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terça-feira, 12 de novembro de 2013

Trecho

(...) E por isso, caro leitor, decidi narrar a ti toda minha história. Este fragmento de vida desvairada, vivida como um sopro, é para ti e para todos os que, como eu, não puderam fazer outra coisa senão arder como chama. Meu sangue, coagulando sobre as teclas da Remington 25, já começa a tornar difícil datilografar nesta velha máquina de escrever... A cabeça pesa, meus sentidos estão lentos, mas sigo escrevendo, porque sinto que devo. Maldito é o homem que morre com seus segredos, sem deixá-los em algum lugar onde possam ser encontrados.
Narro, agora, meu estimado leitor, a visão que se desvela ante meus olhos! As paredes de meu velho quarto parecem ter se dissolvido, e agora estou num enorme campo aberto, de um verde vivo. Estou acompanhado apenas da máquina de escrever. E em frente, bem em frente, meu Deus... é enorme, é magnífico, é um frondoso ipê roxo! Está completamente florido, a cor de suas flores vibra em meu olhar. Choro, pois é idêntico ao ipê sob o qual vi Coralina pela primeira vez... E há alguém sob esta árvore agora. Não consigo identificar... Será Cora, minha amada Cora, minha preciosa Coralina de Assis? Se minha visão não estivesse turva pelas lágrimas e pela perda de sangue, talvez pudesse enxergar melhor. Mas só pode ser ela. Quem mais brilharia tanto ao meu olhar, se não ela? Quem mais teria em mim o efeito de todos as drogas mais entorpecentes, se não ela? Quem turva minha visão de lágrimas de amor, se não ela? Preciso chegar mais perto, preciso tocá-la, preciso beijá-la, mas minhas pernas não respondem, meus lábios formigam muito, minha cabeça está tão pesada, muito pesg b  bb 

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Vênus em Conjunção com a Lua dos amantes.

Nunca verei Lua como esta de novo... O teu sorriso, e um ponto luminoso que é teu olhar escondido entre teus cabelos. É Vênus em conjunção com a Lua, maré alta em meus olhos, palpitar em meu peito. É a Terra a girar pelo simples acaso das horas, como se não esperasse nada além dessa visão. Tu, que és mulher, verás em mim muito mais do que vejo eu mesmo, e tu que és Lua enxerga bem mais através da minha carne do que meramente sangue. Tu, com teu olhar, me restringes e me incandesces, e eu, tal como vela, incendeio porque teu sorriso existe no meio do céu das minhas noites. A ponta do meu dedo em brasa tenta tocar o teu rosto que se forma entre as estrelas, sem sucesso.
E quem dirá que nunca te toquei, se em meu sono é tua luz que me acaricia o rosto, me afaga os cabelos e beija meus olhos? Quem me acalenta nos horas infelizes dos meus dias, quem viola o curso do tempo e me faz voltar aos dias mais tenros da minha idade? Quem me retorna ao berço da terra, me faz pó e sombra do mundo? Quem, senão tu, minha Lua?
E nunca, nunca mulher, nunca minha Lua, verei Lua como tu outra vez. Que as conjunções astrais são tão efêmeras quanto as mãos que te escrevem.




quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O compositor

A angustiosa premonição de sua partida o fazia perder o eixo. 
Cedo ele veria as claves de sol vermelhas ficando menores, cada vez menores, ainda menores... até sumirem. Seus olhos se apertariam até virarem dois riscos em seu rosto, mas ele não conseguiria mais vislumbrar sua canção. Ela o deixaria cedo demais, tarde demais, cruel demais.
Sentia as palavras frias que saiam de sua boca. Nenhuma rima, nenhum amor, nada. Nenhuma linha nova ao piano, nenhum sentimento bom. Queria fingir não notar que sua canção estava cada vez mais calada, sem emoção, mas não conseguia. Os dedos erravam a nota, a voz não saía por conta de um nó na garganta, e tudo mais era estático em seu corpo. O único órgão que se movia era seu coração. Batia num ritmo de marcha-rancho, que por um momento pôde acompanhar ao piano. Uma nota, duas notas, três, dez... A letra saia devagar:

