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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Crônicas do Lobo da Estepe - Ano três

Atravessamos mais um ano com o Crônicas do Lobo da Estepe. Agradeço de coração a todos os que acompanharam até aqui esta trajetória de narrativas surreais, realistas, livres. Este último ano foi de vacas magras para mim como escritor (estou me dedicando fortemente ao meu projeto musical, Tudo por fazer, meu primeiro disco solo), porém o Crônicas vive, ainda que com pouco movimento. O layout foi mais uma vez renovado, como é de praxe.
Juro que assim que tudo estiver pronto com minha porção músico, este blog virá com textos absolutamente novos. Ficam aqui meus agradecimentos sinceros a todos amigos que vêm acompanhando a caminhada deste lobo da estepe, fazendo parte desta alcatéia.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O sonho, ou Devaneio Saramaguiano

Tal sonho ocorreu-me ainda na noite passada, depois de uma leitura profunda e prazerosa de um desses livros do autor português que ganhou já até Prêmio Nobel (admito sem pudor que, graças a isto, descaradamente copiei uma parcela do estilo dele). Certas memórias deste sonho me escapam por entre os dedos, mas não creio que estas sejam de muita importância, uma vez que as partes relevantes não se me fugiram da mente.
Lembro-me, primeiro, de estarmos em uma linda loja de roupas e tecidos, dentro de algo que me pareceu ser um antigo casarão açoriano, com janelas altas e pouco largas que davam vista a uma paisagem que me lembrou Gramado. Era final de tarde. Sabia-me em companhia de Seth, meu amigo de infância, e de Madalena, minha amante, e mais outra pessoa que só me lembro ser uma mulher. Conversávamos animadamente, fazendo piadas e sentindo em nós o calor da juventude. Junto a minha amante, observava os tecidos mais finos, quando se achegou Seth, gracejando-a. Senti neles algo que era mais do que afeição pela amizade em comum, uma espécie de ligação que ia além do interesses. Afastei-me, enquanto eles diziam algo que não ouvi.
Como que por mágica, transportei-me para um lugar de meias-luzes. Não sei era umbral ou zona morta, mas parecia-me uma das avenidas de uma cidade qualquer, onde riscos de luzes multicoloridas, multivelozes, passavam por mim. Certamente, eram carros. O sol já se havia ido. Vagueei por calçadas imaginárias que me fugiam aos pés, transfigurando meu andar em um balé ébrio e incerto, enquanto a noite corria rápida. Minha garganta clamava por eflúvios etílicos, meu ser queria se embriagar, não mais ensaiar o passo do bêbado. Vi-me empunhando um aparelho misterioso, e através dele enviei carta-mensagem para meu velho amigo de infância, que, a esta altura, poderia estar fazendo qualquer coisa com minha amante.
Mais uma vez me desapareci de um cenário para me encontrar em outro. Tive a certeza de estar de volta ao casarão açoriano, mas já não era loja, senão residência. Um telefone tocava (ou alguém que parecia ser a mãe de Seth havia me avisado que me esperava uma ligação, já não sei). Atendi. Falei algo como: “Sou gente do mundo!”. E do lado de lá, a réplica: “Se és gente do mundo, és gente perdida. És despergente!”. Desliguei. De fato, era eu gente perdida, perdido de mim e de meus próprios atos escravo. Lembrei-me de Seth com minha amada Madalena. Sempre que meu amigo deixava uma mulher, valia-me eu desta mesma mulher, afagando-lhe e trepando-lhe feito animal. Era eu um desses homens que anseiam a mulher do amigo. Mas admito sempre ter sentido certa culpa por isto, não suficiente para me impedir de cometer o ato, mas o suficiente para me dar um leve remorso, uma vez que percebia que ele sentia certo ciúme, talvez produto de um resquício de sentimento pela moça em questão. Sob estas circunstâncias, não me sentia mal em imaginar o que Seth poderia estar fazendo com minha mulher, uma vez que, no meu íntimo, pedia a ele que se vingasse de mim, que me tomasse a mulher como várias vezes lhe tomei, e que me esfregasse na cara o fato. Quase que me comprazia com a idéia! Ouvi uma voz que me dizia que havia muito meus amigos perguntaram de mim, preocupados por eu de repente ter me separado do grupo e por causa da carta-mensagem que enviei a Seth.
Desci um lance de escadas que dava acesso a uma espécie de quintal. Muitas árvores, predominantemente pinheiros, cercavam a dita casa açoriana, que agora já ganhava outro aspecto, mais de construção incompleta. Já era quase de manhã, os primeiros sinais de sol apareciam no horizonte. Senti a presença de meu amigo. Corri para me esconder, não por vergonha ou qualquer motivo malfazejo, mas por pura diversão. Vi seu rosto a procurar e procurar, mas sempre despistava o pobre, sem ao menos ter o cuidado de pisar leve, uma vez que, por mistério, meus pés não tocavam o chão. Num dado momento, fiquei deitado atrás de uma escadaria em ruína, que parecia estar ali há milhares de anos. Mais uma vez, Seth não me encontrava. Ouvi sua voz dizer: “Ele conseguiu! Despistou-me!”.
De repente, estávamos na mesma cama, como que brigando de mentira, conversando assuntos que não lembro. Lembro-me apenas ter dito algo como: “Não importa teu esforço, homem, sempre te despistarei!”. Até que ele me disse: “És o demônio.”.
Então acordei.

