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domingo, 1 de dezembro de 2013

Futuro

Saí cedo do Bairro da Imaculada, levando o violão e o caderno de poemas, para ir ao encontro de um passado fantasmal que persiste e não quer morrer, mas que, em verdade, não mais me incomoda. A cidade ainda dormia, e poucos pássaros madrugadores saíam de seus ninhos para a luta cotidiana. Os carros e ônibus se arrastavam sonolentos pelo asfalto, por entre prédios e árvores esparsas, e num desses dragões de chão e metal eu subi.
Devagar como a condução, eu divagava. Meus pensamentos passavam como passava a paisagem na janela, tão cinzas quanto. A neblina turvava os olhos e o coração, e tudo era estática melancolia fora e dentro de mim. Sim, querida, estava pensando em ti. E tenho pensado desde então. Tenho pensado na tua ausência e na falta que me faz teu riso frouxo. Tenho pensado no vazio que minha casa e meu coração apresentam desde que te fostes.
Desde aquele dia penso nisso. Dentro daquele ônibus, notei com tristeza que esquecia as formas do teu rosto. Esquecia a cor dos teus olhos. Esquecia a linha do teu sorriso. Esquecia, Deus meu!, da textura dos teus lábios que me salvaram da sede eterna inúmeras vezes. Estive triste, pois tu me fugias de todo, por inteira, nem na minha lembrança ficavas. Em vários instantes meus olhos ensaiaram lágrimas durante meu trajeto, mas não pude deixar uma gota de tristeza cair para não me expor ao ridículo de chorar ante as gentes que nada sabem do amor e da vida, não como tu ou eu sempre soubemos, e juntos pudemos comprovar o quanto.
E foi assim que, sentado no lado esquerdo do ônibus, como quem está sentado a esquerda de Deus, alheio a mim mesmo e mergulhado no vazio das lamúrias, assim pude ter um vislumbre do futuro.
Entravas pela porta daquele monstro de ferro com a graça dos anjos que sempre tivestes. Estavas linda e - Dio santo - velha! No mínimo, tinhas lá tua meia-idade. No entanto pude constatar, com um sorriso imenso nos lábios e no peito, que tua graça nada diminuíra; que teus olhos conservavam o mesmo brilho solar da mocidade; que aquele teu jeito de olhar para os lados como quem procura algo, como quem suspeita de algo nunca mudara; que a cor da tua pele era a mesma transição do alvo para o escuro; que teus cabelos ainda dançavam balé em volta dos teus ombros.
Mas estavas velha. E apesar do brilho intenso nos olhos, o olhar era mais triste. O rosto se encontrava sofrido do tempo e das dores de viver, mostrando uma expressão tipicamente preocupada, a expressão dos nossos pais. O corpo denunciava as formas da juventude, mas não mais as possuía com a mesma firmeza e o mesmo frescor. Já ganhavas teus ares de fruta madura, um jeito mais duro de se portar, uma maneira melancólica e nostálgica de ver a vida.
No entanto, estavas magnífica.
O ônibus chegava ao meu destino. Levantei-me e pude contemplar de perto a face do futuro. Dei-lhe bom dia e disse:
- Estou feliz de saber que ainda existes, e que existes tão bela quanto sempre fostes.
O futuro, que era tu, fitou-me nos olhos e não me reconheceu. Sorri. Não podia ser diferente, e ao mesmo tempo era inverossímil aquele olhar de interrogação, de quem não reconhece a própria alma. Sorri, pois pude, naquele momento, confundir presente e futuro, transfigurar a realidade, notar um mar de possibilidades que se abre bravio e inexplorado, e desde aquele dia foi neste mar que me pus a navegar.


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Pata-de-vaca

As flores são os ouvidos das árvores. No outono, ficam surdas. Na primavera, ouvem segredos. Se bem que, pelo menos nesta imensa cidade, as patas-de-vaca dão suas flores no final do inverno. Os parques ganham um belo tom de rosa graças aos belos ouvidos que estas árvores têm.
Nos meus caminhos, sempre encontro pelo menos uma delas. Uma em especial é uma amiga muito próxima, para a qual sussurro segredos. Muito ela já sentiu meus abraços, a chorar meu coração ferido, e para ela balbuciei entre soluços o nome de minha amada. Ela, impassível, fria e rígida, sempre esticou suas orelhas cor-de-rosa para bem me escutar. E sempre que peço para que ela leve em segredo o meu amor para a mulher distante, chama uma brisa leve, que é o sopro de sua voz, que é o farfalhar de suas folhas. E todas, todas as árvores do mundo dizem aos ouvidos de minha amada:
- Ele mandou dizer: "meu coração é teu".