Sossega capitão
A vida corre sem parar
Recua o batalhão
Sem ver o sangue derramar
Com os olhos na amplidão
Espera o Alferes retornar
Mas sabe que se foi
E que jamais vai regressar

Veste luto
Por tua paixão
Verte a lágrima certeira
Que dispara do teu pobre coração

E vinha o nó, a garganta fechava, o coração perdera o compasso. Sua cabeça caia por sobre as teclas emitindo um acorde dissonante e angustiado. Chorava. A canção deixava sua carta de adeus sobre o tampo do instrumento, e saía sem fazer barulho.
A angustiosa premonição de sua partida o tirava do eixo. E sua partida, de fato, deu-o a mais impiedosa das mortes. Agora não cantava. O piano era fantasma. A sala era silêncio. A casa era areia. O mundo, deserto.


quarta-feira, 13 de junho de 2012

O velho bandido

Eu sou aquele velho. Parado ante o hotel, olhos fechados, a mala cheia de arrependimentos numa das mãos. O grisalho dos curtos cabelos se confundindo com o cinza do céu, a tempestuosa estação fazendo trovoada dentro dele. Sou ele. Sou o passado que desfila diante de seus olhos, torturando-o com nostalgias e lembranças que não ressuscitam nem exorcizam fantasmas. Com a bengala cravada ao chão, apoiado por seu orgulho desfeito, eu sou aquele homem, que sente apertar no peito o amor partido das eras, o florescer de muitas primaveras, o frio de muitos invernos. Ele, tal como eu, viveu a vida como se comete um erro: repentinamente, impensadamente, dolorosa e ardentemente. E tal foram seus olhos ante a vida, como disparates ao vento, raios de sol para as nuvens, céu azul para o firmamento de estanho.
Parado diante do hotel, a angustiosa estação fazendo chuva dentro dele, sente apertar no peito uma dor não mais de saudade, não mais de amor, não mais de vida. A pontada lancinante da morte agora vara seu coração dilacerado pelo tempo. Lentamente, como na luta de facas das Bodas de Sangue, ele cai. Estende a mão para o alto, pedindo perdão, sentindo o frio de todos os invernos. A calçada fria é seu leito. O céu cinzento lhe dá a extrema unção. Sem olhar para trás, já dobrei a esquina, não vendo o velho bandido morrer esquecido naquela rua já deserta, não vendo a minha própria morte, a morte dos meus olhos nos olhos dele.

Fonte: sevicosocial.blogspot.com

A carta esquecida, seguido de Conhaque

Assim que eu galgar a esquina, ela vai terminar de cuidar de suas coisas dentro da bolsa. Quando eu tiver dado mais dez passos, ela vai ver a bola de papel sobre a mesa. Outros dez e ela abrirá o papel, desamassando-o. Na próxima esquina ela terá terminado de ler a carta de amor que escrevi. E em mais um passo, um único passo, o papel tornará a ser amassado. E em dois passos mais, mais uma carta de amor jazerá esquecida dentro de uma lata de lixo, como se nunca tivesse sido lida.

Fonte: Google Images

domingo, 24 de abril de 2011

Mar de gente, a certeza da solidão

Ele se divertia. Por fora. Por dentro, era mais uma massa de tédio e melancolia. Festas, confraternizações e afins. Tudo isso deixava o rapaz em depressão profunda, como se a vida se resumisse às gotas de uma bebida etílica e um punhado de gente superficial. Podia ter a nítida certeza de que, se morresse naquele exato instante, ninguém notaria. Ninguém ouviria o grito silencioso de sua alma, ninguém teria compaixão para com seu espírito ferido e jamais teria o amor de ninguém ali.
Tudo estava estático, mesmo em movimento. Nenhuma viva alma sentia ou pensava, eram todos como animais cegos e acéfalos, sem noção do que era ou não era. Deles, apenas ele parecia ciente. Apenas ele se via em pé ante as condições que a vida impunha tão implacavelmente aos seres mortais. "Se tens alegrias, tens muitos amigos. Se tens dores, só estás". Por que, justo agora, aquilo se fazia tão claro?
Mas era inevitável. Onde quer que estivesse, apenas ele sabia daquilo. E se lutasse contra, entendia do jeito mais difícil que era fraco. Não por não conseguir lutar, mas por não saber lidar com a perda, por não saber lidar com o passado e solidão. Em meio a tantas pessoas, tantos amores e desamores, estava só. E seria eterno este sentimento, enquanto estivesse longe dela.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Pablo

