sábado, 21 de novembro de 2009

Dois cafés e um bocado de paz

Dois cafés e um bocado de paz. Era tudo o que necessitava naquele momento. Um pouco de inércia, de letargia, para escapar, por um momento, da estranha e difícil realidade. A realidade do amor. Dois cafés e um pouco de paz, de ócio. Aquele mendigo viciado em crack pragueja, grita imprecações e aponta o dedo para a televisão do boteco de ruela. Sim, também o mendigo era distração. Tudo para aquele pobre homem derrotado era necessário para esquecer: a televisão, o mendigo, os cafés, a paz, o ócio... Tentava manter-se alheio a qualquer coisa que fizesse lembrar de ontem; o tarô, a discussão, as lágrimas, a tensão no ambiente de trabalho, a competição ferrenha entre duas mulheres por causa dele, meu Deus, por causa dele!, justo ele, pobre-diabo que não tinha onde cair morto. Tentava entender que encanto ele exercia sobre aquela duas, em específico, uma tão séria e competente, porém tão meiga; outra tão inconsequente e aluada, tentadora, mas ao mesmo tempo repulsiva. Talvez ele entendesse o fascínio da segunda, mas a primeira, tão mais perfeita, era um mistério por que se apaixonara por ele.
Para tentar esquecer tudo isto, dois cafés e um bocado de paz. Precisava ficar acordado, mesmo que quisesse dormir e sonhar com um belo teatro mágico, onde poderia ser e fazer o que bem entendesse e necessitasse. Mas não podia dormir, nem escapar da realidade atormentadora que o cercava. Era solução ignorá-la. Dois cafés pretos fortes e bem doces, para tentar acordar do pesadelo. Ouvia as notícias da manhã na televisão, e discutia-as com o dono do bar. Talvez agir como uma pessoa normal ajudasse. Mas não ajudava. Só piorava a situação daquele lobo intrépido, pois sabia que, dia após dia, se tornava mais escravo de suas emoções. Mais e mais afundava no próprio mar de lágrima e autopiedade que ele encheu sozinho. Que se afogue na própria burrice.


Um comentário:

Ana Paula disse...
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