora de ir embora. Não sou José, mas pra onde? E agora? Era pé ante pé, não era? Sinto-me tonto. Chego em casa... E agora? Abro a porta, dou de cara com a bagunça habitual, sento-me... Abro uma garrafa de whisky, ninguém é de ferro. O etílico elixir inebria cada célula. Fico dormente. E agora? Mais whisky. Vejo que não vivi nada o dia todo. É noite. Acendo um cigarro. A fumaça dança preguiçosa no ar, meus suspiros se escondem no monóxido de carbono, meus olhos piscam entorpecidos. Nenhuma lágrima. Só o vazio. É noite. A sala só é iluminada pelas luzes lá de fora. E agora? Que interrogação persistente. Levanto-me. Tropeço. Sinto o choque cruel de minha cabeça contra a quina da mesa de centro. Sangue... E, de repente, fica tudo claro. E agora? Como vou trabalhar? O que vão dizer aos meus parentes? E meus amigos? Eu queria ser alguém, mas não tinha vida. Que interrogação persistente. E agora? Isso tudo que fiz até hoje me tirou a vida..."
"Esta verdade trespassa meus olhos esbugalhados..."
"Mas eu tinha vida..."
"E agora...?"