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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Grande Laranjeira

Era sertão. Era deserto. O que era?
Vira-se, repentinamente num lugar árido, cheio de árvores mortas e enegrecidas como se tivessem sido incendiadas há muito. O céu era quase vermelho, o sol parecia se pôr no horizonte. Caminhava desnorteado, como se procurasse algo, sem saber ao certo o que procurava. Como sempre, não sentia o chão embaixo de seus pés. No entanto, ele caminhava com seus pés incertos pela terra devastada, erodida e infértil daquele que parecia ser o âmago do seu espírito. Tinha ciência de sua solidão, e que, uma vez ali, não teria auxílio. Estava à própria sorte dentro dos confins de si próprio.
Lembrou-se. Procurava uma árvore. Uma certa árvore. Até pouco tempo antes, era grande, bela e frondosa. Os passos, ainda incertos, já eram mais ligeiros. Olhava em volta, confusamente, quase desesperado. Foi quando sua solidão fora interrompida por homens estranhos. Vestiam negro, tinha cabelos curtos e negros, e seus olhos eram profunda e opacamente negros. Diziam: "Para trás, te perderás nestas terras áridas". Desencorajavam-no em sua busca pela Grande Laranjeira, que era a sua essência maior, a fonte de todos os seus sonhos e inspirações.
Seguiu impávido. Tinha de encontrá-la. Que seus medos e angústias o devorassem vivo, como leões devoram a caça. Que se perdesse naquela terra infértil. Que seus pés sangrassem pela interminável caminhada.  Que fosse consumido pelo esforço. Não importava, tinha de encontrá-la!
Quando ele finalmente a viu...
A Grande Laranjeira, antes bela e frondosa, era agora uma grande árvore petrificada, sem folhas, sem vida. Andando em volta dela, notou que tinha o seu rosto. A expressão era triste, desolada. Uma gota de seiva escura corria de um de seus olhos, como se fosse uma lágrima silenciosa e cheia de pesar. Os homens estranhos diziam: "Eis tua essência, eis teu ser. Esta árvore está morta.".
Ele caiu de joelhos.
Não... Não...! Era bela... Era frondosa... Era fértil e muito forte... O que aconteceu? Pôs-se em pé fracamente, e abraçou a árvore com sentimentos que se misturavam: medo, pesar, carinho, amor, remorso... Sentiu sua casca petrificada e chorou, pedindo sincero perdão pelo abandono, pela desilusão e pela falta de carinho que proporcionara à planta, que era sua essência, sua inspiração, sua vida.
Sentiu a Grande Laranjeira pulsar. Então, percebeu que, pouco a pouco, muito lentamente, a velha árvore ganhava nova vida. A casca começara a rachar, o rosto que era igual ao seu se desmanchava como uma máscara. Vêem? disse ele aos homens estranhos Está viva!
Das rachaduras irrompiam fachos de luz branca e ofuscante. De repente, a casca de pedra da árvore voou aos pedaços para todos os lados, e no lugar onde antes se encontrava a Grande Laranjeira morta, resplandescia uma gloriosa planta feita de pura luz, que desfez à sua volta toda a paisagem seca e infértil.
E tudo, então, se tornou luz...


quarta-feira, 9 de junho de 2010

Os olhos do corvo

Aquilo acima deles não é céu. Aquilo embaixo deles não é terra. Essa gente ensandescida morre pouco a pouco, de frio ou de calor, de fome ou de gula, de amor ou de ódio. O ser humano é triste, engraçado, infantil... Não consigo ver neles nada além de carne semi-morta desfilando sobre esta massa de concreto e piche. Carcaças. Só o que são.
A primeira parte que gosto de comer-lhes é os olhos. Gosto de sentir o globo ocular estourando, vertendo seu nectar sangrento... Cuspo o cristalino. Praticamente tudo no ser humano tem uma parcela não aproveitável. Não só na sua carne, mas no seu espírito. Parece-me que a eles é agradável juntar inutilidades. A maior parte do tempo, gasto cuspindo fora partes que de nada servem, principalmente na alma desses macacos sem pêlos. Por isso, prefiro devorar as crianças. Elas tem cartilagens mais moles, assim como um espírito mais flexível, tenro, fácil de digerir.
É estranho vê-los inertes, apodrecendo. Passam a vida correndo, para depois acabar dentro dum caixão, ou atirados em qualquer lugar, esquecidos. No segundo caso, é quando ajo. Faço-lhes o favor de aproveitar o que nunca aproveitaram. Como-lhes a carne. Como-lhes a alma. Encontro meu prazer no passamento. Meu alimento. Minha vida na morte deles.


segunda-feira, 1 de março de 2010

Pena de morte, ou O suicídio.

O pensamento inexistia. O ar era sólido e frio como granizo. Ao longe, os prédios se erguiam em seus alicerces. A cidade ainda dormia. Ele, do alto daquele edifício, contemplava a imensidão, só como um oasis. Escura era sua vida. Tolo era seu pensar, que agora, sumia com o carro que dobrava a esquina. Ele era só. Ele era sólido. Ele era frio.
Parou-se à beira de seu cadafalso. Sabia que havia errado. Sabia que era culpado. E sabia que sua condenação era mais do que justa. Já não tinha direito a felicidade. Sabia que muitas vidas se perderiam em seus braços e que era perigosamente tolo. Sabia que era mentiroso e sedutor. Tinha consciência de seus crimes mais hediondos, agora mais do que nunca.
Mais uma vez fitou a cidade. Era uma despedida. Era um último olhar de um condenado ao povo que o condena. Uma lágrima boba e silenciosa brotou-lhe dos olhos. Ele se fez sol quando o sol se ergueu. Ele se fez vento quando o vento soprou. Ele se fez livre. Abriu o vão de seu próprio cadafalso. Sentiu o ar gelado mais leve e fluído, flutuando pelo ar como pássaro. Sentiu, por um breve e agoniado instante, o alívio dos aflitos.
Tocou o chão violentamente. Sentia dor e desespero. Inerte, patético, fitou a única coisa que podia fitar naquele momento: o céu. Azul e cruel, parecia olhar de volta. Mais uma lágrima se fez cair de seus olhos. Aquilo que ele mais queria estava ali, logo ali, acima dele, mas sabia que, ali embaixo, tão baixo, jamais seria capaz de alcançar o céu...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Dos inimigos, dos amigos, da luz, da treva e de como lido com tudo isso.