terça-feira, 22 de junho de 2010

A manhã posterior, ou A angústia de Silvana

Era incrível como o cheiro dele insisitia em sua blusa.
Um abraço. Só isso. Os dois compartilharam não mais que um momento de calor humano. Nada mais. O que era aquilo? Amor? Admiração? Curiosidade? Que homem estranho e intrigante era aquele, que por uma noite esteve em sua cama, sem sequer ter tido com ela um momento de fervor? Vira seus olhos tristes, sua boca pequena, não obstante em nenhum momento fechara aqueles olhos, em nenhum momento beijara aquela boca.
Uma noite e uma madrugada em claro foi o que compartilharam. Conversas sobre o nada, ou sobre o tudo, ou sobre tudo ou nada. Pareciam discutir os segredos do Universo com palavras simples, ou mesmo desvendar os mistérios da alma em uma frase. Vez por outra, externizavam mágoas. Ele cerrava deliciosamente os olhos. Vira-o dormir, e, por uns instantes, observara-o em seus misteriosos sonhos, antes de adormecer ela própria.
Fora acordada por sua voz se despedindo, e por sua boca dando-lhe um beijo carinhoso no rosto. Em seguida, adormecera novamente. Quando acordara definitivamente, ouvindo a algazarra da metrópole ensandescida, horas mais tarde, dera falta dele. Aquelas doces palavras, aquele delicado beijo não haviam sido um sonho. Houvera sido a triste realidade que ele se fora. Sentiu um vazio gélido no peito. Como? Como era possível, em uma noite, sem ao menos ter de fato se entregado, ser tão pertencente àquele homem? O que fizera ele? Por que já era tão difícil a idéia de dormir sem seu calor?
Levantou da cama, pesada e tristemente. Arrependia-se de não ter dado ao fidalgo que a abandonara ao menos uma parcela de seu amor. Aquilo já pesava sobre ela como um fardo velho e gasto. Caminhara sobre o quarto, sentindo a presença inquietante dele, procurando em cada vão um vestígio de sua sombra. Não encontrava. Sentou-se na cama, inconformada como criança. Viu no chão, próximo ao pé da cama, sua blusa verde. Tomou-a em mãos e a abraçou como se abraçasse aquele homem. Numa surpresa, sentira o aroma de seu perfume. Olhou em direção a porta.
Ninguém. O cheiro não vinha dali.
Era incrível como o cheiro dele insistia em sua blusa.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Dos inimigos, dos amigos, da luz, da treva e de como lido com tudo isso.

"Um homem de princípios faz inimigos todos os dias."
                                                     (Hermann Hesse)

"Quem é sábio, aprende muito com os seus inimigos."
                                                             (Aristófanes)

"Deus me proteja dos meus amigos. Dos inimigos, cuido eu."
                                                                             (Voltaire)