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Muito mais vermelho que o céu

Seus olhos se abriram para a madrugada, a poucos minutos da alvorada. Encontrou-se de barriga para cima, olhando para o teto. Suspirou bem umas três vezes antes de se mover um pouco e se espreguiçar. Não sentia o corpo sobre a cama. Era ele apenas um fantasma a flutuar na horizontal, estático. Não lembrava de ter deitado na cama na noite passada, tampouco o instante no qual dormira. Quando o primeiro raio de luz tocou a parede do quarto, reencarnou-se e se levantou, pondo os dois pés firmemente sobre o chão. Um acorde de ar irrompeu do firmamento, chamando-o para as primeiras horas do dia pelas quais não ansiava, uma vez que seu objetivo era estar acordado na companhia da noite. Levemente contrariado, pôs as roupas e se dirigiu para a cozinha.
A manhã era particularmente quente dentro daquele vulcão que ele habitava. Na cozinha, de pé diante da pia, a solidão lhe dava bom dia, e ele respondia como respondia todos os dias, "bom dia, meu amor", e sentava-se à mesa do café, onde uma xícara fumegante de lágrimas o esperava. Sempre na mesma parede, naquele mesmo horário, a sombra de um pé de rotina se alongava, tornando seus galhos secos mais longos do que na árvore de verdade. Terminara de beber de sua xícara, e se levantara para sair sem comer seu sanduíche recheado de mágoas. Nunca sentia fome de manhã. Disse adeus a sua solidão e saiu porta afora.
Andou pela rua, se enfileirando atrás de outras solidões e outros eles que caminhavam devagar em direção ao grande dragão de fumaça que os levaria ao abismo de mediocridades no qual todos ganhavam pão, geleia de desgosto, mágoas fatiadas e lágrimas em pó. Enfiou-se desconfortavelmente dentro da barriga do dragão com os outros, e o dragão levantou voo em direção ao abismo. As entranhas do bicho se moviam de maneira incômoda para todos lá dentro, que sem querer se empurravam e se acotovelavam. Lá dentro, ninguém tinha rosto. Não poderia ser diferente, uma vez que revelar-se - diziam os "grandes" - era muito, muito perigoso.
Chegaram todos ao destino, o dragão, as solidões e os eles. Saiam todos em profusão da barriga do bicho para se atirarem no abismo em busca do pão, da geleia, das mágoas e das lágrimas. Ele, o nosso "ele", ia devagar, circundando o abismo sem muita emoção. Acordara diferente, sentira logo cedo. Aquela corrida maluca atrás de tudo aquilo de repente não fazia sentido. Em vez de olhar para baixo, olhava para cima. O céu era do mesmo vermelho que sempre fora, com as mesmas nuvens negras que sempre flutuavam no céu.
Foi quando os dois se esbarraram...
Batera de frente com uma mulher, que aparentemente também olhava para cima, e não para baixo. Passado o choque inicial do impacto entre os corpos, sentado ao chão, ele a vislumbrava pela primeira vez.
Não, definitivamente não era uma solidão, pois tinha rosto. Tinha os olhos negros como carvão, mais negros até do que as nuvens, com um brilho quente, quente como o sol. A pele era algo entre o alvo e o tostado, e ao toque de seus olhos era macia. A boca pequena era rosa como as flores de brinquedo vendidas nas lojas de esquina. Tudo isso lhe era muito, muito diferente e deslumbrante, porém, seus olhos se detinham insistentemente nos cabelos.
Vermelhos... Muito, muito mais vermelhos que o céu, com ondas e curvas e caracóis que dançavam balé em volta da cabeça e do pescoço. Seus olhos se transbordaram de vermelho e curvas e ondas e caracóis. Era tanto vermelho que sentia seu sangue ficar azul.
De repente, resolveu desviar o olhar. Espantado, notara que o céu na tinha mais a mesma cor de antes. Ficara azul! Completamente azul! E as nuvens pareciam ter sido passadas no cloro, pois estavam brancas como a neve dos países distantes. Ao se deparar com tão bizarra cena, ele riu. Riu com força e gosto. E diante dele, ela também ria. Notara ele que, sem mais nem menos, também ganhara rosto. Os dois fixaram seus olhares, firmemente... Viam a mesma coisa, eles não precisavam contar um ao outro, ele sabiam que viam a mesma coisa.
Lá ficaram, sentados um de frente para o outro, no chão, rindo, trocando olhares, e rindo, e trocando olhares. Deram-se conta que ninguém prestava atenção neles dois. Concluíram, então, que só eles, ao se encontrarem, conseguiriam ver o céu azul, seus rostos e coisas que só quem se esbarra ao olhar o céu consegue ver.


