Mostrando postagens com marcador passado. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador passado. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de dezembro de 2013

Futuro

Saí cedo do Bairro da Imaculada, levando o violão e o caderno de poemas, para ir ao encontro de um passado fantasmal que persiste e não quer morrer, mas que, em verdade, não mais me incomoda. A cidade ainda dormia, e poucos pássaros madrugadores saíam de seus ninhos para a luta cotidiana. Os carros e ônibus se arrastavam sonolentos pelo asfalto, por entre prédios e árvores esparsas, e num desses dragões de chão e metal eu subi.
Devagar como a condução, eu divagava. Meus pensamentos passavam como passava a paisagem na janela, tão cinzas quanto. A neblina turvava os olhos e o coração, e tudo era estática melancolia fora e dentro de mim. Sim, querida, estava pensando em ti. E tenho pensado desde então. Tenho pensado na tua ausência e na falta que me faz teu riso frouxo. Tenho pensado no vazio que minha casa e meu coração apresentam desde que te fostes.
Desde aquele dia penso nisso. Dentro daquele ônibus, notei com tristeza que esquecia as formas do teu rosto. Esquecia a cor dos teus olhos. Esquecia a linha do teu sorriso. Esquecia, Deus meu!, da textura dos teus lábios que me salvaram da sede eterna inúmeras vezes. Estive triste, pois tu me fugias de todo, por inteira, nem na minha lembrança ficavas. Em vários instantes meus olhos ensaiaram lágrimas durante meu trajeto, mas não pude deixar uma gota de tristeza cair para não me expor ao ridículo de chorar ante as gentes que nada sabem do amor e da vida, não como tu ou eu sempre soubemos, e juntos pudemos comprovar o quanto.
E foi assim que, sentado no lado esquerdo do ônibus, como quem está sentado a esquerda de Deus, alheio a mim mesmo e mergulhado no vazio das lamúrias, assim pude ter um vislumbre do futuro.
Entravas pela porta daquele monstro de ferro com a graça dos anjos que sempre tivestes. Estavas linda e - Dio santo - velha! No mínimo, tinhas lá tua meia-idade. No entanto pude constatar, com um sorriso imenso nos lábios e no peito, que tua graça nada diminuíra; que teus olhos conservavam o mesmo brilho solar da mocidade; que aquele teu jeito de olhar para os lados como quem procura algo, como quem suspeita de algo nunca mudara; que a cor da tua pele era a mesma transição do alvo para o escuro; que teus cabelos ainda dançavam balé em volta dos teus ombros.
Mas estavas velha. E apesar do brilho intenso nos olhos, o olhar era mais triste. O rosto se encontrava sofrido do tempo e das dores de viver, mostrando uma expressão tipicamente preocupada, a expressão dos nossos pais. O corpo denunciava as formas da juventude, mas não mais as possuía com a mesma firmeza e o mesmo frescor. Já ganhavas teus ares de fruta madura, um jeito mais duro de se portar, uma maneira melancólica e nostálgica de ver a vida.
No entanto, estavas magnífica.
O ônibus chegava ao meu destino. Levantei-me e pude contemplar de perto a face do futuro. Dei-lhe bom dia e disse:
- Estou feliz de saber que ainda existes, e que existes tão bela quanto sempre fostes.
O futuro, que era tu, fitou-me nos olhos e não me reconheceu. Sorri. Não podia ser diferente, e ao mesmo tempo era inverossímil aquele olhar de interrogação, de quem não reconhece a própria alma. Sorri, pois pude, naquele momento, confundir presente e futuro, transfigurar a realidade, notar um mar de possibilidades que se abre bravio e inexplorado, e desde aquele dia foi neste mar que me pus a navegar.


terça-feira, 12 de novembro de 2013

Trecho

(...) E por isso, caro leitor, decidi narrar a ti toda minha história. Este fragmento de vida desvairada, vivida como um sopro, é para ti e para todos os que, como eu, não puderam fazer outra coisa senão arder como chama. Meu sangue, coagulando sobre as teclas da Remington 25, já começa a tornar difícil datilografar nesta velha máquina de escrever... A cabeça pesa, meus sentidos estão lentos, mas sigo escrevendo, porque sinto que devo. Maldito é o homem que morre com seus segredos, sem deixá-los em algum lugar onde possam ser encontrados.
Narro, agora, meu estimado leitor, a visão que se desvela ante meus olhos! As paredes de meu velho quarto parecem ter se dissolvido, e agora estou num enorme campo aberto, de um verde vivo. Estou acompanhado apenas da máquina de escrever. E em frente, bem em frente, meu Deus... é enorme, é magnífico, é um frondoso ipê roxo! Está completamente florido, a cor de suas flores vibra em meu olhar. Choro, pois é idêntico ao ipê sob o qual vi Coralina pela primeira vez... E há alguém sob esta árvore agora. Não consigo identificar... Será Cora, minha amada Cora, minha preciosa Coralina de Assis? Se minha visão não estivesse turva pelas lágrimas e pela perda de sangue, talvez pudesse enxergar melhor. Mas só pode ser ela. Quem mais brilharia tanto ao meu olhar, se não ela? Quem mais teria em mim o efeito de todos as drogas mais entorpecentes, se não ela? Quem turva minha visão de lágrimas de amor, se não ela? Preciso chegar mais perto, preciso tocá-la, preciso beijá-la, mas minhas pernas não respondem, meus lábios formigam muito, minha cabeça está tão pesada, muito pesg b  bb 