"A tua atitude emerge do que costumas dizer: 'Ainda sou capaz de utilizar quem é por mim. Mas prefiro, por comodidade, mandar o meu adversário para o outro campo e abster-me de agir sobre ele, a não ser pela guerra'.
Ao proceder assim, não fazes mais que endurecer e forjar o teu adversário.
E eu cá digo que amigo e inimigo são palavras da tua lavra. É certo que especificam qualquer coisa, como definir o que se passará se vos encontrardes num campo de batalha, mas um homem não se rege só por uma palavra. Sei de inimigos que estão mais perto de mim ou que me são mais úteis ou que me respeitam mais do que os amigos. As minhas faculdades de acção sobre o homem não estão ligadas à sua posição verbal. Direi mesmo que actuo melhor sobre o meu inimigo do que sobre o amigo: quem caminha na mesma direcção que eu, oferece-me menos oportunidades de encontro e de troca do que aquele que vem contra mim, disposto a não deixar escapar a mínima palavra ou gestos meus, que lhe podem sair caros." 
                                                         (Antoine de Saint-Exupéry)

Quem está contra mim? E quem me quer bem? Quem me leva às trevas com a velocidade de uma queda livre e quem é capaz de me rebatizar na luz? Quem quer devorar minha essência e quem quer preservá-la?
Sinto a paranóia e a insanidade cada vez mais próximas de mim. Sinto que alguém espreita meu leito, com a adaga mais afiada, para lavar meus lençóis de sangue. O meu sangue. A minha vida. Sinto que vampiros sugam mais e mais a minha luz, e me vejo nos espelhos cada vez mais escuro e mingüado, mais velho, mais cansado... Tenho em mim o medo de andar na luz, pois tenho medo que meus inimigos me vejam...
Mas e quanto a iluminação que alcancei no passado? Onde ficou? Onde está agora que preciso dela?
A resposta é mais simples do que posso imaginar: deixei meu desespero desfaze-la de minha lembrança. Agora, não sei mais como contornar o demônios que me atormentam, sejam eles externos ou internos. Não seu dizer se meus inimgos estão dentro de mim ou fora de mim, e nem se são realmente inimigos. Talvez, pela falta do amor que tanto custei em conquistar, e que de alguma maneira se perdeu no caminho, minha visão tenha ficado turva e distorcida, e eu já não tenha mais capacidade de distinguir as pessoas e as coisas.
Não obstante...
Quando lembro do amor, mais da essência da palavra do que da palavra em si, sinto que ainda tenho um pouco mais de força. Sinto que posso conter meus demônios, que posso vencer meu inimigos sem feri-los, que posso recuperar amigos que perdi ou que se perderam. Quando lembro do amor, retorna a mim um pouco daquela iluminação do passado, a sabedoria que conquistei com muito custo. E com este pouco de sabedoria, posso me manter em pé para ao menos caminhar alguns passos para frente, para a evolução. Quando lembro do amor, tenho certeza de que os inimigos que fiz por ter eu uma opinião com a qual eles não concordam um dia vão entender e respeitar meu ponto de vista. Com amor, posso converter os inimigos que fiz em novos amigos. E os amigos que perdi por eu ter me perdido voltarão ao perceber que voltei de meu tormento mais forte. Os amigos que ficaram certamente se alegrarão ao ouvir o riso dos imortais que irromperá de minha boca no momento da minha glória. E os inimigos que insistirem em atacar minha alma ouvirão a oração de São Jorge e fugirão acuados.

Chagas abertas, Sagrado Coração todo amor e bondade, o sangue do meu Senhor Jesus Cristo, no corpo meu se derrame hoje e sempre.
Eu andarei vestido e armado, com as armas de São Jorge. Para que meus inimigos tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me exerguem e nem pensamentos eles possam ter para me fazerem mal.
Armas de fogo o meu corpo não o alcançarão, facas e lanças se quebrarão sem ao meu corpo chegar, cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrarem.
Jesus Cristome proteja e me defenda com o poder de sua Santa e Divina Graça, a Virgem Maria de Nazaré, me cubra com o seu Sagrado e divino manto, me protegendo em todas minhas dores e aflições, e Deus com a sua Divina Misericórdia e grande poder, seja meu defensor, contra as maldades de perseguições dos meus inimigos, e o glorioso São Jorge, em nome de Deus, em nome de Maria de Nazaré, e em nome da falange do Divino Espírito Santo, me estenda o seu escudo e as suas poderosas anulas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, do poder dos meus inimigos carnaise espirituais e de todas sua más influências, e que debaixo das patas de seu fiel ginete, meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós, sem se atreverema ter um olhar sequer que me possa prejudicar.
Assim seja com o poder de Deus e de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo.
Amém.