quarta-feira, 13 de junho de 2012

O velho bandido

Eu sou aquele velho. Parado ante o hotel, olhos fechados, a mala cheia de arrependimentos numa das mãos. O grisalho dos curtos cabelos se confundindo com o cinza do céu, a tempestuosa estação fazendo trovoada dentro dele. Sou ele. Sou o passado que desfila diante de seus olhos, torturando-o com nostalgias e lembranças que não ressuscitam nem exorcizam fantasmas. Com a bengala cravada ao chão, apoiado por seu orgulho desfeito, eu sou aquele homem, que sente apertar no peito o amor partido das eras, o florescer de muitas primaveras, o frio de muitos invernos. Ele, tal como eu, viveu a vida como se comete um erro: repentinamente, impensadamente, dolorosa e ardentemente. E tal foram seus olhos ante a vida, como disparates ao vento, raios de sol para as nuvens, céu azul para o firmamento de estanho.
Parado diante do hotel, a angustiosa estação fazendo chuva dentro dele, sente apertar no peito uma dor não mais de saudade, não mais de amor, não mais de vida. A pontada lancinante da morte agora vara seu coração dilacerado pelo tempo. Lentamente, como na luta de facas das Bodas de Sangue, ele cai. Estende a mão para o alto, pedindo perdão, sentindo o frio de todos os invernos. A calçada fria é seu leito. O céu cinzento lhe dá a extrema unção. Sem olhar para trás, já dobrei a esquina, não vendo o velho bandido morrer esquecido naquela rua já deserta, não vendo a minha própria morte, a morte dos meus olhos nos olhos dele.

Fonte: sevicosocial.blogspot.com

A carta esquecida, seguido de Conhaque

Assim que eu galgar a esquina, ela vai terminar de cuidar de suas coisas dentro da bolsa. Quando eu tiver dado mais dez passos, ela vai ver a bola de papel sobre a mesa. Outros dez e ela abrirá o papel, desamassando-o. Na próxima esquina ela terá terminado de ler a carta de amor que escrevi. E em mais um passo, um único passo, o papel tornará a ser amassado. E em dois passos mais, mais uma carta de amor jazerá esquecida dentro de uma lata de lixo, como se nunca tivesse sido lida.

