Mostrando postagens com marcador aroma. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador aroma. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Pata-de-vaca

As flores são os ouvidos das árvores. No outono, ficam surdas. Na primavera, ouvem segredos. Se bem que, pelo menos nesta imensa cidade, as patas-de-vaca dão suas flores no final do inverno. Os parques ganham um belo tom de rosa graças aos belos ouvidos que estas árvores têm.
Nos meus caminhos, sempre encontro pelo menos uma delas. Uma em especial é uma amiga muito próxima, para a qual sussurro segredos. Muito ela já sentiu meus abraços, a chorar meu coração ferido, e para ela balbuciei entre soluços o nome de minha amada. Ela, impassível, fria e rígida, sempre esticou suas orelhas cor-de-rosa para bem me escutar. E sempre que peço para que ela leve em segredo o meu amor para a mulher distante, chama uma brisa leve, que é o sopro de sua voz, que é o farfalhar de suas folhas. E todas, todas as árvores do mundo dizem aos ouvidos de minha amada:
- Ele mandou dizer: "meu coração é teu".


domingo, 3 de abril de 2011

Chama, ou Big Bang

Um homem do povoado de Neguá, no litoral da Colômbia, pôde subir no alto do céu e na volto contou: disse que havia contemplado, desde lá de cima a vida humana. E disse que somos um mar de foguinhos. O mundo é isso, revelou: um monte de gente, um mar de foguinhos. Não existem dois fogos iguais. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Existem fogos grandes e fogos pequenos,  e fogos de todas as cores. Há gente de fogo sereno, que nem fica sabendo do vento. E há gente de fogo louco, que enche o ar de faíscas. Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam. Mas outros... Outros ardem a vida com tanta vontade que não se pode olhá-los sem pestanejar, e quem se aproxima se incendeia.
(Eduardo Galeano)

Eles eram o Big Bang entre a gente que brilha sem vontade. Entregavam-se um ao outro com tamanha devoção e com tamanho desejo que todas as gentes, mesmo as de olhos opacos ou vazios, sentiam o calor daquele momento, ouviam seus corpos a conversar sem palavras, viam o brilho de beleza e fervor que os dois, juntos, produziam. Seus suores eram o mar. Seus olhos, diamantes. Suas peles, brasas. Seus cabelos se entrelaçavam como galhos de árvores numa mata virgem. Seus beijos lançavam no ar aromas, cores e música. Se abraçavam com tanta força que quase sentiam seus corpos a se fundirem numa única grande chama, a arder ofuscantemente num ponto esquecido do mundo, longe, mas tão perto. Ali, perto. Seu orgasmo era o eco dos ecos, o brilho de todas as estrelas, o calor de todas as chamas. E seu sono era o total silêncio, a noite mais clara, o brisa mais branda. Para depois começar tudo outra vez, naquele sofá de casa de campo...
Eles eram o Big Bang.

terça-feira, 22 de junho de 2010

A manhã posterior, ou A angústia de Silvana

Era incrível como o cheiro dele insisitia em sua blusa.
Um abraço. Só isso. Os dois compartilharam não mais que um momento de calor humano. Nada mais. O que era aquilo? Amor? Admiração? Curiosidade? Que homem estranho e intrigante era aquele, que por uma noite esteve em sua cama, sem sequer ter tido com ela um momento de fervor? Vira seus olhos tristes, sua boca pequena, não obstante em nenhum momento fechara aqueles olhos, em nenhum momento beijara aquela boca.
Uma noite e uma madrugada em claro foi o que compartilharam. Conversas sobre o nada, ou sobre o tudo, ou sobre tudo ou nada. Pareciam discutir os segredos do Universo com palavras simples, ou mesmo desvendar os mistérios da alma em uma frase. Vez por outra, externizavam mágoas. Ele cerrava deliciosamente os olhos. Vira-o dormir, e, por uns instantes, observara-o em seus misteriosos sonhos, antes de adormecer ela própria.
Fora acordada por sua voz se despedindo, e por sua boca dando-lhe um beijo carinhoso no rosto. Em seguida, adormecera novamente. Quando acordara definitivamente, ouvindo a algazarra da metrópole ensandescida, horas mais tarde, dera falta dele. Aquelas doces palavras, aquele delicado beijo não haviam sido um sonho. Houvera sido a triste realidade que ele se fora. Sentiu um vazio gélido no peito. Como? Como era possível, em uma noite, sem ao menos ter de fato se entregado, ser tão pertencente àquele homem? O que fizera ele? Por que já era tão difícil a idéia de dormir sem seu calor?
Levantou da cama, pesada e tristemente. Arrependia-se de não ter dado ao fidalgo que a abandonara ao menos uma parcela de seu amor. Aquilo já pesava sobre ela como um fardo velho e gasto. Caminhara sobre o quarto, sentindo a presença inquietante dele, procurando em cada vão um vestígio de sua sombra. Não encontrava. Sentou-se na cama, inconformada como criança. Viu no chão, próximo ao pé da cama, sua blusa verde. Tomou-a em mãos e a abraçou como se abraçasse aquele homem. Numa surpresa, sentira o aroma de seu perfume. Olhou em direção a porta.
Ninguém. O cheiro não vinha dali.
Era incrível como o cheiro dele insistia em sua blusa.