No palco, ele declamava um poema de um desses autores malditos. Estava só no teatro. Porém, a ênfase que dava a cada verso, a veracidade de sua performance ele tratava como se fosse para um público imenso. Era o seu momento. Era a sua vez de brilhar. Mesmo que seu brilho fosse uma estrela solitária em meio a um ponto vazio do espaço. Os versos chegavam ao clímax. A voz embargava e alteava, até eclodirem as palavras finais...
- Ô, menino! O teatro tá fechando, faz o favor de sair, tá bom?
O senhor da limpeza, velho, rabugento e enrugado, aparecia detrás dos bancos ao fundo do teatro.  Usava um macacão azul escuro gasto e imundo. Diante daquele categórico pedido, o trovador só tinha como alternativa sair.
Pablo era moreno, mediano, magro e não tão belo. Do teatro era iluminador, e constantemente ficava depois de uma apresentação ou ensaio para desligar os equipamentos, mas, claro, devido ao seu sonho irresistível de ser ator, sempre acabava subindo ao palco para dar asas a sua imaginação. Era talentoso, pelo menos, a seu ver, mas para qualquer outra pessoa, a possibilidade daquele rapaz atuar parecia inverossímil. Por isso, ocupava ele a posição de artista frustrado, que trabalhava na área que queria, mas não no cargo que cobiçava.
Era pobre, morava só, e para pagar suas contas se valia de seu trabalho como estátua viva na Rua dos Andradas, além do cachê de seu trabalho como iluminador. Seu apartamento, na mesma rua, era uma coleção de problemas dos mais variados: elétrica centenária, infiltrações por todos os lados e vizinhos tarados e barulhentos que não o deixavam dormir à noite com suas orgias desvairadas. Aliás, estava cercado de vizinhos estúpidos e intrometidos. Constantemente enojava-se com suas mazelas e maldizeres. Gente que não rompia com as correntes de miséria mental e espiritual. Estar naquele lugar era para ele uma experiência bastante entediante.
Saíra do teatro e se dirigia para casa, a pé. O Theatro São Pedro ficava bem próximo ao prédio onde morava, e no caminho sempre havia um bar onde podia lubrificar o pensar com os eflúvios etílicos, oferecidos pelo sempre infalível garçom. Vez ou outra encontrava algum amigo ou conhecido, e parava para conversar. Para ele, era sempre bom molhar as palavras e montar as mais mirabolantes teorias sobre a condição humana, a falível e frágil sociedade, o sentido errado que se dava à vida. Podiam “salvar a humanidade ao redor da mesa”, como dizia um músico do momento...
Naquela noite, não encontrara nenhum amigo ou conhecido, então simplesmente fora para casa, andando a passos curtos e ligeiros, encarangado pelo frio incomum daquele outono. As ruas molhadas eram quase espelhos, as luzes davam à noite um tom de sépia quase artístico, e era quase agradável a atmosfera. Os vagabundos vagavam dolorosos pelas calçadas, e olhavam para Pablo com algo que beirava uma interrogação indignada. Todos olhavam para ele desta maneira. Ele até então não entendia por que chamava tanta atenção, nem por que era mirado com certo desprezo. Era, de fato, um ser bastante atípico, tanto no jeito de se vestir quanto nos seus trejeitos. Com o tempo, ele aprendera a ignorar os olhares, porém, mesmo que fosse superior a tudo aquilo, ainda sentia certo desconforto perto das gentes.
Passara pelo pub em frente ao seu prédio. Não havia ninguém com quem pudesse falar por lá, além do dono do estabelecimento e sua esposa, e uma garçonete muito simpática com quem sempre fazia graça. Cumprimentou os conhecidos e se dirigiu ao prédio. Enquanto subia as escadas, respirando profundamente, tentava aliviar as tensões do dia de trabalho. Posara na Rua dos Andradas por quase toda a tarde como estátua viva, depois fizera as luzes para um espetáculo musical. Estava dolorido e com as articulações um tanto endurecidas.
Entrou no apartamento. Estava uma bagunça, como sempre. Nunca encontrava tempo ou disposição para arrumar seu pedaço de lar, que mais parecia um campo de batalha abandonado. Sentara no sofá, pegando na mesa de centro uma garrafa de cachaça mineira. Serviu com cuidado num copo pequeno, para não derramar nenhuma gota. Aquela bebida era cara demais para ser desperdiçada, e era um dos poucos amenizadores de suas tensões diárias. Bebeu todo o conteúdo do copo num gole, sentindo a garganta arder um pouco, e logo depois o estômago queimar por um instante. Por conseguinte, uma sensação de relaxamento alcoólico se espalhava vagarosamente pelo corpo. Aproveitara o momento para dar uma olhada em seu apartamento.
Gostava de olhar para o que tinha. Muitas vezes, conquistara seus bens com muito suor e persistência. No caso do apartamento, era um pouco diferente. Presente de sua mãe, que mais queria se livrar dele do que qualquer outra coisa. Ele, mesmo assim, era grato a ela pela moradia. Era um apartamento de quatro peças: sala, cozinha, banheiro e quarto, muito mais do que podia imaginar que conseguiria, levando em consideração aquilo que ganhava com seu trabalho.
Resolveu ir dormir, pois sentia o peso do cansaço. Tirou as roupas e deitou-se debaixo dos cobertores. Ficou ali, imóvel, esperando o sono vir. Enquanto ele não vinha, Pablo pensava. Era uma das poucas maneiras que conhecia de aguardar o desligamento do corpo e da mente, e também sua favorita. Pensava no trabalho entediante no Theatro, no quanto gostava do posar como estátua viva e no quanto era desgastante fisicamente. Pensava em quando ele finalmente conseguiria pisar num palco a atuar num grande espetáculo. Pensava em como era só, mesmo com amigos e conhecidos espalhados pela cidade, pois praticamente ninguém compartilhava de seu pensamento acerca do mundo, da vida e da arte. Sonhava com o momento que teria reconhecimento por seu esforço.
Quando quase pegava no sono, gemidos e batidas quebraram o silêncio de seu quarto. Eram os vizinhos despudorados do andar de cima. Tudo bem que se amassem tanto, mas era uma falta de respeito perturbar o sono dos outros. Pablo levantou-se da cama, se vestiu e saiu do apartamento. Sabia que ia demorar até aqueles dois se satisfazerem. Desceu as escadas e saiu caminhando pela rua. Gostava de fazer isso, de vez em quando. Passara mais uma vez na frente do pub. Havia um grupo de amigos, mas não conhecia ninguém. Ficava angustiado com isso à vezes. Não tinha muitos amigos em quem podia confiar de fato, e apenas um era como um irmão para ele. Suspirou e seguiu seu caminho.
Dentro do pub, uma moça o vira de relance, mas logo voltou sua atenção aos amigos que riam e se divertiam.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Grande Laranjeira