Fonte: Google Images

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Preto, branco e vermelho

Ele, que já andava havia algumas horas pela cidade, percebera finalmente que estava sonhando. Passava por multidões que se deslocavam como gado, num ritmo comum às metrópoles. Escurecia rapidamente, a noite anunciando sua chegada a cada minuto. Caminhava ao encontro de alguma coisa que não sabia bem o que era, mas tinha certeza de que iria encontrar.
Passou por uma galeria mal iluminada, por uma janela interna uma luz vermelha piscava, refletindo nos ladrilhos brancos do corredor. O ar denunciava a idade do prédio, o eco das passos criava uma atmosfera densa. Notou estar só, porém outro som de passos veio se somar ao seu, vindo da frente, de não muito longe. Escutava com atenção. Eram sapatos de salto. Era uma mulher, caminhava devagar. Apareceria na curva a qualquer instante. Os passos ficavam mais próximos. Sabia sem saber de sua presença sólida e invisível como o ar.
Quando seus cabelos bicolores surgiram, as imagens pareciam ganhar outra forma, a galeria estava viva. O negro e louro de seus cabelos confundiam os olhos e a alma, os olhos eram grandes imãs escuros embaixo das sobrancelhas nem grossas nem finas, no rosto redondo o meio-sorriso moldando aterradoramente os lábios desenhados a traço fino. A pele ficava fantasmagoricamente branca e depois vermelha, branca e depois vermelha, piscava a luz lá fora. As formas do corpo parcamente escondidas debaixo dos panos negros que o cobriam (e tudo) eram presentes e indubitáveis.
As palavras saiam da boca da musa sem forma, mas coloridas como o céu do fim de tarde. Ele não entendia, mas compreendia. A luz vermelha piscava, piscava, piscava lá fora. Ele só ouvia musica, sem saber o que esperar dela, do sonho, da vida. Dela queria tudo. Dela queria nada. A paz inquieta do momento preenchia seu coração. Ambos estavam cientes de que se possuíam sem pertencer um ao outro. Ele olhava para baixo, admirando a grandeza dela. Ela olhava para cima percebendo a fragilidade dele. Estariam juntos e separados para sempre. Era a dor e o gozo do momento. Atormentava e apaziguava numa deliciosa confusão. Tocavam-se com os olhos. Tocavam-se com todo seu sentimento.
Não precisavam se abraçar. Não precisavam tocar os lábios. Não precisavam de nada. Era só ali que as coisas faziam algum sentido. Acordar seria o fim de toda a vida. Agarravam-se desesperadamente ao momento. Vermelho, branco, preto. Vermelho, branco, preto. Vemelho, branco...
Acordar seria o fim de toda a vida. E foi.



quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Pablo

No palco, ele declamava um poema de um desses autores malditos. Estava só no teatro. Porém, a ênfase que dava a cada verso, a veracidade de sua performance ele tratava como se fosse para um público imenso. Era o seu momento. Era a sua vez de brilhar. Mesmo que seu brilho fosse uma estrela solitária em meio a um ponto vazio do espaço. Os versos chegavam ao clímax. A voz embargava e alteava, até eclodirem as palavras finais...
- Ô, menino! O teatro tá fechando, faz o favor de sair, tá bom?
O senhor da limpeza, velho, rabugento e enrugado, aparecia detrás dos bancos ao fundo do teatro.  Usava um macacão azul escuro gasto e imundo. Diante daquele categórico pedido, o trovador só tinha como alternativa sair.
Pablo era moreno, mediano, magro e não tão belo. Do teatro era iluminador, e constantemente ficava depois de uma apresentação ou ensaio para desligar os equipamentos, mas, claro, devido ao seu sonho irresistível de ser ator, sempre acabava subindo ao palco para dar asas a sua imaginação. Era talentoso, pelo menos, a seu ver, mas para qualquer outra pessoa, a possibilidade daquele rapaz atuar parecia inverossímil. Por isso, ocupava ele a posição de artista frustrado, que trabalhava na área que queria, mas não no cargo que cobiçava.
Era pobre, morava só, e para pagar suas contas se valia de seu trabalho como estátua viva na Rua dos Andradas, além do cachê de seu trabalho como iluminador. Seu apartamento, na mesma rua, era uma coleção de problemas dos mais variados: elétrica centenária, infiltrações por todos os lados e vizinhos tarados e barulhentos que não o deixavam dormir à noite com suas orgias desvairadas. Aliás, estava cercado de vizinhos estúpidos e intrometidos. Constantemente enojava-se com suas mazelas e maldizeres. Gente que não rompia com as correntes de miséria mental e espiritual. Estar naquele lugar era para ele uma experiência bastante entediante.
Saíra do teatro e se dirigia para casa, a pé. O Theatro São Pedro ficava bem próximo ao prédio onde morava, e no caminho sempre havia um bar onde podia lubrificar o pensar com os eflúvios etílicos, oferecidos pelo sempre infalível garçom. Vez ou outra encontrava algum amigo ou conhecido, e parava para conversar. Para ele, era sempre bom molhar as palavras e montar as mais mirabolantes teorias sobre a condição humana, a falível e frágil sociedade, o sentido errado que se dava à vida. Podiam “salvar a humanidade ao redor da mesa”, como dizia um músico do momento...
Naquela noite, não encontrara nenhum amigo ou conhecido, então simplesmente fora para casa, andando a passos curtos e ligeiros, encarangado pelo frio incomum daquele outono. As ruas molhadas eram quase espelhos, as luzes davam à noite um tom de sépia quase artístico, e era quase agradável a atmosfera. Os vagabundos vagavam dolorosos pelas calçadas, e olhavam para Pablo com algo que beirava uma interrogação indignada. Todos olhavam para ele desta maneira. Ele até então não entendia por que chamava tanta atenção, nem por que era mirado com certo desprezo. Era, de fato, um ser bastante atípico, tanto no jeito de se vestir quanto nos seus trejeitos. Com o tempo, ele aprendera a ignorar os olhares, porém, mesmo que fosse superior a tudo aquilo, ainda sentia certo desconforto perto das gentes.
Passara pelo pub em frente ao seu prédio. Não havia ninguém com quem pudesse falar por lá, além do dono do estabelecimento e sua esposa, e uma garçonete muito simpática com quem sempre fazia graça. Cumprimentou os conhecidos e se dirigiu ao prédio. Enquanto subia as escadas, respirando profundamente, tentava aliviar as tensões do dia de trabalho. Posara na Rua dos Andradas por quase toda a tarde como estátua viva, depois fizera as luzes para um espetáculo musical. Estava dolorido e com as articulações um tanto endurecidas.
Entrou no apartamento. Estava uma bagunça, como sempre. Nunca encontrava tempo ou disposição para arrumar seu pedaço de lar, que mais parecia um campo de batalha abandonado. Sentara no sofá, pegando na mesa de centro uma garrafa de cachaça mineira. Serviu com cuidado num copo pequeno, para não derramar nenhuma gota. Aquela bebida era cara demais para ser desperdiçada, e era um dos poucos amenizadores de suas tensões diárias. Bebeu todo o conteúdo do copo num gole, sentindo a garganta arder um pouco, e logo depois o estômago queimar por um instante. Por conseguinte, uma sensação de relaxamento alcoólico se espalhava vagarosamente pelo corpo. Aproveitara o momento para dar uma olhada em seu apartamento.
Gostava de olhar para o que tinha. Muitas vezes, conquistara seus bens com muito suor e persistência. No caso do apartamento, era um pouco diferente. Presente de sua mãe, que mais queria se livrar dele do que qualquer outra coisa. Ele, mesmo assim, era grato a ela pela moradia. Era um apartamento de quatro peças: sala, cozinha, banheiro e quarto, muito mais do que podia imaginar que conseguiria, levando em consideração aquilo que ganhava com seu trabalho.
Resolveu ir dormir, pois sentia o peso do cansaço. Tirou as roupas e deitou-se debaixo dos cobertores. Ficou ali, imóvel, esperando o sono vir. Enquanto ele não vinha, Pablo pensava. Era uma das poucas maneiras que conhecia de aguardar o desligamento do corpo e da mente, e também sua favorita. Pensava no trabalho entediante no Theatro, no quanto gostava do posar como estátua viva e no quanto era desgastante fisicamente. Pensava em quando ele finalmente conseguiria pisar num palco a atuar num grande espetáculo. Pensava em como era só, mesmo com amigos e conhecidos espalhados pela cidade, pois praticamente ninguém compartilhava de seu pensamento acerca do mundo, da vida e da arte. Sonhava com o momento que teria reconhecimento por seu esforço.
Quando quase pegava no sono, gemidos e batidas quebraram o silêncio de seu quarto. Eram os vizinhos despudorados do andar de cima. Tudo bem que se amassem tanto, mas era uma falta de respeito perturbar o sono dos outros. Pablo levantou-se da cama, se vestiu e saiu do apartamento. Sabia que ia demorar até aqueles dois se satisfazerem. Desceu as escadas e saiu caminhando pela rua. Gostava de fazer isso, de vez em quando. Passara mais uma vez na frente do pub. Havia um grupo de amigos, mas não conhecia ninguém. Ficava angustiado com isso à vezes. Não tinha muitos amigos em quem podia confiar de fato, e apenas um era como um irmão para ele. Suspirou e seguiu seu caminho.
Dentro do pub, uma moça o vira de relance, mas logo voltou sua atenção aos amigos que riam e se divertiam.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Grande Laranjeira