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O velho bandido

Eu sou aquele velho. Parado ante o hotel, olhos fechados, a mala cheia de arrependimentos numa das mãos. O grisalho dos curtos cabelos se confundindo com o cinza do céu, a tempestuosa estação fazendo trovoada dentro dele. Sou ele. Sou o passado que desfila diante de seus olhos, torturando-o com nostalgias e lembranças que não ressuscitam nem exorcizam fantasmas. Com a bengala cravada ao chão, apoiado por seu orgulho desfeito, eu sou aquele homem, que sente apertar no peito o amor partido das eras, o florescer de muitas primaveras, o frio de muitos invernos. Ele, tal como eu, viveu a vida como se comete um erro: repentinamente, impensadamente, dolorosa e ardentemente. E tal foram seus olhos ante a vida, como disparates ao vento, raios de sol para as nuvens, céu azul para o firmamento de estanho.
Parado diante do hotel, a angustiosa estação fazendo chuva dentro dele, sente apertar no peito uma dor não mais de saudade, não mais de amor, não mais de vida. A pontada lancinante da morte agora vara seu coração dilacerado pelo tempo. Lentamente, como na luta de facas das Bodas de Sangue, ele cai. Estende a mão para o alto, pedindo perdão, sentindo o frio de todos os invernos. A calçada fria é seu leito. O céu cinzento lhe dá a extrema unção. Sem olhar para trás, já dobrei a esquina, não vendo o velho bandido morrer esquecido naquela rua já deserta, não vendo a minha própria morte, a morte dos meus olhos nos olhos dele.

Fonte: sevicosocial.blogspot.com

terça-feira, 4 de outubro de 2011

2012 - Uma carta do futuro

2012, pensou-se, seria um ano de grandes mudanças. Alguns, místicos, acreditavam na irrupção de uma nova dimensão. Outros, apocalípticos, aguardavam amedrontados o fim do mundo. Outros, otimistas, teriam certeza de que tudo haveria de ser melhor. Porém, 2012 se mostra um ano bastante diferente do que acreditávamos que seria.
O governo ainda é o mesmo. O salário dos políticos continua crescendo muito e o nosso diminuindo demais. Mesmo assim, curiosamente, conseguimos viver, ou, em alguns casos, sobreviver. Ainda existe muita pobreza, muitos tendo só o suficiente para continuar vivos ou nem isso. Continua impressionando como algumas destas pobres pessoas ainda encontram forças para um sorriso. Os ônibus são novos e as passagens as mesmas: sempre caras. Folgo em perceber que, apesar disso, ainda existem pessoas que cedem o lugar para um idoso ou uma mulher grávida. Mais impostos foram criados, e o preço do essencial ainda sobe. Morar nunca foi tão caro, comer nunca pesou tanto no bolso, mas, graças a Deus, ainda há onde morar e o que comer. Existem mais celulares que pessoas. Novas redes sociais foram criadas, melhores que as antigas, e os jovens nunca passaram tanto tempo na frente do computador como agora. Felizmente, existem aqueles que preferem conversar cara a cara, que têm gosto por viver com os pés no chão ao invés de surfar na grande rede. Os carros ainda são movidos a gasolina, e são muitos carros. As ruas estão desordenadas, os engarrafamentos são constantes e muitas pessoas preferem andar de bicicleta ou a pé. Homens amam homens, mulheres amam mulheres, no entanto existem homens que amam as mulheres, e isso foi sempre raro.
Os bancos lucram muito. Existe um shopping a cada três quadras nas principais avenidas. A cada dia aparece um novo carrinho de cachorro quente. Os centros estão abarrotados de gente correndo de seus escritórios. As redes de fast food se deleitam na hora do rush. Os religiosos prevêem o fim. Não se escreve mais “idéia”, e sim “ideia”. Cada vez menos crianças estão indo à escola. Mais e mais protestos são feitos. Muitos ainda choram suas perdas. A criminalidade continua sendo a criminalidade. Os filhos batem nos pais. As mães rezam pelos filhos. As prostitutas ainda têm emprego. Existem cães de rua. Existem meninos de rua. Existem artistas de rua. Os artistas continuam fazendo muito com muito pouco. Há vendedores de revistas estúpidos. Há vendedores de flores simpáticos. Os motéis ainda têm clientes. Instrumentos musicais importados custam o triplo do preço real. As praças ainda têm seus freqüentadores. A noite ainda existe. Os boêmios também, ainda que poucos. A cerveja está cara, entretanto ainda há quem beba. Há casas com jardins enfeitados. Ainda há quem dê a devida atenção ao espírito. Sim, ainda existe amor. E o dia 21 de Dezembro só nos lembrou que faltavam quatro dias para o Natal.
Com meus cumprimentos do futuro, desejo a todos um excelente resto de 2011.