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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Pata-de-vaca

As flores são os ouvidos das árvores. No outono, ficam surdas. Na primavera, ouvem segredos. Se bem que, pelo menos nesta imensa cidade, as patas-de-vaca dão suas flores no final do inverno. Os parques ganham um belo tom de rosa graças aos belos ouvidos que estas árvores têm.
Nos meus caminhos, sempre encontro pelo menos uma delas. Uma em especial é uma amiga muito próxima, para a qual sussurro segredos. Muito ela já sentiu meus abraços, a chorar meu coração ferido, e para ela balbuciei entre soluços o nome de minha amada. Ela, impassível, fria e rígida, sempre esticou suas orelhas cor-de-rosa para bem me escutar. E sempre que peço para que ela leve em segredo o meu amor para a mulher distante, chama uma brisa leve, que é o sopro de sua voz, que é o farfalhar de suas folhas. E todas, todas as árvores do mundo dizem aos ouvidos de minha amada:
- Ele mandou dizer: "meu coração é teu".


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Preto, branco e vermelho

Ele, que já andava havia algumas horas pela cidade, percebera finalmente que estava sonhando. Passava por multidões que se deslocavam como gado, num ritmo comum às metrópoles. Escurecia rapidamente, a noite anunciando sua chegada a cada minuto. Caminhava ao encontro de alguma coisa que não sabia bem o que era, mas tinha certeza de que iria encontrar.
Passou por uma galeria mal iluminada, por uma janela interna uma luz vermelha piscava, refletindo nos ladrilhos brancos do corredor. O ar denunciava a idade do prédio, o eco das passos criava uma atmosfera densa. Notou estar só, porém outro som de passos veio se somar ao seu, vindo da frente, de não muito longe. Escutava com atenção. Eram sapatos de salto. Era uma mulher, caminhava devagar. Apareceria na curva a qualquer instante. Os passos ficavam mais próximos. Sabia sem saber de sua presença sólida e invisível como o ar.
Quando seus cabelos bicolores surgiram, as imagens pareciam ganhar outra forma, a galeria estava viva. O negro e louro de seus cabelos confundiam os olhos e a alma, os olhos eram grandes imãs escuros embaixo das sobrancelhas nem grossas nem finas, no rosto redondo o meio-sorriso moldando aterradoramente os lábios desenhados a traço fino. A pele ficava fantasmagoricamente branca e depois vermelha, branca e depois vermelha, piscava a luz lá fora. As formas do corpo parcamente escondidas debaixo dos panos negros que o cobriam (e tudo) eram presentes e indubitáveis.
As palavras saiam da boca da musa sem forma, mas coloridas como o céu do fim de tarde. Ele não entendia, mas compreendia. A luz vermelha piscava, piscava, piscava lá fora. Ele só ouvia musica, sem saber o que esperar dela, do sonho, da vida. Dela queria tudo. Dela queria nada. A paz inquieta do momento preenchia seu coração. Ambos estavam cientes de que se possuíam sem pertencer um ao outro. Ele olhava para baixo, admirando a grandeza dela. Ela olhava para cima percebendo a fragilidade dele. Estariam juntos e separados para sempre. Era a dor e o gozo do momento. Atormentava e apaziguava numa deliciosa confusão. Tocavam-se com os olhos. Tocavam-se com todo seu sentimento.
Não precisavam se abraçar. Não precisavam tocar os lábios. Não precisavam de nada. Era só ali que as coisas faziam algum sentido. Acordar seria o fim de toda a vida. Agarravam-se desesperadamente ao momento. Vermelho, branco, preto. Vermelho, branco, preto. Vemelho, branco...
Acordar seria o fim de toda a vida. E foi.



domingo, 3 de abril de 2011

Chama, ou Big Bang

Um homem do povoado de Neguá, no litoral da Colômbia, pôde subir no alto do céu e na volto contou: disse que havia contemplado, desde lá de cima a vida humana. E disse que somos um mar de foguinhos. O mundo é isso, revelou: um monte de gente, um mar de foguinhos. Não existem dois fogos iguais. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Existem fogos grandes e fogos pequenos,  e fogos de todas as cores. Há gente de fogo sereno, que nem fica sabendo do vento. E há gente de fogo louco, que enche o ar de faíscas. Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam. Mas outros... Outros ardem a vida com tanta vontade que não se pode olhá-los sem pestanejar, e quem se aproxima se incendeia.
(Eduardo Galeano)

Eles eram o Big Bang entre a gente que brilha sem vontade. Entregavam-se um ao outro com tamanha devoção e com tamanho desejo que todas as gentes, mesmo as de olhos opacos ou vazios, sentiam o calor daquele momento, ouviam seus corpos a conversar sem palavras, viam o brilho de beleza e fervor que os dois, juntos, produziam. Seus suores eram o mar. Seus olhos, diamantes. Suas peles, brasas. Seus cabelos se entrelaçavam como galhos de árvores numa mata virgem. Seus beijos lançavam no ar aromas, cores e música. Se abraçavam com tanta força que quase sentiam seus corpos a se fundirem numa única grande chama, a arder ofuscantemente num ponto esquecido do mundo, longe, mas tão perto. Ali, perto. Seu orgasmo era o eco dos ecos, o brilho de todas as estrelas, o calor de todas as chamas. E seu sono era o total silêncio, a noite mais clara, o brisa mais branda. Para depois começar tudo outra vez, naquele sofá de casa de campo...
Eles eram o Big Bang.