Era sertão. Era deserto. O que era?
Vira-se, repentinamente num lugar árido, cheio de árvores mortas e enegrecidas como se tivessem sido incendiadas há muito. O céu era quase vermelho, o sol parecia se pôr no horizonte. Caminhava desnorteado, como se procurasse algo, sem saber ao certo o que procurava. Como sempre, não sentia o chão embaixo de seus pés. No entanto, ele caminhava com seus pés incertos pela terra devastada, erodida e infértil daquele que parecia ser o âmago do seu espírito. Tinha ciência de sua solidão, e que, uma vez ali, não teria auxílio. Estava à própria sorte dentro dos confins de si próprio.
Lembrou-se. Procurava uma árvore. Uma certa árvore. Até pouco tempo antes, era grande, bela e frondosa. Os passos, ainda incertos, já eram mais ligeiros. Olhava em volta, confusamente, quase desesperado. Foi quando sua solidão fora interrompida por homens estranhos. Vestiam negro, tinha cabelos curtos e negros, e seus olhos eram profunda e opacamente negros. Diziam: "Para trás, te perderás nestas terras áridas". Desencorajavam-no em sua busca pela Grande Laranjeira, que era a sua essência maior, a fonte de todos os seus sonhos e inspirações.
Seguiu impávido. Tinha de encontrá-la. Que seus medos e angústias o devorassem vivo, como leões devoram a caça. Que se perdesse naquela terra infértil. Que seus pés sangrassem pela interminável caminhada.  Que fosse consumido pelo esforço. Não importava, tinha de encontrá-la!
Quando ele finalmente a viu...
A Grande Laranjeira, antes bela e frondosa, era agora uma grande árvore petrificada, sem folhas, sem vida. Andando em volta dela, notou que tinha o seu rosto. A expressão era triste, desolada. Uma gota de seiva escura corria de um de seus olhos, como se fosse uma lágrima silenciosa e cheia de pesar. Os homens estranhos diziam: "Eis tua essência, eis teu ser. Esta árvore está morta.".
Ele caiu de joelhos.
Não... Não...! Era bela... Era frondosa... Era fértil e muito forte... O que aconteceu? Pôs-se em pé fracamente, e abraçou a árvore com sentimentos que se misturavam: medo, pesar, carinho, amor, remorso... Sentiu sua casca petrificada e chorou, pedindo sincero perdão pelo abandono, pela desilusão e pela falta de carinho que proporcionara à planta, que era sua essência, sua inspiração, sua vida.
Sentiu a Grande Laranjeira pulsar. Então, percebeu que, pouco a pouco, muito lentamente, a velha árvore ganhava nova vida. A casca começara a rachar, o rosto que era igual ao seu se desmanchava como uma máscara. Vêem? disse ele aos homens estranhos Está viva!
Das rachaduras irrompiam fachos de luz branca e ofuscante. De repente, a casca de pedra da árvore voou aos pedaços para todos os lados, e no lugar onde antes se encontrava a Grande Laranjeira morta, resplandescia uma gloriosa planta feita de pura luz, que desfez à sua volta toda a paisagem seca e infértil.
E tudo, então, se tornou luz...


sábado, 8 de maio de 2010

A Jornada e o Tempo, ou Condição Humana

Tanto caminho e parece que a gente anda em círculos! Este é um dos absurdos da Jornada. Sim, são muitos os poréns dela, mas não escapamos nunca da caminhada. É sempre necessário dar um próximo passo, mesmo que resulte em queda, mesmo que se saiba da possibilidade da queda. Quedar-se imóvel é impossível, de qualquer forma.
Por isto, caminhamos, tanto faz se para frente ou para trás. A Jornada consiste em estarmos sempre em movimento, não importa para onde caminhemos, não importa se retrocedemos, não importa de caímos. Isto porque o Tempo (que exerce sobre nós força inigualável) está sempre andando. Ele fere, degrada, atinge e desfaz muita coisa, mas não pára.
Aprendamos com ele! Por mais que fira, degrade e atinja, o Tempo é o mestre que alimenta teu sangue e sara tuas feridas, e mostra que tudo sempre passa. Ele dá passos curtos e cadenciados, portanto, lentamente tranforma as coisas, e ensina que nossa transformação também é lenta. Chego a acreditar que o Tempo foi um grande sábio encarnado e que agora olha por nós sob a forma do passar das horas, dos dias e dos anos, sempre ensinando que na Jornada se deve andar devagar, e nunca deixar de andar.
Nós, estúpidos e infelizes seres humanos, tememos ambos o Tempo e a Jornada pelo mero fato de, para nós, serem coisas desconhecidas. Está por vir o dia em que teremos de romper com as correntes da nossa ignorância e caminhar sem medo pela estrada do que chamamos vida, sem tentar prever o próximo passo. A Jornada é nebulosa, e não se vê um palmo à nossa frente, porém, se tivermos fé, cada passo será dado com segurança em nosso chão, e entenderemos que o Tempo nos ensinou bem a caminhar devagar.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O assalto, ou Da condição social, ou O virar da mesa