Era sertão. Era deserto. O que era?
Vira-se, repentinamente num lugar árido, cheio de árvores mortas e enegrecidas como se tivessem sido incendiadas há muito. O céu era quase vermelho, o sol parecia se pôr no horizonte. Caminhava desnorteado, como se procurasse algo, sem saber ao certo o que procurava. Como sempre, não sentia o chão embaixo de seus pés. No entanto, ele caminhava com seus pés incertos pela terra devastada, erodida e infértil daquele que parecia ser o âmago do seu espírito. Tinha ciência de sua solidão, e que, uma vez ali, não teria auxílio. Estava à própria sorte dentro dos confins de si próprio.
Lembrou-se. Procurava uma árvore. Uma certa árvore. Até pouco tempo antes, era grande, bela e frondosa. Os passos, ainda incertos, já eram mais ligeiros. Olhava em volta, confusamente, quase desesperado. Foi quando sua solidão fora interrompida por homens estranhos. Vestiam negro, tinha cabelos curtos e negros, e seus olhos eram profunda e opacamente negros. Diziam: "Para trás, te perderás nestas terras áridas". Desencorajavam-no em sua busca pela Grande Laranjeira, que era a sua essência maior, a fonte de todos os seus sonhos e inspirações.
Seguiu impávido. Tinha de encontrá-la. Que seus medos e angústias o devorassem vivo, como leões devoram a caça. Que se perdesse naquela terra infértil. Que seus pés sangrassem pela interminável caminhada.  Que fosse consumido pelo esforço. Não importava, tinha de encontrá-la!
Quando ele finalmente a viu...
A Grande Laranjeira, antes bela e frondosa, era agora uma grande árvore petrificada, sem folhas, sem vida. Andando em volta dela, notou que tinha o seu rosto. A expressão era triste, desolada. Uma gota de seiva escura corria de um de seus olhos, como se fosse uma lágrima silenciosa e cheia de pesar. Os homens estranhos diziam: "Eis tua essência, eis teu ser. Esta árvore está morta.".
Ele caiu de joelhos.
Não... Não...! Era bela... Era frondosa... Era fértil e muito forte... O que aconteceu? Pôs-se em pé fracamente, e abraçou a árvore com sentimentos que se misturavam: medo, pesar, carinho, amor, remorso... Sentiu sua casca petrificada e chorou, pedindo sincero perdão pelo abandono, pela desilusão e pela falta de carinho que proporcionara à planta, que era sua essência, sua inspiração, sua vida.
Sentiu a Grande Laranjeira pulsar. Então, percebeu que, pouco a pouco, muito lentamente, a velha árvore ganhava nova vida. A casca começara a rachar, o rosto que era igual ao seu se desmanchava como uma máscara. Vêem? disse ele aos homens estranhos Está viva!
Das rachaduras irrompiam fachos de luz branca e ofuscante. De repente, a casca de pedra da árvore voou aos pedaços para todos os lados, e no lugar onde antes se encontrava a Grande Laranjeira morta, resplandescia uma gloriosa planta feita de pura luz, que desfez à sua volta toda a paisagem seca e infértil.
E tudo, então, se tornou luz...