sábado, 8 de maio de 2010

A Jornada e o Tempo, ou Condição Humana

Tanto caminho e parece que a gente anda em círculos! Este é um dos absurdos da Jornada. Sim, são muitos os poréns dela, mas não escapamos nunca da caminhada. É sempre necessário dar um próximo passo, mesmo que resulte em queda, mesmo que se saiba da possibilidade da queda. Quedar-se imóvel é impossível, de qualquer forma.
Por isto, caminhamos, tanto faz se para frente ou para trás. A Jornada consiste em estarmos sempre em movimento, não importa para onde caminhemos, não importa se retrocedemos, não importa de caímos. Isto porque o Tempo (que exerce sobre nós força inigualável) está sempre andando. Ele fere, degrada, atinge e desfaz muita coisa, mas não pára.
Aprendamos com ele! Por mais que fira, degrade e atinja, o Tempo é o mestre que alimenta teu sangue e sara tuas feridas, e mostra que tudo sempre passa. Ele dá passos curtos e cadenciados, portanto, lentamente tranforma as coisas, e ensina que nossa transformação também é lenta. Chego a acreditar que o Tempo foi um grande sábio encarnado e que agora olha por nós sob a forma do passar das horas, dos dias e dos anos, sempre ensinando que na Jornada se deve andar devagar, e nunca deixar de andar.
Nós, estúpidos e infelizes seres humanos, tememos ambos o Tempo e a Jornada pelo mero fato de, para nós, serem coisas desconhecidas. Está por vir o dia em que teremos de romper com as correntes da nossa ignorância e caminhar sem medo pela estrada do que chamamos vida, sem tentar prever o próximo passo. A Jornada é nebulosa, e não se vê um palmo à nossa frente, porém, se tivermos fé, cada passo será dado com segurança em nosso chão, e entenderemos que o Tempo nos ensinou bem a caminhar devagar.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Pena de morte, ou O suicídio.

O pensamento inexistia. O ar era sólido e frio como granizo. Ao longe, os prédios se erguiam em seus alicerces. A cidade ainda dormia. Ele, do alto daquele edifício, contemplava a imensidão, só como um oasis. Escura era sua vida. Tolo era seu pensar, que agora, sumia com o carro que dobrava a esquina. Ele era só. Ele era sólido. Ele era frio.
Parou-se à beira de seu cadafalso. Sabia que havia errado. Sabia que era culpado. E sabia que sua condenação era mais do que justa. Já não tinha direito a felicidade. Sabia que muitas vidas se perderiam em seus braços e que era perigosamente tolo. Sabia que era mentiroso e sedutor. Tinha consciência de seus crimes mais hediondos, agora mais do que nunca.
Mais uma vez fitou a cidade. Era uma despedida. Era um último olhar de um condenado ao povo que o condena. Uma lágrima boba e silenciosa brotou-lhe dos olhos. Ele se fez sol quando o sol se ergueu. Ele se fez vento quando o vento soprou. Ele se fez livre. Abriu o vão de seu próprio cadafalso. Sentiu o ar gelado mais leve e fluído, flutuando pelo ar como pássaro. Sentiu, por um breve e agoniado instante, o alívio dos aflitos.
Tocou o chão violentamente. Sentia dor e desespero. Inerte, patético, fitou a única coisa que podia fitar naquele momento: o céu. Azul e cruel, parecia olhar de volta. Mais uma lágrima se fez cair de seus olhos. Aquilo que ele mais queria estava ali, logo ali, acima dele, mas sabia que, ali embaixo, tão baixo, jamais seria capaz de alcançar o céu...

sábado, 21 de novembro de 2009

Dois cafés e um bocado de paz

Dois cafés e um bocado de paz. Era tudo o que necessitava naquele momento. Um pouco de inércia, de letargia, para escapar, por um momento, da estranha e difícil realidade. A realidade do amor. Dois cafés e um pouco de paz, de ócio. Aquele mendigo viciado em crack pragueja, grita imprecações e aponta o dedo para a televisão do boteco de ruela. Sim, também o mendigo era distração. Tudo para aquele pobre homem derrotado era necessário para esquecer: a televisão, o mendigo, os cafés, a paz, o ócio... Tentava manter-se alheio a qualquer coisa que fizesse lembrar de ontem; o tarô, a discussão, as lágrimas, a tensão no ambiente de trabalho, a competição ferrenha entre duas mulheres por causa dele, meu Deus, por causa dele!, justo ele, pobre-diabo que não tinha onde cair morto. Tentava entender que encanto ele exercia sobre aquela duas, em específico, uma tão séria e competente, porém tão meiga; outra tão inconsequente e aluada, tentadora, mas ao mesmo tempo repulsiva. Talvez ele entendesse o fascínio da segunda, mas a primeira, tão mais perfeita, era um mistério por que se apaixonara por ele.
Para tentar esquecer tudo isto, dois cafés e um bocado de paz. Precisava ficar acordado, mesmo que quisesse dormir e sonhar com um belo teatro mágico, onde poderia ser e fazer o que bem entendesse e necessitasse. Mas não podia dormir, nem escapar da realidade atormentadora que o cercava. Era solução ignorá-la. Dois cafés pretos fortes e bem doces, para tentar acordar do pesadelo. Ouvia as notícias da manhã na televisão, e discutia-as com o dono do bar. Talvez agir como uma pessoa normal ajudasse. Mas não ajudava. Só piorava a situação daquele lobo intrépido, pois sabia que, dia após dia, se tornava mais escravo de suas emoções. Mais e mais afundava no próprio mar de lágrima e autopiedade que ele encheu sozinho. Que se afogue na própria burrice.