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terça-feira, 22 de setembro de 2015

Coveiro

Da vez primeira que me assassinaramPerdi um jeito de sorrir que tinha...
Depois de cada vez que me mataram
Foram levando qualquer coisa minha...

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela amarelada...
Como único bem que me ficou!

Vinde corvos, chacais, ladrões de estrada!
Ah! Desta mão avaramente adunca
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!

Mário Quintana - Soneto XVII

Enterrei mais um hoje. Esse teve que ser na chuva mesmo, pois já estava morto havia um tempo, por isso não podia deixar para depois. Era pesado. Estava cheio de mágoas, expectativas, rancores... Difícil de carregar o caixão quando é assim. Pior ainda na lama. Ele atola. As mãos molhadas pela chuva escorregam da alça como se estivessem untadas com manteiga. Não é nenhum alívio quando o caixão cai na cova. Ainda tem um bocado de terra lodacenta para jogar em cima dele. A roupa molhada pesa. Junte isso ao esforço físico, e tudo no trabalho se torna uma penitência. Nesse tipo de trabalho, ajuda é coisa que não existe. Você enterra uns três por dia sozinho, quando não são mais. É assim quando você vai enterrar os seus mortos. Cada cadáver de você é diferente. Você morre cada dia em momentos diferentes, sendo pessoas diferentes. Mesmo quando se é o coveiro de tantos mortos, sua hora chega "impressentida, jamais inesperada". A pergunta que fica é quem vai enterrar o seu cadáver nesse infinito cemitério interior, onde se sepulta tudo o que se foi e o que se queria ser.

Editada pelo autor.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Vênus em Conjunção com a Lua dos amantes.

Nunca verei Lua como esta de novo... O teu sorriso, e um ponto luminoso que é teu olhar escondido entre teus cabelos. É Vênus em conjunção com a Lua, maré alta em meus olhos, palpitar em meu peito. É a Terra a girar pelo simples acaso das horas, como se não esperasse nada além dessa visão. Tu, que és mulher, verás em mim muito mais do que vejo eu mesmo, e tu que és Lua enxerga bem mais através da minha carne do que meramente sangue. Tu, com teu olhar, me restringes e me incandesces, e eu, tal como vela, incendeio porque teu sorriso existe no meio do céu das minhas noites. A ponta do meu dedo em brasa tenta tocar o teu rosto que se forma entre as estrelas, sem sucesso.
E quem dirá que nunca te toquei, se em meu sono é tua luz que me acaricia o rosto, me afaga os cabelos e beija meus olhos? Quem me acalenta nos horas infelizes dos meus dias, quem viola o curso do tempo e me faz voltar aos dias mais tenros da minha idade? Quem me retorna ao berço da terra, me faz pó e sombra do mundo? Quem, senão tu, minha Lua?
E nunca, nunca mulher, nunca minha Lua, verei Lua como tu outra vez. Que as conjunções astrais são tão efêmeras quanto as mãos que te escrevem.




quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Grande Laranjeira

Era sertão. Era deserto. O que era?
Vira-se, repentinamente num lugar árido, cheio de árvores mortas e enegrecidas como se tivessem sido incendiadas há muito. O céu era quase vermelho, o sol parecia se pôr no horizonte. Caminhava desnorteado, como se procurasse algo, sem saber ao certo o que procurava. Como sempre, não sentia o chão embaixo de seus pés. No entanto, ele caminhava com seus pés incertos pela terra devastada, erodida e infértil daquele que parecia ser o âmago do seu espírito. Tinha ciência de sua solidão, e que, uma vez ali, não teria auxílio. Estava à própria sorte dentro dos confins de si próprio.
Lembrou-se. Procurava uma árvore. Uma certa árvore. Até pouco tempo antes, era grande, bela e frondosa. Os passos, ainda incertos, já eram mais ligeiros. Olhava em volta, confusamente, quase desesperado. Foi quando sua solidão fora interrompida por homens estranhos. Vestiam negro, tinha cabelos curtos e negros, e seus olhos eram profunda e opacamente negros. Diziam: "Para trás, te perderás nestas terras áridas". Desencorajavam-no em sua busca pela Grande Laranjeira, que era a sua essência maior, a fonte de todos os seus sonhos e inspirações.
Seguiu impávido. Tinha de encontrá-la. Que seus medos e angústias o devorassem vivo, como leões devoram a caça. Que se perdesse naquela terra infértil. Que seus pés sangrassem pela interminável caminhada.  Que fosse consumido pelo esforço. Não importava, tinha de encontrá-la!
Quando ele finalmente a viu...
A Grande Laranjeira, antes bela e frondosa, era agora uma grande árvore petrificada, sem folhas, sem vida. Andando em volta dela, notou que tinha o seu rosto. A expressão era triste, desolada. Uma gota de seiva escura corria de um de seus olhos, como se fosse uma lágrima silenciosa e cheia de pesar. Os homens estranhos diziam: "Eis tua essência, eis teu ser. Esta árvore está morta.".
Ele caiu de joelhos.
Não... Não...! Era bela... Era frondosa... Era fértil e muito forte... O que aconteceu? Pôs-se em pé fracamente, e abraçou a árvore com sentimentos que se misturavam: medo, pesar, carinho, amor, remorso... Sentiu sua casca petrificada e chorou, pedindo sincero perdão pelo abandono, pela desilusão e pela falta de carinho que proporcionara à planta, que era sua essência, sua inspiração, sua vida.
Sentiu a Grande Laranjeira pulsar. Então, percebeu que, pouco a pouco, muito lentamente, a velha árvore ganhava nova vida. A casca começara a rachar, o rosto que era igual ao seu se desmanchava como uma máscara. Vêem? disse ele aos homens estranhos Está viva!
Das rachaduras irrompiam fachos de luz branca e ofuscante. De repente, a casca de pedra da árvore voou aos pedaços para todos os lados, e no lugar onde antes se encontrava a Grande Laranjeira morta, resplandescia uma gloriosa planta feita de pura luz, que desfez à sua volta toda a paisagem seca e infértil.
E tudo, então, se tornou luz...


quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O vulto

Ele corria em desespero. "Ele vai me alcançar! Merda, MERDA!, ele vai me alcançar!". O suor escorria de cada poro, entrando em cada fenda e caía no asfalto. Olhava para trás enquanto suas pernas faziam um esforço sobre-humano para manter distância de seu perseguidor. O ar parecia rarefeito pelo esforço de respirar enquanto corria. A névoa era densa. A noite era tão escura que nem as luzes dos postes conseguiam iluminar tão bem a rua.
Em seu encalço, uma sombra, ainda mais escura que o breu da noite, parecia flutuar pouco acima do chão. Diferentemente de sua presa, parecia calma, quase como se estivesse apenas caminhando, sem esforço. O cheiro que exalava era de sangue e morte. Não tinha olhos, não tinha boca. Não enxergava, nem falava. Em compensação, respirava profundamente, como que farejando sua vítima.
O perseguido tropeçava nos próprios pés sempre que olhava para trás. Até que, numa mirada, a sombra desaparecera.Cuidadosamente, verificou os quatro cantos da rua. Não havia sinal de seu algoz em lugar algum. Por um momento, sentiu um patético alívio.
Foi quando, sem aviso, ele se vira completamente envolvido pelo vulto.