terça-feira, 22 de junho de 2010

A manhã posterior, ou A angústia de Silvana

Era incrível como o cheiro dele insisitia em sua blusa.
Um abraço. Só isso. Os dois compartilharam não mais que um momento de calor humano. Nada mais. O que era aquilo? Amor? Admiração? Curiosidade? Que homem estranho e intrigante era aquele, que por uma noite esteve em sua cama, sem sequer ter tido com ela um momento de fervor? Vira seus olhos tristes, sua boca pequena, não obstante em nenhum momento fechara aqueles olhos, em nenhum momento beijara aquela boca.
Uma noite e uma madrugada em claro foi o que compartilharam. Conversas sobre o nada, ou sobre o tudo, ou sobre tudo ou nada. Pareciam discutir os segredos do Universo com palavras simples, ou mesmo desvendar os mistérios da alma em uma frase. Vez por outra, externizavam mágoas. Ele cerrava deliciosamente os olhos. Vira-o dormir, e, por uns instantes, observara-o em seus misteriosos sonhos, antes de adormecer ela própria.
Fora acordada por sua voz se despedindo, e por sua boca dando-lhe um beijo carinhoso no rosto. Em seguida, adormecera novamente. Quando acordara definitivamente, ouvindo a algazarra da metrópole ensandescida, horas mais tarde, dera falta dele. Aquelas doces palavras, aquele delicado beijo não haviam sido um sonho. Houvera sido a triste realidade que ele se fora. Sentiu um vazio gélido no peito. Como? Como era possível, em uma noite, sem ao menos ter de fato se entregado, ser tão pertencente àquele homem? O que fizera ele? Por que já era tão difícil a idéia de dormir sem seu calor?
Levantou da cama, pesada e tristemente. Arrependia-se de não ter dado ao fidalgo que a abandonara ao menos uma parcela de seu amor. Aquilo já pesava sobre ela como um fardo velho e gasto. Caminhara sobre o quarto, sentindo a presença inquietante dele, procurando em cada vão um vestígio de sua sombra. Não encontrava. Sentou-se na cama, inconformada como criança. Viu no chão, próximo ao pé da cama, sua blusa verde. Tomou-a em mãos e a abraçou como se abraçasse aquele homem. Numa surpresa, sentira o aroma de seu perfume. Olhou em direção a porta.
Ninguém. O cheiro não vinha dali.
Era incrível como o cheiro dele insistia em sua blusa.