"Um homem de princípios faz inimigos todos os dias."
                                                     (Hermann Hesse)

"Quem é sábio, aprende muito com os seus inimigos."
                                                             (Aristófanes)

"Deus me proteja dos meus amigos. Dos inimigos, cuido eu."
                                                                             (Voltaire)

"A tua atitude emerge do que costumas dizer: 'Ainda sou capaz de utilizar quem é por mim. Mas prefiro, por comodidade, mandar o meu adversário para o outro campo e abster-me de agir sobre ele, a não ser pela guerra'.
Ao proceder assim, não fazes mais que endurecer e forjar o teu adversário.
E eu cá digo que amigo e inimigo são palavras da tua lavra. É certo que especificam qualquer coisa, como definir o que se passará se vos encontrardes num campo de batalha, mas um homem não se rege só por uma palavra. Sei de inimigos que estão mais perto de mim ou que me são mais úteis ou que me respeitam mais do que os amigos. As minhas faculdades de acção sobre o homem não estão ligadas à sua posição verbal. Direi mesmo que actuo melhor sobre o meu inimigo do que sobre o amigo: quem caminha na mesma direcção que eu, oferece-me menos oportunidades de encontro e de troca do que aquele que vem contra mim, disposto a não deixar escapar a mínima palavra ou gestos meus, que lhe podem sair caros." 
                                                         (Antoine de Saint-Exupéry)

Quem está contra mim? E quem me quer bem? Quem me leva às trevas com a velocidade de uma queda livre e quem é capaz de me rebatizar na luz? Quem quer devorar minha essência e quem quer preservá-la?
Sinto a paranóia e a insanidade cada vez mais próximas de mim. Sinto que alguém espreita meu leito, com a adaga mais afiada, para lavar meus lençóis de sangue. O meu sangue. A minha vida. Sinto que vampiros sugam mais e mais a minha luz, e me vejo nos espelhos cada vez mais escuro e mingüado, mais velho, mais cansado... Tenho em mim o medo de andar na luz, pois tenho medo que meus inimigos me vejam...
Mas e quanto a iluminação que alcancei no passado? Onde ficou? Onde está agora que preciso dela?
A resposta é mais simples do que posso imaginar: deixei meu desespero desfaze-la de minha lembrança. Agora, não sei mais como contornar o demônios que me atormentam, sejam eles externos ou internos. Não seu dizer se meus inimgos estão dentro de mim ou fora de mim, e nem se são realmente inimigos. Talvez, pela falta do amor que tanto custei em conquistar, e que de alguma maneira se perdeu no caminho, minha visão tenha ficado turva e distorcida, e eu já não tenha mais capacidade de distinguir as pessoas e as coisas.
Não obstante...
Quando lembro do amor, mais da essência da palavra do que da palavra em si, sinto que ainda tenho um pouco mais de força. Sinto que posso conter meus demônios, que posso vencer meu inimigos sem feri-los, que posso recuperar amigos que perdi ou que se perderam. Quando lembro do amor, retorna a mim um pouco daquela iluminação do passado, a sabedoria que conquistei com muito custo. E com este pouco de sabedoria, posso me manter em pé para ao menos caminhar alguns passos para frente, para a evolução. Quando lembro do amor, tenho certeza de que os inimigos que fiz por ter eu uma opinião com a qual eles não concordam um dia vão entender e respeitar meu ponto de vista. Com amor, posso converter os inimigos que fiz em novos amigos. E os amigos que perdi por eu ter me perdido voltarão ao perceber que voltei de meu tormento mais forte. Os amigos que ficaram certamente se alegrarão ao ouvir o riso dos imortais que irromperá de minha boca no momento da minha glória. E os inimigos que insistirem em atacar minha alma ouvirão a oração de São Jorge e fugirão acuados.

Chagas abertas, Sagrado Coração todo amor e bondade, o sangue do meu Senhor Jesus Cristo, no corpo meu se derrame hoje e sempre.
Eu andarei vestido e armado, com as armas de São Jorge. Para que meus inimigos tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me exerguem e nem pensamentos eles possam ter para me fazerem mal.
Armas de fogo o meu corpo não o alcançarão, facas e lanças se quebrarão sem ao meu corpo chegar, cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrarem.
Jesus Cristome proteja e me defenda com o poder de sua Santa e Divina Graça, a Virgem Maria de Nazaré, me cubra com o seu Sagrado e divino manto, me protegendo em todas minhas dores e aflições, e Deus com a sua Divina Misericórdia e grande poder, seja meu defensor, contra as maldades de perseguições dos meus inimigos, e o glorioso São Jorge, em nome de Deus, em nome de Maria de Nazaré, e em nome da falange do Divino Espírito Santo, me estenda o seu escudo e as suas poderosas anulas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, do poder dos meus inimigos carnaise espirituais e de todas sua más influências, e que debaixo das patas de seu fiel ginete, meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós, sem se atreverema ter um olhar sequer que me possa prejudicar.
Assim seja com o poder de Deus e de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo.
Amém.