Ele me pegou pelo braço, com força. No primeiro momento pensei ser um amigo fazendo algum tipo de brincadeira, mas quando me virei, constatei não conhecer o sujeito. Ligeiramente mais baixo que eu, moreno, cabelos compridos e corpo forte. Usava um boné, uma camiseta física, uma bermuda e chinelos de dedo. Lancei-lhe um olhar curioso, quando anunciou:
- Fica quietinho e me passa a carteira.
Meu olhar passou a ser de incredulidade. Um assalto? Naquela rua? Não era verdade. Mas quando ele levou a mão ao meu bolso, dei-me conta de que não era piada. Uma estranha, porém gostosa sensação de comicidade aflorou do fundo do meu ser. Sim, ele estava me assaltando. Ele abriu minha carteira.
- Cadê o dinheiro?
- Tá aí.
- Cadê o dinheiro?!
- Aí dentro.
Achou. Quatro reais. Por uma fração de segundo, uma fração de segundo que nos pareceu bem longa, ele ficou em silêncio. O olhar dele para as duas notas de dois era de desapontamento.
- Só isso?!
Aquela sensação de comicidade se transformou numa vontade inquieta de rir, que segurei frouxamente. Sim, havia apenas quatro reais na carteira, e outros quatro e alguns quebrados em moedas no meu bolso, o suficiente para voltar para casa.
- Só isso. - falei com um meio sorriso, que, creio, ele não percebeu.
Ele vasculhou minha carteira mais um pouco. Ele achava um cartão de plano de saúde aqui, um ingresso vencido ali... A cada objeto a vontade de rir crescia. Aquilo tinha de parar logo.
- E o celular?! Cadê teu celular?! - ele já estava um pouco alterado. E isto fez minha vontade de rir ficar insuportável.
- Não tenho...
- NÃO TEM?!
Aquilo já era demais. Quando dei por mim, estava rindo da cara do pobre coitado. E quando percebi sua surpresa ante minha reação, ri mais alto, um riso primal, debochado, malicioso, zombeteiro.
Não sei bem o que aconteceu. Minha carteira caiu da mão do sujeito. Em seguida ele saiu, com a cabeça baixa, nitidamente desanimado. Meu riso ecoava na rua quase vazia, um riso implacavelmente feroz. A cada gargalhada, ele parecia ficar menor, mais contraído, mais escurraçado pela minha nítida zombaria.
Tanto esforço, tanto nervosismo, para levar apenas quatro reais mirrados. Pobre coitado. Era mais fácil pedir.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Dos inimigos, dos amigos, da luz, da treva e de como lido com tudo isso.

"Um homem de princípios faz inimigos todos os dias."
                                                     (Hermann Hesse)

"Quem é sábio, aprende muito com os seus inimigos."
                                                             (Aristófanes)

"Deus me proteja dos meus amigos. Dos inimigos, cuido eu."
                                                                             (Voltaire)

"A tua atitude emerge do que costumas dizer: 'Ainda sou capaz de utilizar quem é por mim. Mas prefiro, por comodidade, mandar o meu adversário para o outro campo e abster-me de agir sobre ele, a não ser pela guerra'.
Ao proceder assim, não fazes mais que endurecer e forjar o teu adversário.
E eu cá digo que amigo e inimigo são palavras da tua lavra. É certo que especificam qualquer coisa, como definir o que se passará se vos encontrardes num campo de batalha, mas um homem não se rege só por uma palavra. Sei de inimigos que estão mais perto de mim ou que me são mais úteis ou que me respeitam mais do que os amigos. As minhas faculdades de acção sobre o homem não estão ligadas à sua posição verbal. Direi mesmo que actuo melhor sobre o meu inimigo do que sobre o amigo: quem caminha na mesma direcção que eu, oferece-me menos oportunidades de encontro e de troca do que aquele que vem contra mim, disposto a não deixar escapar a mínima palavra ou gestos meus, que lhe podem sair caros." 
                                                         (Antoine de Saint-Exupéry)

Quem está contra mim? E quem me quer bem? Quem me leva às trevas com a velocidade de uma queda livre e quem é capaz de me rebatizar na luz? Quem quer devorar minha essência e quem quer preservá-la?
Sinto a paranóia e a insanidade cada vez mais próximas de mim. Sinto que alguém espreita meu leito, com a adaga mais afiada, para lavar meus lençóis de sangue. O meu sangue. A minha vida. Sinto que vampiros sugam mais e mais a minha luz, e me vejo nos espelhos cada vez mais escuro e mingüado, mais velho, mais cansado... Tenho em mim o medo de andar na luz, pois tenho medo que meus inimigos me vejam...
Mas e quanto a iluminação que alcancei no passado? Onde ficou? Onde está agora que preciso dela?
A resposta é mais simples do que posso imaginar: deixei meu desespero desfaze-la de minha lembrança. Agora, não sei mais como contornar o demônios que me atormentam, sejam eles externos ou internos. Não seu dizer se meus inimgos estão dentro de mim ou fora de mim, e nem se são realmente inimigos. Talvez, pela falta do amor que tanto custei em conquistar, e que de alguma maneira se perdeu no caminho, minha visão tenha ficado turva e distorcida, e eu já não tenha mais capacidade de distinguir as pessoas e as coisas.
Não obstante...
Quando lembro do amor, mais da essência da palavra do que da palavra em si, sinto que ainda tenho um pouco mais de força. Sinto que posso conter meus demônios, que posso vencer meu inimigos sem feri-los, que posso recuperar amigos que perdi ou que se perderam. Quando lembro do amor, retorna a mim um pouco daquela iluminação do passado, a sabedoria que conquistei com muito custo. E com este pouco de sabedoria, posso me manter em pé para ao menos caminhar alguns passos para frente, para a evolução. Quando lembro do amor, tenho certeza de que os inimigos que fiz por ter eu uma opinião com a qual eles não concordam um dia vão entender e respeitar meu ponto de vista. Com amor, posso converter os inimigos que fiz em novos amigos. E os amigos que perdi por eu ter me perdido voltarão ao perceber que voltei de meu tormento mais forte. Os amigos que ficaram certamente se alegrarão ao ouvir o riso dos imortais que irromperá de minha boca no momento da minha glória. E os inimigos que insistirem em atacar minha alma ouvirão a oração de São Jorge e fugirão acuados.

Chagas abertas, Sagrado Coração todo amor e bondade, o sangue do meu Senhor Jesus Cristo, no corpo meu se derrame hoje e sempre.
Eu andarei vestido e armado, com as armas de São Jorge. Para que meus inimigos tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me exerguem e nem pensamentos eles possam ter para me fazerem mal.
Armas de fogo o meu corpo não o alcançarão, facas e lanças se quebrarão sem ao meu corpo chegar, cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrarem.
Jesus Cristome proteja e me defenda com o poder de sua Santa e Divina Graça, a Virgem Maria de Nazaré, me cubra com o seu Sagrado e divino manto, me protegendo em todas minhas dores e aflições, e Deus com a sua Divina Misericórdia e grande poder, seja meu defensor, contra as maldades de perseguições dos meus inimigos, e o glorioso São Jorge, em nome de Deus, em nome de Maria de Nazaré, e em nome da falange do Divino Espírito Santo, me estenda o seu escudo e as suas poderosas anulas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, do poder dos meus inimigos carnaise espirituais e de todas sua más influências, e que debaixo das patas de seu fiel ginete, meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós, sem se atreverema ter um olhar sequer que me possa prejudicar.
Assim seja com o poder de Deus e de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo.
Amém.